Ao lado dos pastores da Serra da Estrela, o Campo de Ourique era ainda frequentado por pastores sorianos. Esta designação referia-se, não só a Soria, cidade - e região - a norte de Madrid muito ligada à indústria dos lanifícios e à pastorícia, mas a todos os pastores oriundos das montanhas de Leão e de Castela. Há referências a estes pastores desde o século XV.
Esta situação pode ser explicada pelo desenvolvimento em grande escala das actividades transumantes no país vizinho, com o avanço para sul dos reinos cristãos e com o progresso enorme das exportações da lã e tecidos 'sorianos' verificada nesta altura.
Em Espanha eram muito fortes as associações de pastores e ganadeiros agrupados na 'Mesta'. Por esse motivo era rigorosa a organização desta rentabilíssima actividade. As 'canadas' eram, em Espanha' delimitadas com precisão. É significativa, para termos uma ideia da dimensão deste fenómeno, a extensão da chamada 'Canada Real de Leão'. Esta canada orientava homens e animais das serras asturianas para os campos extremenhos fronteiros ao Tejo e ao Guadiana! Ao que parece era desta canada que muitos pastores espanhóis derivavam para o Campo de Ourique, transpondo a fronteira portuguesa a sudoeste de Mérida, depois de passados o Douro e o Tejo em território espanhol. No reinado de D. Afonso V, muitos sorianos acompanhavam a transumância portuguesa na totalidade (Estrela/Campo/Estrela...); o que pode pressupor alguma exaustão dos pastos espanhóis por sobreexploração.
Com a União Ibérica este fenómeno acentuou-se.
Filipe I (de Portugal), logo em 1581, legisla sobre este movimento e estabelece a necessidade de se criarem canadas de uma forma mais rigorosa (à semelhança do que já sucedia em Espanha).
É neste período da História de Portugal que, mais uma vez, por influência e cópia da realidade espanhola, é criada a figura do 'Procurador dos Pastos e Ganadeiros da Serra da Estrela e Alentejo'.
Em 21 de Janeiro de 1614, é provido nesse cargo Alonso de Villa Fanha que substituiu o falecido Procurador, António Mendes.
A solicitação de Villa Fanha ao Rei D. João IV para que este autorizasse os pastores a usarem, para além do arcabuz, a espingarda de pederneira - concessão feita em 1670 - dá-nos conta de três realidades da maior importância:
1.- O Procurador tinha a seu cargo a defesa dos interesses dos pastores e exercia essa valência.
2.- Este cargo manteve-se para além dos reinados dos 'reis espanhóis'. D. Pedro II 'viu' neste cargo Jozé Freyre de Mello...
3.- A necessidade de se ter acesso à última novidade em termos de tecnologia de guerra evidencia os perigos por que estes homens deveriam passar. Podemos imaginar os riscos que corriam estes pastores de se encontrarem com animais (lobos, ursos...) e com homens (salteadores, desertores do maltrapilho e mal alimentado exército português da Guerra da Independência...).
Encontram-se registados nas paróquias do Campo muitos óbitos de naturais do centro do país e da península...
Vidas esforçadas e heróicas...
A saga destes pastores merecia um relato vivo: um romance, um livro... dizemos nós...
Há falta de livro....temos os relatos do Francisco que prestam um bom serviço à divulgação destas vidas de outro tempo.
Afixado por: vmar em abril 24, 2004 01:08 AMMais um "tijolo" para a "nossa" construção histórica...! Francisco, sobre a MESTA, pode ver mais informação neste endereço: http://www.nuevoportal.com/andando/mesta.html#Introducción.
Um abraço.