abril 28, 2004

Coisas da História do Alentejo e do Campo de Ourique XI

Faz por esta altura dois anos, precisámos 'descobrir' e fotografar o Monte da Perdigoa. Munidos de cartas topográficas e de um 'jeepezito' Suzuki dirigimo-nos a Entradas com outros dois amigos. O Programa:
a) petiscar na Cavalariça e
b) descobrir o percurso para o, para nós mítico, Monte da Perdigoa.
A 'coisa' não começou nada mal. Ao gestor deste blogue, ao José Tomé, na altura a trabalhar no Campo (jornal regional, sediado em Castro Verde, que, pouco depois haveria de fechar as suas portas) e ao Henrique Petronilho, homem apaixonado pela História da sua Messejana e por estas coisas do Campo, foi servida uma suculenta e fumegante travessa de pezinhos de coentrada e um bom tinto da talha. De lamber os dedos!
Pouco depois, olhando distraídamente em redor, apercebemo-nos que éramos o centro das atenções. Minutos, fragmentos, depois os olhos insistentes de alguns circunstantes mostraram-nos as causas desta curiosidade. Desta obsessão: os pezinhos de coentrada...
Oferecemos.
Uns 'de truz', outros a fingirem-se rogados, todos acabaram por aceitar a nossa oferta 'voluntária'.
Descobriram-se conhecidos comuns, amigos comuns e familiares comuns.
O Henrique descobriu uma prima!
Reconfortados e animados, despedimo-nos e lá partimos 'em missão'. O dono da casa, no dizer chistoso do Zé, 'o ortodoxo mais ortodoxo dos pêcês da área', depois de ter reagido à provocação amigável, indicou-nos, com evidente curiosidade quanto à causa daquele pedido de informação, o melhor caminho para lá chegar.
Fizémos bem em ter pedido ajuda na Cavaliça. O traçado da nova 'via rápida' que une Beja a Castro, seguindo para o Algarve por Ourique, interpôs-se no trajecto que havíamos idealizado. Foi preciso vencê-la por um atalho subterrâneo... Modernices!...
Alguns, muito poucos, quilómetros depois, quando, a avaliar pelo mapa e pelo conta-quilómetros nos sentimos próximos do nosso objectivo, inquirimos dois rapazes que descarregavam uma 'galera' de adubos para um casão. Indicaram-nos um edifício relativamente recente que se avistava a uns 600, 700 metros.
A informação revelou-se, como desconfiámos, falsa.
Acenámos a um tractorista que se cruzava connosco. Parou. Afastando a pala do boné, já sem cor, da testa, o homem informou-nos correctamente da localização deste Monte.
Receosos de novo erro resolvemos aclarar a informação:
- Olhe que procuramos umas ruínas, umas pedras caídas...
- Estão lá os dois! 'Tá' lá tudo!...
Agradecemos, desejámos-lhe um bom dia. Respondeu-nos com uma 'saúde' e um aceno.
Passado o Monte do Pereiro... o actual Monte da Perdigoa!
Um Monte como muitos montes por esse Alentejo fora... Semi-abandonado, umas ferragens, uma alfaias distribuídas ao seu redor sem qualquer lógica aparente. Sem caseiros.
Da sua beira avistámos lá em baixo, a uns 200 metros, o antigo Monte da Perdigoa, a sua tumba. Esta mostrava-se em amontoados de pedras formando rectângulos. Pequenos rectângulos que jogavam 'à apanhada' entre si. Enquadrava-os um rectângulo maior. De um lado a ribeira de Entradas, do outro a ribeira de Cobres que se uniam mais adiante fechando, cercando, as referidas ruínas.
Apreciando o que se nos deparava saímos do jeep e 'estacámos' apreciando a paisagem.
Aquelas ruínas, agora desertas e expectantes, haviam outrora regurgitado de movimento. Ali, em Outubro, pagavam os 'serranos', até ao século XVIII, os 'verdes' das ovelhas na entrada no Campo. Dali partiam para Norte, em Março e Abril, depois de paga a 'monta' à Fazenda Real...
Mais adiante avistava-se a Vila de Entradas.
As entradas no Campo.
Para quem raciocine em termos de Reconquista e questione as entradas - 'Porque não as saídas?' - avisamos já: Livrem-se de em Entradas perguntar pelas saídas! O risco de uma tareia inesquecível era, há uns anos, muito real. Hoje talvez seja só um 'dixote'... mas não é considerado com simpatia...
A este Monte da Perdigoa D. Pedro, em 1699, referia-se da seguinte forma: 'As montas do gado ovelhum dos criadores de fora da Comarca se farão em o limite da Perdigoa, termo de Castro Verde, junto à Villa das entradas [sic], onde foi sempre uso e costume fazerem-se. [...]'

Publicado por Francisco Nunes em abril 28, 2004 11:59 PM
Comentários

Continuamso a descobrir Alentejo aqui....

Afixado por: vmar em abril 29, 2004 09:18 AM

Gostei do que li...
O Alentejo mais do que uma planice, é um sentimento, é um estado de alma, penso que apenas os Alentejanos são capazes de viver o ser Alentejano.

Afixado por: alentejano em maio 1, 2004 12:00 PM

O Alentejo é onde ainda se juntam as pessoas no largo.
Só é pena que nem todas as vilas alentejanas tenham ainda todas uma página na internet.

Afixado por: Ana Silva em junho 13, 2004 09:24 PM

Fiquei agradavelmente surpreendido ao deparar com este trabalho sobre ENTRADAS. Efectivamente esta localidade teve grande importância nos tempos em que o gado transumante vinha da Serra da Estrela pastar aos Campos de Ourique. Esta vila também teve o privilégio de ser um dos pontos de passagem de uma das rotas dos Caminhos de Santiago e tem uma história muito rica e que merece ser pesquisada. Para já aqui ficam as minhas felicitações ao autor deste trabalho.

Afixado por: José Mestre em junho 19, 2004 05:21 PM