novembro 01, 2003

"A História Edificante de um Vencedor."

Queremos contar-vos uma história que, como todas as histórias, não sabemos se terá algum fundo de verdade. Ouvimo-la há perto de vinte anos. Na mesma altura em que conhecemos o seu inenarrável protagonista.
Vamos tentar relatar esta história o mais pormenorizadamente que conseguirmos.
Como todas as histórias terá uma moral. Uma lição.
Nós não retirámos dela nenhuma moral. Não retirámos dela nenhuma lição. Não sabemos porquê.
Se você, possível e pachorrento leitor, ou leitora, tiver 'pachorra' para a ler até ao fim poderá, caso a 'pachorra de Vª. Ex.ª se mantenha incólume, retirar a moral que quiser, a lição que entender...
Limitamo-nos a contá-la porque é uma história, aparentemente de sucesso.
Pronto. Contamo-la porque é aparentemente uma história de sucesso e, em tempos de crise, é bom ouvirmos histórias de sucesso.
Encorajam-nos.
Iludem-nos.
E aparentemente isso é muito bom...


Foi assim:

"Desde pequeno que ele queria ser importante. Afirmar-se. Ter poder.
Era baixo. Exageradamente baixo.
E era patusco. Muito patusco.
Aprendeu muito novo a intrigar. Fazia-o com um ar prazenteiro e bem disposto.
A sua fraca figura não assustava ninguém e, apesar do pouco sucesso com o sexo oposto, o Kapakapa tinha companheiros. Tinha amigos. O que não quer dizer que fosse amigo de alguém.
Não. O nosso herói não se podia dar a esse luxo.
Na fria e rude aldeia do interior em que nascera não se podia ter fraquezas. Ter peias. Um menino ambicioso não podia cair nessa assustadora situação.
Não. O Kapakapa não era mau... Chamar-lhe mau seria fazer um juízo de valor. Seria medir um litro de vinho com uma fita métrica. Seria impossível...
Os valores do Kapakapa eram os va-lo-res- do Ka-pa-ka-pa.
Mais : às duas consoantes iniciais dos seu nome o KK adicionou o seu nome de família.
O Kapakapa passou a ser uma firma. O seu nome, pronunciado, soava a firma de construção civil. Óptimo, portanto...
Doravante escusava de ter valores humanos. Não fazia sentido nenhum que os tivesse. Bastava-lhe ter os mesmos valores que uma multinacional.
O 'baixinho' deixava as coisas mais humanas para as pessoas...
Passou a voar acima das minudicências que afectavam os cidadãos comuns.
Pairava sorridente por cima das suas cabeças. Apreciava com interesse as suas preocupações. Previa os lucros, os dividendos, que poderia retirar das suas fraquezas.
Passou a ser mais alto. Passou a estar noutra realidade, noutro mundo...
Havia, no entanto, barreiras para ultrapassar. Para saltar. Para mais completamente poder voar, de acordo com o que lhe exigia a sua ambição, o nosso promissor herói devia largar alguns pesos que o lastravam.
Lastravam-nos as suas poucas habilitações literárias.
Esmagava-o a sua pobreza. O seu fato fora de moda e puído (apesar das cerzeduras minuciosas e carinhosas aplicadas pela sua pobre mãe...).
Esmagava-o o seu ar pobre e besuntoso.
O KK iria teria que conseguir largar estes lastros...
Passou a estudar à noite, depois do trabalho.
Concluiu o secundário na capital de distrito próxima.
Contando os sebosos tostões na sua pequena mão papuda e calejada, matriculou-se na Universidade de Coimbra.
Arranjou trabalho num escritório de representações e alugou um quarto 'catacumbeo'. "O ideal para estudar", disse, com ar pressuroso, o interesseiro senhorio, mostrando-o aos olhos baços do pequeno aldeão, à maneira de um apresentador de circo.
De facto, naquele quarto apenas o frio húmido do Inverno e o calor abafado do Verão o poderiam distrair dos seus estudos.
O nosso jovem, porém, não era de se queixar, nem de se distrair. Não tinha tempo, nem dinheiro, nem feitio para isso...
Na Universidade tornou-se exímio nas 'teorias do nada'.
'Do nada de importante' que, por azar, alguém se desse ao trabalho de contestar...
Conseguiu esse intento. Ninguém o contestou... Foi antes ignorado. Civilizadamente ignorado.
Licenciou-se.
Fez um Mestrado.
Doutorou-se...
Cátedra? - Só se muito longe da metrópole... Muito longe da Civilização Ocidental. Longe do 'Mundo Conhecido'.
Esse lugar hipotético apareceu. O Homem também tinha sorte...
Entretanto casara rico.
Numa colónia distante o protagonista tomou cátedra.
Depois da esperançosa e prometedora independência desta colónia o professor voltou para a metrópole. Não esperava nada das promessas dos novos líderes. A sua consciência, se a tivesse, tê-lo-ia posto de 'pé atrás'. Ele lá sabia...
Pouco depois de chegado ao Continente surgiu a primeira universidade privada iniciada por professores de craveira demitidos pelos emergentes jovens turcos da revolução.
O nosso professor infiltra-se. Dá 'aulas de tudo e de nada':
- Antropomorfologia quântica?- Porque não?!
- Física Biológica da Semente da Batata?- Com toda a certeza, um tema apaixonante que sempre ambicionara desde a sua juventude...
Estabilizada a sua vida era preciso não parar. Continuar a lutar, a viver.
Apostou forte. Intrigou; intrigou muito. E anotou. Anotou tudo o que lhe diziam, mesmo que 'entre amigos'. Apontava quem lhe dizia o quê, quando. Apontava sempre. Sistematicamente. Doentiamente.
O KK nunca se esquecia de anotar na sua agenda todos os tópicos de conversação logo após ter deixado os seus interlocutores para trás.
E sorria. Sorria e confidenciava. Sorria, confidenciava e intrigava.
Começava a sonhar.
Começava a chegar a sua hora.
Mais tarde ou mais cedo a sua hora ia chegar.
O mundo ficaria a seus pés...
Aproveitando as condições favoráveis e as amizades já conquistadas (no sentido mais bélico do termo), criou uma universidade. Depois criou muitos polos. Pólos em tooodo o laaado. Assim mesmo: muitos pólos.
O KK sorria enquanto a universidade inscrevia muitos alunos.- Na altura ainda não se entrava nas universidade públicas com notas negativas...- A universidade, por este motivo, inscreveu imensos alunos. Todos estes alunos cooperavam... pagando.
A função do nosso homem era, como cooperante, dar todo o seu 'know How' à cooperativa.
Foi o que fez.
Geriu-a como se ela fosse a sua casa. um exemplo de cooperativismo empenhado...
Sorrindo o KK arranjou muitos professores.
Pagaria facilmente aos professores: A universidade estava a abarrotar de dinheiro.
Intrigando esmagou uma ou outra 'estaca' que arranjara para segurar o seu percurso. Algumas destas 'estacas' já o prendiam e, às vezes, arranhavam: estacas velhas...
...Já aqui se disse que, no mundo KK, não era possível fazerem-se amizades - no sentido bíblico, evidentemente...

Finalmente o KK tinha muito dinheiro.
Ainda não tinha muito poder.
Tê-lo-ia. O tempo ia jogar a seu favor...
Contratou mais professores.
Contratou professores de todas as áreas políticas.
Contratou políticos.
Contratou juízes.
Instituiu prémios jornalísticos.
Contratou jornalistas.
Subvencionou empresas de sondagens.
Pagou viagens.
Fez publicidade.
Infiltrou-se em sociedades (mais ou menos) secretas.

Finalmente o Kk tinha um castelo.
Um castelo enorme.
Esperto, o Kapa não saía da torre de menagem. Aqui, na obscuridade do interior da torre, sentia-se seguro.
Para que alguém lhe pudesse fazer mal seria necessário derrubar todas as outras muralhas entretanto erguidas.
Para lhe fazerem mal teriam que derrubar todo o castelo...

Ele intrigava.
Intrigava sempre.
Intrigava com um sorriso cúmplice.
Verdadeiramente o nosso herói já não intrigava: jogava.
O seu sonho realizava-se. Nas sua pequenas mãos bojudas as pessoas eram marionetas que ele gostava de manusear. Imprimia-lhe movimentos, discursos. Induzia-as.
O seu sonho, cumprido, embebedava-o. Viciava-o.
Estava viciado no sucesso.
O seu poder não conhecia fronteiras, limites..."

Nunca mais ouvimos falar do KK...
Ontem uns conhecidos nossos falavam de um julgamento: sorrimos-lhes...

O KK voará por cima das nossas cabeças depois de estarmos atolados no lodo. Voará num vôo pesado, sincopado que, de violento, nos atirará lodo e musgo para as faces. De mãos presas não as conseguiremos limpar... A não ser que acreditemos em Deus...
Nós, na Planície, acreditamos. Às vezes...

Publicado por Francisco Nunes em novembro 1, 2003 01:09 AM
Comentários

Esse KK está perfeitamente identificado.
Mas, quantos outros KKs continuarão por aí?
Alerta!!! Pessoal!!!!

Afixado por: João Norte em novembro 1, 2003 02:37 PM