Não queríamos apresentar aqui os nomes dos oficiais do exército liberal que tomou Lisboa a partir do desembarque em Cacela sem uma contextualização da sua acção e das consequências do seu acto militar.
A viragem estratégica das chamadas ‘Guerras Liberais’ deu-se com a saída do Duque da Terceira e do Duque de Palmela, do Porto, à frente de 5000 homens com o intuito de criar uma nova frente militar que permitisse ultrapassar o impasse em que as operações militares tinham caído com o arrastar do ‘cerco do Porto’.
Esta viragem já foi analisada com denodo por historiadores, economistas, sociólogos, militares e curiosos. É, de facto, um 'case study ’ esta viragem estratégica.
José Manuel Freire Nogueira analisou-a de um ponto de vista de estratégia empresarial num trabalho intitulado ‘As Guerras Liberais – Uma Reflexão Estratégica ’. Neste trabalho o autor retira uma série de conclusões das quais destacamos: ‘[…] a vitória cabe muitas vezes não àquela facção que possui o maior potencial de massa e por vezes mesmo o efeito multiplicador da vontade, mas sim àquela que melhor conjuga e harmoniza as estratégias gerais e particulares tendo em vista a estratégia total.’
Esta conclusão reflecte, quanto a nós, o âmago do sucesso Liberal: melhor visão estratégica… Os ‘liberalistas’ eram ainda mais empenhados porque nada tinham a perder, armaram-se recorrendo à banca, reforçaram-se com a pior escumalha do seu tempo –Londres, por estes anos, ficou mais segura…- e, muitos deles, eram idealistas. Traziam consigo mais convicção e mais desespero.
É assim que, de Cacela até Lisboa, o caminho dos Liberais no Algarve e aqui na nossa Planície heróica se faz do roubo de fruta, do contorno do grosso das tropas de Molelos e de Cadaval e do apoio da esquadra de Napier junto ao Litoral…
Chegados a Lisboa acabaram por fazer aclamar rei um senhor que combatera aos berros de ‘independência ou morte’ o exército do seu futuro reino… exemplar! O discurso do João das Regras em Coimbra contra João de Castela assentara neste argumento – o único válido naquele caso. Mas já se tinham passado 450 anos… Mudam-se os tempos…
Passado pouco tempo Saldanha era dono de uma fortuna enorme e Palmela era dono do percurso que fizera no Alentejo Litoral quando rumava a Lisboa…
Passado pouco tempo as guerrilhas do Remexido e dos Baias assentaram arraiais na Planície e no Algarve…
Passado pouco tempo o capitalismo instala-se na Lezíria Ribatejana e nos barros do Alentejo…
Passado pouco tempo era possível ver em propriedades a perder de vista casinhotos sem um quintal para as couves…
A fome chegara para ficar…
O capitalismo selvagem, brutal, desumano e imbecil também…
O capital agradeceu. Mais tarde o PCP não se esqueceu de recrutar aí as suas mais fortes hostes…
O Alentejo nunca mais conseguiria uma estrutura social organizada. Até hoje…
Os Liberais, esses, tiveram descendentes e conseguiram segurar nas suas mãos as rédeas deste pobre país até aos nossos dias. Constituíram-se como uma elite política, administrativa e económica que atravessou regimes e governos, que ultrapassou discordâncias entre os seus membros como se ultrapassam as discordâncias nas famílias… Enfim, tão escandalosa foi esta apropriação do Estado por esta gente que o nosso Eça, logo no virar do século XIX, se lhes referia como ‘a corja’.
Podemos iludir-nos com a presença esporádica de descendentes de ‘pés-rapados’ no Poder (Cavaco, Guterres, Salazar), mas o pano de fundo tem-se mantido estável. Estes ocasionais detentores do poder são passarinhos no galho de uma árvore velha: chegam, pousam e partem.
‘Relação dos Oficiais do Estado Maior, Comandantes de Brigada, e dos Corpos Que Fizeram Parte da Expedição do Exército Libertador que Desembarcou no Algarve
Comandante
O Tenente General, Duque da Terceira.
Ajudantes de Campo
O Capitão Graduado, Marquês de Fronteira.
O Tenente, D. Manuel da Câmara.
Oficiais às Ordens
O Tenente, Conde de Ficalho, Ajudante de Campo de Sua Magestade Imperial.
[O Tenente] Francisco de Sá Nogueira.
[O Tenente] Adolphe Mas de Saint Maurice.
O Alferes, Manuel José Lopes.
[O Alferes] Francisco de Mello Breyner.
Ajudante General
O Tenente Coronel, Manuel José Mendes.
Assistentes do Ajudante General
O Major, José Pedro de Mello.
O Capitão, Adrião Acácio da Silveira Pinto.
Quartel Mestre General
O Major, José Jorge Loureiro.
Assistentes do Quartel Mestre General
O Major, José de Mendonça David.
O Tenente, Pedro Maria Pinto Guedes.
O Alferes, Marcos Torres Vaz Preto.
[O Alferes] Gerardo José Braancamp.
Secretário Militar
O Capitão, Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque.
Cirurgião Mor no Quartel General
O Cirurgião Mor de Brigada, Libânio Constantino Alves do Valle.
Auditor da Divisão
O Bacharel, João António Lobo de Moura.
Chefe da Repartição do Comissariado
Alexandre de Abreu Castanheira.
Pagador e Contador Geral
Cândido Maria do Rego.
Primeira Brigada, Composta dos Batalhões de Caçadores nºs 2 e 3.
Comandante
O Brigadeiro, João Schwalbach.
Major de Brigada
O Capitão Graduado, José António Antunes Guerreiro.
Ajudantes de Campo
O Alferes, Francisco Canavarro.
[O Alferes] João Pedro Schwalbach.
[O Alferes] George.
Comandante do Batalhão de Caçadores nº 2
O Coronel, Romão José Soares.
Comandante do Batalhão de Caçadores nº 3
O Major, José de Vasconcellos Bandeira de Lemos.
Segunda Brigada, Composta dos Batalhões de Infantaria nºs 3 e 6.
Comandante
O Brigadeiro, António Pedro de Brito.
Major de Brigada
O Tenente, Manuel Alexandre Travassos.
Ajudante de Campo
O Tenente, João Cesário de Oliveira Sampaio.
Comandante do Batalhão de Infantaria nº 3
O Coronel Graduado, José Victorino da Silveira Torres.
Comandante do Batalhão Francês
O Coronel, barão de Schwartz.
Oficiais Superiores sem Colocação, Para Serem Empregados Ocasionalmente
O Brigadeiro Graduado, D. Thomaz de Assis Mascarenhas.
O Coronel de Milícias, Domingos de Mello Breyner.
[O Coronel de Milícias] Francisco de Albuquerque Pinto e Castro.
[O Coronel de Milícias] José Bernardo Trigueiros de Rego Martelly.
O Tenente Coronel, João Pedro Soares Luna.
O Major, João Xavier de Moraes Resende.
O Major Graduado, Manuel dos Santos Ferreira.'
in: 'Breve Notícia da Expedição do Marechal do Exército Duque da Terceira Sobre O Reino Do Algarve em 1833'; d'Almeida, Manuel Tavares; Imprensa Nacional; Lisboa; 1851.
Publicado por Francisco Nunes em janeiro 28, 2004 04:45 PMAgora chegou a era global, do ultra neo-liberalismo. Hostes de ignorantes a perder de vista. Obscurantismo atravessando épocas, deserdando vontades.
Um abraço
Rodrigo Ribeiro
Afixado por: Rodrigo Ribeiro em janeiro 28, 2004 10:59 PM