Circulam no nosso Alentejo histórias de desavenças entre olivicultores e ciganos.
Estes, depois de apanharem as azeitonas aos olivicultores locais, recusam-se às partilhas. Com algum desplante dizem-lhes que as oliveiras continuam a ser posse dos olivicultores... Uma esperteza. Mas uma esperteza mal explicada pelos 'ciganitos' que destas coisas pouco vêem para além das experiências de vida vivenciadas...
Não confirmámos a notícia que aponta o assassinato de um cigano por um olivicultor de cabeça perdida na zona de Moura. Nem isso é muito importante neste momento.
Os mal-entendidos entre ciganos e olivicultores são comuns e constantes. O motivo é sempre o mesmo: a partilha da azeitona depois de apanhada.
Para os leitores politicamente correctos devemos dizer e sublinhar o seguinte:
-Os ciganos não são diabos vivos mas têm (em bom alentejano) as suas porras...
-Os olivicultores de que falamos não são latifundiários de alta estirpe nem convidam os engravatados da finança cascalense para caçadas. São, de um modo geral, pessoas idosas que deram ao seu olival a força da sua vida de trabalho na esperança de conseguirem um rendimento na velhice. São o elo fraco de uma 'raça' de alentejanos em extinção: são pequenos agricultores.
Em conversa, há uns dias, ficámos a saber quem é o culpado desta situação. Este 'senhor' chama-se PAC.
Os grandes agricultores locais não são propriamente grandes empresários na acepção mais positiva do termo...
A Política Agrícola Comum transformou-os em herdeiros subsidiários.
Situação que assumem escandalosamente e orgulhosamente.
Os 'herdeiros subsidiários' são mais cultos, melhor relacionados e mais expeditos que os honestos pequenos agricultores.
Esta rapaziada descobriu a 'papeleta' do lagar. Esta 'papeleta' apresentada nos serviços 'competentes!' assegura um subsídio chorudo aos 'agricultores'.
Assim os apanhadores da azeitona depositam as azeitonas no lagar e só têm de entregar ao proprietário das oliveiras este recibo.
Esta notícia (a das papeletas) corre célere entre os ciganos e não chega completamente aos pequenos agricultores desconfiados e honestos...
Já estâo a ver, caros leitores, a origem da afirmação 'as oliveiras continuam suas' que põe a cabeça dos agricultores perdida por a assumirem como um dislate...
Ora, o fruto desta política, para além de uns tiros e de umas zaragatas bem fortes, é a completa paralisia da agricultura local.
A PAC, da forma como está feita favorece de facto os grandes proprietários (com estupefacção soubemos que a rainha de Inglaterra é a maior beneficiada dos subsídios da PAC) e os agricultores dos países mais ricos.
Perante isto a esquerda portuguesa, quase toda francófila, diz nada. A direita dos interesses silencia-se e a esquerda não caviar e a direita dos valores (estranhamente) calam-se.
Sabemos que não é fácil fazer o que a Nova Zelândia, com todo o êxito, fez: abolir os subsídios à produção agrícola.
Mas deve ser possível fazer alguma coisa... ou não?!...
É verdade a toda a PAC assenta em subsidiar quem menos devia ser subsidiado. Mas está de acordo com a politica global; tratar bem os ricos e destribuir o que sobrar pelos pobres. Mas A UE nem neste aspecto é inovadora; limita-se a copiar o que se faz nos "states". Por alguma coisa os fortes recusam a ceder previlègios aos paises pobres da UE. Mas um dia...talvez se lixem....
Afixado por: vmar em dezembro 29, 2003 08:01 PM