março 21, 2004

O Alexandre O'Neill mantém-se actual. Vergonhosamente (para nós) actual!

A Inês Pedrosa citou este poeta ontem na Revista (já não se chama assim) do Expresso. Pertinente esta citação...

Poema Pouco Original do Medo

O Medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no múrmutio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
Ouvidos nos teus ouvidos

O Medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos) intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talveza minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente

muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O Medo vai ter tudo
que se tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

_______________________________Alexandre O'Neill


O desejo de por nomes a cada um dos versos é tão grande... o desejo de os situar, personificar, localizar.
Ah a palavra do poeta... Grande poeta!

Publicado por Francisco Nunes em março 21, 2004 04:34 PM
Comentários

Ai Francisco, como são verdades,as palavras do poeta ! E se o amigo personificasse, "espiolhasse",exemplificasse, seria um "tratado" da realidade. O problema de Portugal é que parece que neste inicio de século somos "afogados" numa maré de incongruências , que estão na base duma galopante "pimbalhice" que penetrou em quase todfos os sectores da nossa vida-a politica local,a politica central,a cultura,o associativismo,o futebol,as religiões...enfim...

Afixado por: valeria em março 21, 2004 08:20 PM

Este poema
esta dor
esta realidade
este bocejar
este encolher dos ombros
este poeta
estas esquinas
estes buracos
este roer
não é de gente
é de ratos!

Um abraço

Rodrigo

PS.em caso de estar interessado, procurei esclarecer a dúvida que o Francisco deixou no ar, quando comentou a posta «agora que a noite chegou»

Afixado por: Rodrigo Ribeiro em março 21, 2004 05:52 PM