O seu aspecto degradava-se de dia para dia. Inexoravelmente.
Não era o mesmo homem que, meses antes, assinara com ar solene e reflectido aquele "Eu, abaixo assinado, juro cumprir, com lealdade, as funções que me são confiadas."
Definitivamente, não!
As carnaduras faciais não seguravam as adiposidades vizinhas. Os olhos estavam encobertos por flácidas pregas de pele. O cabelo revolto e o cheiro prometiam-lhe um banho muito necessário. A sua barba, antes aparada, semelhava uma seara batida pelo vento precisada de monda.
O homem não se cuidava.
A sua mulher "Titi, querido, vem cá a mamã, toma um banhito querido!... tááá?!...
'Tava' nada...
A sua empregada "Senhore doutore, coma qualquere 'coijinha',... vá lá..."
Não tinha fome...
O Titi não comia, não dormia.
As mãos começaram a tremer-lhe.
Estava 'esquizofrenicamente' irascível. Louco varrido. Uma besta.
Vivia entre a cama e a correspondência do seu Gabinete.
Fumava muito.
Bebia muito café.
Alcoolizava-se sozinho.
Ninguém lhe adivinhava os pensamentos.
Ele também não os contava...
Ultimamente dirigia-se ao seu gabinete amarfanhado, amarrotado. Limitava-se a enfiar por cima do pijama umas calças e um pullover.
Via a correspondência sofregamente.
Atirava com ela para o chão violentamente.
O motorista ouvia-o chorar baixinho no regresso destas atribuladas visitas.
Subitamente recebeu a carta. A CARTA.
No gabinete não se soube que carta era. Ele retirou-a cá fora, das mãos do contínuo atónito.
Abraçou-se-lhe a rir. Depois chorou e babou-se muito. Soluçou.
O contínuo arranjou-se, envergonhado. O Titi, alheio a essas minudicências, correu para a porta.
Chegado a casa deu um beijo à mulher.
Lavou-se.
Escanhoou-se.
Comeu.
Leu o jornal.
Chamou de novo o motorista que, mal habituado, rezingou entre dentes.
No Gabinete contou anedotas ordinárias, meteu-se com as estagiárias e até começou a 'despachar'.
O Titi estava de volta.
Ainda ontem o viram, com a esposa, na tribuna de honra do Estádio da Luz.
Grande homem, o Titi...