outubro 25, 2003

Levará com toda a certeza a um zénite elogioso, elogiável e orgásmico de novas auroras cognoscitivas.

Aquele deputado nunca percebeu o que se passara anos atrás.
Meditabundo, durante a sessão da Comissão Especializada em que se integrava, cofiava a barba e relembrava...

Depois de uma fulgurante ascensão no seu Distrito, faltava segurar os votos dos seus conterrâneos que já o tinham visto ranhoso e de calções.
Para não falhar nada pediu ao E.P. Coelho uma ajuda para o seu discurso.

A 'galera' estava isolada no meio do adro.
A seu lado duas jovens anafadas agitavam calmamente as bandeiras do Partido. As suas energias concentravam-se no urgente desejo de mascar pastilhas.
Os seus homens 'foram ali, já voltavam...'
Dois reformados continuavam a sua conversa. Dois monólogos... moucos, coitados... Conhecia-os desde menino.
Um fiasco, aquele comício. Um fiasco...
Momentos antes, algumas crianças iniciaram uma partida de futebol. Gritavam, felizes e barulhentas.
Pó. Solidão. Desespero... 'Tremoços' gritava o Manuel das Galinhas...
Um dos miúdos pediu-lhe a bola. Atirou-a violentamente.
Saíu da sua terra à frente de um grupo de pais em fúria. Gritavam e bramiam os punhos no ar.
Uns:
"Anda cá, vaidoso..."
"Peneirento."
Outros:
"Já pensas que és gente..."

Chegou carregado de humilhação à sede de campanha.
Deitou-se ao comprido no sofá castanho de napa.
Cáspite!
Releu o discurso:
"Sou filho tão conspíquo quanto asséptico desta terra amada, guarnecida de sol e de água. Para mim estar aqui neste umbigo civilizacional, neste útero fremente de força vital urgindo pelo sémen fertilizante do saber e da tecnologia que, de mãos irmamente dadas se propõem atravessar o abismo tenebroso das trevas da 'não cultura' e do 'não conhecimento', qual reino do Hades sobre o Eu panegírico e egocêntrico , em termos imagéticos, que não virtuais, levará com toda a certeza a um zénite elogioso, elogiável e orgásmico de novas auroras cognoscitivas."

LINDO!


-Aquela terra não me merece! Cambada de analfabetos...


Caro leitor, para aferir da veracidade desta história leia abaixo um excerto brilhante do prolixo autor EPC...

Se quiser todo o discurso clique-lhe no excerto. Algo de orgásmico atravessará a pantalha do seu PC...

Mas neste ponto descobrimos que o que está em jogo é mais do que uma inversão de pregnâncias e cotações. Não é de amizade nem de amor que se trata. Mas de um processo mais complexo e desconcertante em que estamos para além da amizade e do amor, num espaço de infinita sexualização pela pura e também impura ausência dos corpos, numa espécie de invenção impossível a que apenas se pode dar o nome de Deus. Porque, se Deus é também uma personagem deste texto, é precisamente deste modo, como designação de um lugar concebível em que se deixam para trás as etiquetas do amor e da amizade e onde se pode encontrar o eixo definitivo em que dois seres se precipitam interminavelmente um para dentro do outro (seja na distância, seja na discórdia, seja no absurdo da separação, ou no equívoco das peripécias do quotidiano).

Publicado por Francisco Nunes em outubro 25, 2003 02:41 AM