janeiro 18, 2004

O Rigor Aplicado à Economia ... Doméstica.

Fechou o jornal com um ar triunfante.
Exultava debaixo dos seus botões.
De facto - dizia para consigo - quem sabe, sabe!...
Acabara de ler toda a entrevista da Ministra das Finanças.
Que visão estratégica!
Que Rigor!...
Bem!

Levantou-se e chamou para junto de si todo o agregado familiar, apregoando os seus nomes a plenos pulmões.
Sentados à volta da mesa da sala, os recém-chegados, olhavam com um ar quase alucinado para o pai. Questionavam-se sobre a razão daquele alvoroço; daquela euforia; daquela histeria.
O pai, agora calado, de pé, rememorizava todos os argumentos, todos os pontos-chave da entrevista.
Inspirou energicamente antes de se dirigir aos seus familiares atónitos.
Bramiu o jornal no ar perante o ar progressivamente mais incrédulos dos presentes.
O cão, assustado, ladrou. Com o rabo entre as pernas, olhando de viés para os humanos afastou-se.
O pai pareceu não reparar nesta reacção canina.
Sentou-se.
Esforçando-se por produzir um discurso simples e bem articulado resumiu as ideias mais pertinentes da entrevista que lera.
Depois apresentou as despesas de cada um dos membros da família de uma forma fria e distante.
Calou-se e mirou os seus interlocutores com o cenho cerrado. Avaliou as suas reacções.
A incomodidade que se fazia sentir facilitar-lhe-ia a negociação que se preparava para levar por diante.

Meia hora depois ficou assente:
- a filha universitária ia deixar de usar roupas de marca;
- o filho mais velho ia reduzir as suas saídas nocturnas. Passaria a sair até tarde apenas uma vez por mês;
- o benjamim deixaria de comprar jogos para a consola durante o ano e reduziria drasticamente o seu consumo de chocolates;
- a esposa reduziria as renovações de guarda-roupa ao mínimo essencial e apostaria nos saldos.

Contente com o sucesso da negociação traçou o rumo da economia familiar:
- Desta forma poderemos trocar o Skoda Superb de seis meses pelo Mercedes que acaba de ser lançado em menos de dois anos!

Deixou que a família se levantasse da mesa para se servir de um Martin's e de um habano.
Estava feliz.
Passaria a seguir com toda a atenção os discursos da ministra.
Uma luminária!...

Publicado por Francisco Nunes em janeiro 18, 2004 06:47 PM
Comentários

Agora de repente vossemecê lembrou-me o Queirós :p

Afixado por: Dunya em janeiro 19, 2004 01:31 PM

Profundo!

Afixado por: j.gonçalves em janeiro 18, 2004 08:30 PM

Sarcástico e mordaz! Muito mais que real! Gostei!


Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em janeiro 18, 2004 06:54 PM