A Reconquista Cristã, que opôs militarmente Cristãos e Muçulmanos na Península durante quase oitocentos anos, não foi um movimento constante, fluído, prevísivel. Bem pelo contrário, foi feito de avanços e de recuos, de humores, de 'élans' a que não eram alheias as políticas intestinas de cada um dos contendores. As fronteiras entre eles oscilavam criando espaços de verdadeira instabilidade militar e, portanto, de verdadeira instabilidade política, social e económica. Os séculos XII e XIII foram, sob este ponto de vista, terríveis no território que agora estudamos.
A Batalha de Ourique foi, conforme afirmam muitos estudiosos, um dos muitos 'raides' militares que, na época das colheitas, portugueses e muçulmanos desfechavam sobre as populações à guarda de cada um dos oponentes. Estes fossados - assim se chamavam estas acções - desgastavam a coesão social das áreas atingidas e provocavam o seu despovoamento e empobrecimento.
A tentativa de resposta cristã a esta calamidade surge ainda no século XII no Reino de Leão.
Em 1172 é criada, na então leonesa Cáceres, a Ordem Militar de Santiago de Espada. Nesse mesmo ano D. Afonso Henriques 'importa-a' para Portugal que, por esta época, ainda não era considerado um reino pela autoridade máxima da época: o Papa.
Esta Ordem vem a desempenhar um papel determinante no povoamento, defesa e exploração desta área. O Campo de Ourique coincide quase inteiramente com as terras atribuídas à Ordem no Baixo Alentejo e no Alentejo Litoral.
Em 1288, um século após o reconhecimento papal do reino de Portugal, o Papa Nicolau IV dá alguma autonomia à parte portuguesa da Ordem de Santiago, concedendo-lhe o direito de nomear um mestre próprio. Por esta altura detinha esta instituição vários coutos agrícolas que arrendava e de onde retirava os meios que lhe permitiam desenvolver as suas actividades militares para que era solicitada. No Campo de Ourique, estes 'coutos' situavam-se nas proximidades das povoações existentes e abrangiam alguns dos melhores campos agrícolas desses concelhos.
É curioso verificar como esta Ordem, apesar de deter muitas benesses no Campo de Ourique, ficou quase sempre desligada dos 'Verdes e Montados' do Campo. Como atrás se referiu, cabia à 'Ordem' a defesa, a protecção, o povoamento, a organização e o desenvolvimento de uma extensa área do território nacional que, a sul, era constituída pelo Campo de Ourique.
Os 'Verdes e Montados' eram um conceito e um privilégio autónomo de todos os privilégios económicos que a Ordem pudesse deter.
D. Fernando (pai de D. Diogo, Duque de Viseu e de D. Manuel, futuro rei D. Manuel I de Portugal e irmão do rei D. Afonso V, o Africano), foi uma das personalidades mais poderosas do Portugal do século XV. Este homem, senhor de muitas posses, de muitas rendas e de grandes privilégios, detinha o Mestrado da Ordem de Santiago e os rendimentos dos 'Verdes e Montados'. Esta renda, na posse da Casa Real durante a Primeira Dinastia, foi doada em usofruto após a Revolução de 1383/85. Assumida como uma prerrogativa régia acaba por voltar às mãos do rei de Portugal, de uma forma um pouco rocambolesca:
D. Dinis referia-se aos 'soveraes e azinhaes' de Campo de Ourique como 'seus'.
No século seguinte, em 1371, nas Côrtes de Lisboa, os moradores de Algés, então um pequeno povoado agrícola nos arredores desta cidade, pela voz dos seus representantes, queixavam-se ao rei D. Fernando dos danos que o seu gado causava aos seus pertences.
No ano seguinte, nas Côrtes de 1372, os ditos moradores voltam a queixar-se ao rei da acção destes gados. Sugerem-lhe o transporte deste gado onde não possam causar dano. Na altura um local assim seria, como já se adivinhou, o Campo de Ourique. O Rei concordou e enviou parte deste gado para este Campo. - Não corria o risco de o perder porque todo o gado extraviado, a que se chamava 'gado do vento', encontrado neste espaço era pertença da Casa Real...
No início do século seguinte, as rendas dos 'Verdes e Montados' estão próximos da família real; não, como já se viu, na mão do rei!
Em 1472 o gado que pastava perto de Silves, no limite sul do Campo, era pertença da descendência de D. João I, Mestre de Avis, e iniciador da Segunda Dinastia e de D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável do Reino e elemento chave nas acções políticas e militares que levaram à boa concretização deste processo de afirmação de uma nova dinastia.
Este gado pertencia à viúva do já citado D. Fernando, D. Brites, e ao seu filho, D. Diogo, Duque de Viseu.
Queixava-se amargamente a população de Silves, no já referido ano de 1472, nas Cortes de Coimbra/Évora, da forma abusadora como as suas pastagens eram muitas vezes desvastadas por este gado a que se juntavam as cabeças pertença de pastores, de roupeiros e de outros criados de D. Brites e D. Diogo. Segundo estes moradores, ascendiam a mil as cabeças de gado bovino que eram apascentadas nestes campos... acrescia a sua vexação o facto de não ser possível, como sempre fora uso, apascentar o gado dos vizinhos (dos moradores) de Silves em pastos de Campo de Ourique...
Desconhece-se alguma determinação régia em favor dos pobres habitantes de Silves. É possível que aresolução deste problema não fosse uma preocupação para D. Afonso V, mais preocupado com as suas conquistas africanas e, por via disso, excessivamente enfraquecido face às grandes casas senhoriais de que se destacavam, precisamente, as casas de Viseu e de Bragança. A primeira destas casas passara para as mãos do já referido D. Diogo neste mesmo ano por morte do seu irmão, o 3º Duque de Viseu, D. João.
O poder deste D. Diogo era, portanto, imenso e este preparava-se para o aumentar. Fora educado nesse sentido visto serem evidentes os problemas de saúde do seu irmão mais velho...
(A seguir veremos como a luta política que se vai seguir afecta os 'Verdes e Montados' do Campo de Ourique).
Publicado por Francisco Nunes em abril 19, 2004 04:25 PMGrande manancial de história.
Afixado por: vmar em abril 20, 2004 01:24 AMSão contributos valiosos estes textos que trazem aos mais "desprevenidos" um pouco da história e do património do "nosso" Alentejo. No entanto, Francisco, tenho dúvidas se o Campo de Ourique a que se refere no caso das queixas dos moradores de Algés é o Campo de Ourique Transtagano, ou o Campo de Ourique, na altura, dos arredores de Lisboa e fronteiro aos campos de Algés.
Um abraço.
Amigo Alves Caeiro, não pretendo ser dono da verdade e não desconheço a existência desse e de outros Campos de Ourique.
Penso que o Campo de Ourique referido seja o alentejano pelas seguintes razões:
1.- O Campo de Ourique era ermo e não prejudicava os pobres lavradores de Algés, nem quaisquer outros, a permanência de gado nesses espaços.
2.- Eram pertença real (desconheço a pertença dos outros campos...)
3.- Era campo de pastagens afamado.
4.- O rei hesita em enviar o gado para o Campo de Ourique por este não lhe ficar disponível. Isto pressupôe a distância do gado em relação a Lisboa.
'Jogando limpo' transcrevo o relato que Gama Barros elaborou e expressou, na sua 'História da Administração Pública em Portugal nos Séculos XII a XV'; Tomo IX; 2ª Edição, Liv. Sá da Costa, 1950:
'D. Dinis, como já vimos a diverso propósito, destinava em parte do reguengo de Algés um prado para os seus cavalos. D. Fernando tinha manadas, mas não eram de cavalos. Queixavam-se os povos nas Cortes de Lisboa de 1371 de que ele determinara que os seus gados pudessem andar por quaisquer coutadas, do que resultava grande dano aos lavradores e criadores, agravado ainda pela insolência dos guardas. Entendiam os queixosos que devia o rei deixar de ter gados, como fizera, diziam, el-rei D. Dinis por igual razão. Responde D. Fernando que os mandará trazer por onde não causem detrimento, porque não pode prescindir deles por serem necessários para mentimento do povo. Repete-se-lhe a instância, nas cortes de Leiria do ano seguinte, para que se desfaça dos gados vendendo-os, ou como entender, e acrescenta-se que persistindo em os conservar os levem ao Campo de Ourique, onde o dano pode ser menos e daí os tragam. Agora a resposta de D. Fernando é que ele há precisão dos gados para mantimento de sua casa, e escusar assim de os tomar aos lavradores. Aqueles que sobejarem os mandará levar ao dito campo; e se algum prejuízo causarem ordena às justiças que o façam reparar pelos bens dos guardadores.'
Prezado Francisco, as minhas dúvidas não tinham como objectivo questionar a verdade, ou a autenticidade da sua investigação e conhecimentos. Provavelmente, foi por defeito ou feitio do ofício, que tivemos essas dúvidas, tendo em conta a actividade agro-pastoril referida e a proximidade dos lugares em causa. Creia que as minhas dúvidas se colocaram/colocam no sentido, de um melhor esclarecimento da "realidade" histórica, que o Francisco se dispôs a complementar.Correndo o risco de alguma repetição, parece-me que aos poucos e, com as melhores das intenções, estes pequenos textos são um bom contributo para se conhecer a arquitectura e os materiais com que se fez a História do espaço "Além-Tejo".
Vou ver se consigo fazer mais alguns parágrafos para o meu blog.
Um abraço
Caro Alves Caeiro eu quero que continue a questionar-me. Palavra de Honra!
Uma boa pergunta pode motivar uma série de boas respostas...
E dou a mão à palmatória: Só se poderá ter a certeza do que afirmei nesta posta e no comentário que produzi atrás conhecendo todas as posses reais no tempo de D. Fernando I.
Da discussão é que nasce a luz.
Um abraço,
Francisco Nunes