fevereiro 18, 2004

Cristóvam Buarque considerou na

Cristóvam Buarque considerou na sua recente entrevista ao Jornal de Letras de 4 de Fevereiro, que Hoje ´ser de esquerda significa derrubar barreiras'. Contrapõe este estado de espírito e esta postura à chamada 'esquerda Gucci'.
Esta entrevista, já com uns dias, só foi analisada pelo lado anedótico uma vez que Cristóvam foi demitido do cargo de Ministro da Educação, enquanto esta decorria, por telemóvel.
Não deixa porém de ser uma entrevista com mérito e que deve dar bastante que pensar.
Esperámos que isso acontecesse... Em vão.
Depois de referir que no Brasil as barreiras sociais são tão fortes, como as existentes nos tempos coloniais; Hoje, entre pobres (negros que vão para a prisão) e ricos (brancos que vão para a universidade), Ontem entre cristãos e índios ou entre senhores e escravos.

Cristóvam Buarque refere que a 'Esquerda Gucci', de cambiante mais intelectual e ideológica se afasta da resolução concreta dos problemas. É uma esquerda que, por parodoxal que possa parecer, se liga aos sindicatos e aos dirigentes políticos. Uma esquerda burocratizada, em suma.
Para alterar este estado de coisas, para derrubar estas barreiras, segundo a sua expressão, Cristóvam aposta na Educação. Na força da Educação. Nesse sentido criou a 'bolsa-escola' que, iniciada enquanto era governador do Estado de Brasília, se alargou a todo o Brasil com o Presidente Fernando Henrique Cardoso. Do Brasil este programa - que consiste em pagar um subsídio de educação aos jovens entregando o dinheiro às suas mães ou mulheres da família, 'dignificando-as' e responsabilizando-as pelos seus educandos - alastrou ao México, ao Equador, à Argentina, ao Chile, a Moçambique e à Namíbia.
A atribuição deste subsídio termina aos 17 anos por forma a que os jovens possam ter acesso a um curso médio.
Ora, diz o Senador, este investimento não é rentabilizado se a Escola não tiver qualidade.
Em Portugal podemos atribuir a alguma esquerda Gucci o fim das escolas profissionais. É bom não esquecer, a este propósito, que o PSD hipocritamente é de esquerda perante uns e de direita perante outros. Resolve as suas contradições sendo próximo da Direita dos interesses económicos na economia, nas finanças e sociedade e sendo esquerdista e/ou populista no discurso cultural e na educação.
É assim que os sucessivos ministros PS e PSD têm afastado a Escola do carácter pragmático que ela também deve ter. Pegue-se em qualquer Decreto-Lei do Ministério da Educação para se aferir esta realidade... Normalmente constituem-se como 'poços de máximas e de frases feitas' que não é de 'bom tom' pôr em causa sob o risco de se passar por caceteiro.
O autor destas palavras ousou há uns tempos, perante amigos de esquerda e outros bem-pensantes, tentar proferir as seguintes palavras:
'O ensino deve ser como a tropa ou outra instituição qualquer: deve ter objectivos sólidos e perenes sem estar sujeito a alterações ministeriais.'
Não foi possível.
Depois de ter sido proferida a palavra 'tropa' os mais afáveis deram-lhe palmadas nas costas no meio de risos e o piropo mais 'soft' que ouviu foi 'deixa-te de mer...'!
Pronto.
Estamos nisto... Na 'escola inclusiva'. Depois da escola democrática, da escola aberta, da escola do aprender a aprender, chegámos à Escola Inclusiva: chegámos a outro conceito...
Um logro!
A escola não tem que ser inclusiva! A Escola tem que preparar para a inclusão, para a inserção.
E a escola prepara cidadãos para a inserção se lhes der as ferramentas para esse desiderato.
- E isso pode fazer sangue? -Perguntar-se-á.
Pode. Claro que pode.
Qualquer ritual iniciático, qualquer processo iniciático faz doer...
Ir ao dentista também faz sangue... Mas tem que ser antes que todos os dentes apodreçam depois de cheirarem mal...
Mudar um pneu suja-nos; as etapas da vida, quaisquer que sejam, são todas dolorosas.
A dor é uma contingência do Homem.

Publicado por Francisco Nunes em fevereiro 18, 2004 05:31 PM
Comentários

Esquerda, direita, volver!

Desperdiçar dinheiros públicos na educação e formação de indivíduos, que mais tarde serão encaixados, como apêndices descartáveis desta insaciável engrenagem sócio-económica(alimenta-se preferencialmente de recursos humanos culturalmente imberbes), não passaria de um investimento absurdo.

Lógico e louvável, é fardar o cidadão com indumentária marcial, assim talvez consiga invadir o mercado de trabalho; estratégia técnica e guia de marcha para entrar no quartel e assentar praça no exercíto da produção.

Ao Estado deve parecer interessante, que o sentido crítico, a energia criativa, a consciência social, cultural e política do cidadão não passe do estado larvar (quanto menos consciente, menos exigente, mesmo em matérias prosaicas de defesa da sua integridade física e psicológica enquanto trabalhador).

Portanto, à guisa de conclusão, educar e formar, é muito mais que formatar e normalizar (carne para canhão, não!).

Onde e como são educados os filhos dos magnánimos legisladores desta lúgubre pátria de ínvidos doutores e exímios inquisidores?

Um abraço

Rodrigo Ribeiro

Afixado por: Rodrigo Ribeiro em fevereiro 19, 2004 12:15 AM