Por volta das 19 horas, e após mais alguns contactos via fax, net e telefone -que, por decoro, me abstenho de reproduzir aqui - lá nos encontrámos à porta de um bar com ecrã gigante, que não vamos citar uma vez que já temos os nossos compromissos publicitários.
Pouco depois de chegarmos sentámo-nos a beber uma água mineral gaseficada.
Ansiávamos pela chegada dos nossos convidados havia 20 minutos quando ouvimos um cão ladrar histericamente.
Virámo-nos.
Através da vitrine um cão virado para uma parede.
Na parede um cartaz com a cara do ministro da defesa já muito desbotado.
No pescoço do cão, bastante feio e com um ar pouco inteligente, uma trela.
Na mão do líder da oposição a trela retesava-se e distendia-se agitadamente. Violentamente.
O trânsito suspendeu-se daquela acção. Os carros paravam, a velhota das castanhas calou-se, a mãe deixou de gritar pelo Xavi, a avó deixou de oferecer batatinhas ao neto. ..
As pessoas calaram-se embasbacadas.
Por entre os carros parados e transeuntes que deixaram de o ser, circunspectos, como se da paragem de uma fita velha e gasta de cinema se tratasse, um som forte, um discurso que se avolumou naquele bar, naquele café, naquele bairro:
-Cão do c... Cala-te f...! Não vês que já passaram as eleições? Se os sacanas dos jornalistas vêem esta m... estou f... durante mais uns tempos c... ...
Depois deste discurso, o silêncio. Um silêncio cúmplice de olhares e esgares, alguns divertidos.
Como uma bomba, meia cidade se desatou a rir, histericamente.
A porta do bar abriu-se de rompante. Homem e cão entraram a passo estugado.
Espumavam. Não é gralha: espumavam.
Duas palavras ao barman. Alguns passos na nossa direcção.
-Ó seu c... ... Já viu o que me arranjou?
- Não queríamos...
- Arre f... ! Também eu não queria tanta coisa...
E mudando de assunto:
-O outro cab... já chegou?
-Não... Ainda não... Mas deve estar a chegar...
- Quieto cão de m... do c.. ! Hoje já não te vejo bem! estou farto de rotos, cães, jornalistas, gaijos do meu partido. Estou farto desta m...!
O cão ganiu baixinho, soltando alguns gases e sopros por vários orifícios.
Entre dentes o líder da oposição....:
-Cão de m... ...
A porta 'de mola' do bar voltou a abrir-se.
Direito, hierático, de barbicha apontada ao horizonte chegou o Bastonário.
Vaidoso, ousei acenar-lhe despudoradamente. Provincianamente.
O cavalheiro chegou e, antes de cumprimentar o líder da oposição, apreciando-nos de alto a baixo:
-Chaparro de m... que confiança é essa?
-Desculpe.-Pedimos, baixando os olhos.
Ólhó Ferro. Atão?! Também cá estás.
O ambiente ficou mais descontraído e verificámos que o Bastonário estava apenas a divertir-se com a nossa tacanhez provinciana. A confirmar esta observação:
- Não vou ver um jogo destes a água. Vá, abra os cordões à bolsa.
Abrimos.
Na mesa, presunto de chaves, queijo de Serpa (por nossa exigência) e vinho da Ervideira de reserva. Tudo caro.
Não começava nada bem...
Mas estávamos vaidosos por estar ao pé de gente tão importante...
Tinhamo-nos preparado com questões inteligentes e combinado a venda desta entrevista para alguns jornais...
O jogo estava a começar.
Os nossos convidados sabiam antecipadamente as linhas de cada uma das equipas.
O Bastonário.
-Falei com o Pipi. O árbitro é um mar... do c... ... Vão ver!...
-Não me digas.
O Bastonário: -É pá ! É lixado!...
Nervosos indagamos:
- O Pipi?
- Qual Bibi? - Sentimos a admiração do Bastonário no empinar da sua barbicha e no empertigar do seu senho.
- Perdão. O Pipi.
- Não conheço nenhum Pipi.
- Mas disse Pipi...
- O Bastonário mais à vontade. Agora desminto tudo. É o hábito... O Pinto da Costa é tratado assim pelos seus admiradores... e -com um sorriso cumplice e babado- e amigos.
Começou o jogo.
Passado pouco tempo, o Líder da oposição.
F... ! É verdade... dois amarelos e sempre ao Porto...
Poucos minutos depois - oh malta do Porto, isto cá para baixo é normal...- festejos. Golo do Marselha.
Alguns clientes riam-se e davam murros na mesa.
O Gastão rosnou...
Os meus convidados sorriram e beberam um golo de tinto. De um dos cantos da boca do Ferro uma farripa de presunto caia alegremente. Finalmente entrou na sua cavidade bocal por entre sorrisos e pequenos empurrões digitais...
O jogo prosseguiu. A sua acção tocava todos os nossos reflexos. O vinho também não nos dava muito empenho jornalístico.
Entretivémo-nos a contar os impropérios ditos naquela intimidade.
Pensavamos, sabe-se lá porquê, no Sr. Pinto da Costa...
A espaços um e outro convidado. "Dá-lhe na canelas", "F...-o já!", "F... da P...". E assim...
À despedida o bastonário deu-nos uma valente palmada nas costas:
-Gostei de si, seu car... !
Respodemos:
-Nós também gostámos de estar consigo.
Em resposta obtivemos outra palmada nas costas, acompanhada de um "Ahh Car...!"
Chorando, abraçado ao Gastão o grande Líder:
-Só o futebol é que me dá alegrias.
Depois de limpar o cão da baba que lhe corria pelos cantos da boca espumou:
- O futebol é que é! O Pinto da Costa é que sabe... O país (hic) precisa é de alegrias destas (hic).
Chamámos dois táxis. Ficámos com o segundo, e viemos embora...
Por precaução estavam na esquina do centro comercial mais próximo, à espera de uma chamada nossa a todo o momento... discretamente...