O Figaro diz-nos que um relatório das Nações Unidas prevê para mais cedo do que o esperado a alteração histórica que levará a que mais de metade da Humanidade viva em cidades.
Essa alteração ocorrerá já em 2007 e não em 2030 como estava previsto.
É pena!
Esse crescimento assentará na subida de dimensão das cidades que têm actualmente meio milhão de habitantes e na progressiva desertificação das zonas rurais e não tanto na taxa de aumento da população -o ritmo de aumento da população mundial passou de 2% ao ano nos anos 60 para 1,2% actualmente-.
As mega-cidades verão a sua população estabilizar.
De um modo geral as regiões desenvolvidas estarão confrontadas com um duplo problema: fertilidade em baixa e envelhecimento da população.
Muitos verão a sua população baixar. É o caso da Rússia, da Ucrânia, do japão e da Itália.
Neste artigo conclui-se que a vida vai mudar bastante em todo o lado. Não necessáriamente para melhor.
Lido este artigo ficámos a pensar no nosso Alentejo. Na nossa regionalização. Nos nossos políticos locais.
É sabido que a tendência das regiões rurais se desertificarem vai continuar. É sabido que as cidades vão continuar a crescer. Quer dizer, seguindo as estatísticas da ONU em Portugal cresceriam o Porto e Braga. Admitamos que cresceriam ainda Guimarães, Aveiro, Viseu, Leiria, Setúbal, Évora, Faro, Portimão...
Admitamo-lo por ser uma realidade constatável e por facilidade de raciocínio. Nesse caso o Alentejo continuará a perder população (e portanto peso político e económico) face ao resto do país.
O que propõem, face a esta realidade, as luminárias políticas locais? Que processo mental os ocupa para contrariar esta realidade?
Simples!
1º- A seguir às legislativas olham para os mapas do Expresso com a distribuição dos votos pelos partidos ...às cores.
2º- Perguntam ao filho mais velho que concelhos são aqueles.
3º- Com um marcador de feltro assinalam os limites territoriais em que o seu partido é mais votado no Alentejo (ou tem mais peso político).
4º- Inventam um nome para aquela área.
5º- Chamam um jornalista amigo.
6º- Fazem-no questioná-los sobre a regionalização:
7º- 'Ainda bem que me faz essa pergunta', e depois, 'sempre defendi', ou 'depois de pensar longamente'...
8º- Zás!!! Aí aparece o mapa das eleições do expresso já travestido (trabalho do filho mais velho no computador...)!
9º- Vem o fartote, o gozo: Sines+Alcácer+Barrancos; ou margens do Guadiana separadas; Portalegre sem alguns concelhos; ou...
10º- Convém a todos esta divisão de propriedades e então levam a efeito debates acalorados em que não se discute nada. De preferência sem 'civis' (são uns chatos, não têm obra feita e fazem perguntas parvas).
E Prontesch!! JÁtà!!!
De certeza que não conhecem as previsões da ONU, nem as estatísticas existentes e já divulgadas... se conhecessem verificariam que algumas das regiões propostas seriam ainda mais desequilibradas do que o País no seu todo é actualmente...
Por exemplo, a chamada Região do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral, terá, a médio prazo, todos os seus habitantes em dois pólos, Sines/Santiago e Beja.
O Alentejo Central parecerá uma cidade-estado...
Para o Norte do Alentejo é melhor nem falar...
E o que é grave é que estamos perante uma realidade estrutural dificilmente evitável. Completamente inevitável se o combate for feito por políticos incompetentes e mesquinhos de regiões insignificantes e sem peso económico.
Pouca gente o diz: As Regiões vão todas procurar para si os fundos de desenvolvimento disponíveis. E as regiões mais fortes ficarão com a maior fatia desse orçamento. O exemplo espanhol, tantas vezes (mal) referido, mostra-nos duas características perversas da regionalização:1) as regiões mais ricas são as que obtêm mais fundos, 2) Madrid recebe mais que a Catalunha (per capita).
O Alentejo no seu todo tem Hoje 10 deputados... ou nem isso...
Já agora, será por isso que não se fará nenhuma Região?
...De qualquer forma, e em termos exclusivamente turísticos, alguém nos disse que o Alentejo acabará por ser brevemente uma só Região... Claro! A não ser que se queira continuar a brincar aos 'dirigismozinhos'...
Excelente texto, Francisco, assino de cruz cada uma das tuas palavras!
Que tal se conseguíssemos, nós cidadãos anónimos e não alinhados, promover a reflexão deste e de outros assuntos que verdadeiramento interessam ao Alentejo?
Fica a proposta!
Abraço
Afixado por: carlos a.a. em março 29, 2004 11:08 AMMuito bem. Só um reparo: não se chame desertificação ao problema do despovoamento...
Afixado por: Peixoto em março 29, 2004 07:37 PMSe Sines,Santiago e Beja não escaparem ao despovoamento e levando a projecção extremo, pode-se afirmar que dentro de algumas décadas a existência de alentejanos poderá estar em risco. Bom se calhar nessa altura já somos todos iberos ou espanhóis.
Afixado por: vmar em março 29, 2004 11:29 PMCreio que Francisco está a ser demasiado pessimista. Em relação ao Alentejo, julgo que a
zona litoral irá dentro em breve começar a expandir-se porque o Algarve está a ficar saturado em termos de aldeamentos turísticos e outros equipamentos que começam a retirar interesse sobretudo aos portugueses que demandam as suas praias e o congestionamento que as mesmas
estão a oferecer, são causadoras de desmotivação cada vez maior dos seus frequentadores que se começam a virar para as praias alentejanas.
Raúl, não tenha ilusões quanto ao turismo para os Tugas... O parque da Costa Vicentina tem abutres que gotejam gulosos para o atacar.
A pressão vai para que se criem, neste momento, aldeamentos de luxo.
Vila Nova de Milfontes, em certos aspectos está já parecidíssima com Albufeira (a outra escala) no desordenamento urbano que sempre vai sendo permitido e nos preços praticados...
Por outro lado Barrancos, Mértola, Almodôvar, Moura fazem parte dessa pretensa região...
O crescimento do litoral não está em causa, apesar dos políticos... o que está em causa é a correcta gestão de uma Região única em capacidades e identidade que se chama Alentejo...
O Raúl não trata, em sua casa apenas da sala de televisão... uma Região não pode ser ordenada partindo do pressuposto de que apenas uma pequena parcela da sua área se vai desenvolver.
Acontece que a gestão será tanto mais difícil quanto insignificante forem as suas dimensões.
Em termos de gestão turística, neste momento, ninguém vende uma região apresentando uma praia. É necessário que se crie um sinal, uma marca o mais global e coerente possível.
Vender o litoral como se vende o Algarve não é o melhor caminho... nem é um caminho!
Aliás, para vender as praias do litoral alentejano não seria necessário a criação de uma região. Não é isso que está em causa.
O Alqueva, o porto de Sines, O aeroporto de Beja, as ligações a Espanha, não se podem confinar entre fronteiras tão estreitas que atrofiem e esmaguem o desenvolvimento sustentado de toda a região.
O Guadiana é um elo de ligaçãoe entre todo o interior alentejano: está prevista a sua fragmentação.
A área de caça turística abrange todo o Alentejo: está prevista a sua fragmentação.
A área de regadio do Alqueva serve o Baixo Alentejo e o Alentej Central: está prevista a sua fragmentação.
As carnes de pastagem alentejanas Vêm fragmentada a sua gestão.
etc, etc,...
Raúl, não estou já pessimista... estou desiludido e revoltado.
Obrigado pelos comentários,
um abraço a todos,
Francisco Nunes
Caro Francisco, concordo absolutamente com o essencial do teu texto. Mais uma vez, parece que o oportunismo dos nossos politicos vai inviabilizar a construção de uma região alentejo, que provavelmente seria a estrutura territorial com mais forte identidade cultural e maior coerência geográfica do País. É pena, mas a mesquinhez de alguns volta a impôr-se.
Só um ponto de discórdia: as perversidades da regionalização espanhola. Vivo em Espanha (Barcelona) há 2 anos e constato que a regionalização aqui feita - esta a sério, com eleição directa pela população de um parlamento e um governo regional - tem sido a grande impulsionadora do desenvolvimento económico e social do País. Não só no caso da Catalunha, que já era a província mais rica e desenvolvida antes da criação das comunidades autónomas, mas sobretudo das comunidades mais pobres. A Galiza, a Extremadura e a Andalucía continuam hoje a ser as comunidades mais pobres de Espanha mas a distância que as separa das comunidades mais ricas tem vindo a diminuir nos últimos anos. Mais importante ainda, considerando a analogia com o nosso Alentejo, estas regiões não perderam população nos últimos 25 anos e algumas até ganharam população. Em particular a Andalucia que, do ponto de vista de identidade cultural, me parece a região mais parecida com o Alentejo, tem visto a sua população aumentar de ano para ano e é hoje a comunidade autónoma mais povoada de Espanha, com 7 milhões de habitantes.
Estes dados podem ser consultados em www.ine.es
e em www.anuarieco2003.lacaixa.comunicacions.com
Por outro lado não é verdade que a transferência de dinheiro do estado para Madrid seja maior que para a Catalunha. Ao contrário, se tivermos em conta os impostos pagos em cada região e o dinheiro investido/gasto pelo estado nessa região, o balanço global é muito favorável à Catalunha. Isto, segundo um estudo de título "Las balanzas fiscales de las comunidades autónomas", de: Ezequiel Uriel (Professor da Universidade de Valência) e editado por "Fundación BBVA" (um resumo do estudo pode ser consultado no jornal "EL PAÍS de 11/10/2003"). De acordo com este estudo, cada madrileno paga em média mais 1243 Euros por ano ao Estado do que aquilo que o Estado investe/gasta em média por habitante na comunidade de Madrid. Cada Catalão paga mais 394 Euros do que aquilo que recebe do estado. Só por curiosidade, a comunidade que mais recebe do estado central é a Extremadura (vizinha do Alentejo): cada extremenho recebe em média mais 1312 Euros do estado do que aquilo que paga.
Só há dois problemas em Espanha:
1) As comunidades ricas onde o nacionalismo e o independentismo são fortes - Cataluña e País Vasco - tendem a exigir benefícios fiscais ao estado superiores aos das outras comunidades, o que se traduz nalguma insolidariedade destas regiões mais ricas para com as mais pobres. Refira-se que este problema não é efeito da regionalização mas sim do nacionalismo, que já existia muito antes da constituição das comunidades autónomas.
2) O problema Vasco: o País Vasco beneficia de um estatuto especial pelo qual os impostos, pagos pelos Vascos, são pagos directamente ao Governo Vasco, que depois paga uma quantia negociada ao estado em troca dos serviços prestados por este naquela comunidade autónoma. Sendo o País Vasco uma das comunidades mais ricas, isto significa que não há transferência de dinheiro do País Vasco para as regiões mais pobres de Espanha. Esta situação é, para muitos espanhóis de outras comunidades autónomas, uma injustiça.
É claro que em Portugal não temos problemas de nacionalismos regionais. Portanto estes problemas não se colocam. O principal problema é definir regiões com dimensão suficiente, massa crítica e identidade cultural. Tudo isto exige a criação de uma região Alentejo única, que englobe todo o Alto e Baixo Alentejo. Todas as outras soluções estão destinadas ao fracasso.
Saudações ibéricas,
João Guerra
P.S. Não deixa de ser irónico que um dos autarcas que com mais persistência defende a separação do Alentejo em Baixo e Alto seja o presidente da Câmara de "Ferreira do Alentejo". Suspeito que a sua primeira medida, se chega a presidente da região que defende, seja mudar o nome da sua terra para "Ferreira do Baixo Alentejo":)
Afixado por: João Guerra em abril 6, 2004 11:42 AMCaro João Guerra,
agradecemos desde já o seu comentário.
Baseamo-nos na leitura do La Vanguardia para as afirmações que proferimos sobre a regionalização em Espanha. Segundo este jornal o investimento per capita na Catalunha era muito inferior ao investimento do estado espanhol na Região de Madrid. No mesmo jornal referia-se o facto de muitas quintas do interior catalão estarem ainda por electrificar e à espera de saneamento básico.
...Não sou ingénuo e sei que o La Vanguardia não é propriamente isento em termos regionais (como não o será o El Pais...
Quanto ao aumento da população, das regiões... sou amigo de extremenhos de Fregenal de la Sierra (a 35 Kms de Barrancos) e a 10 da Andaluzia. Esta povoação, segundo os dados a que me fizeram aceder, perdeu 2/3 da sua população nos últimos 40 anos.
Do mesmo modo que a Andaluzia (ou a Extremadura) não perderam população, também o Alentejo não terá perdido...
As zonas interiores, no entanto, conhecerão uma realidade diferente cá e aí, em Espanha...
Um abraço,
Francisco Nunes