Faz por esta altura dois anos, precisámos 'descobrir' e fotografar o Monte da Perdigoa. Munidos de cartas topográficas e de um 'jeepezito' Suzuki dirigimo-nos a Entradas com outros dois amigos. O Programa:
a) petiscar na Cavalariça e
b) descobrir o percurso para o, para nós mítico, Monte da Perdigoa.
A 'coisa' não começou nada mal. Ao gestor deste blogue, ao José Tomé, na altura a trabalhar no Campo (jornal regional, sediado em Castro Verde, que, pouco depois haveria de fechar as suas portas) e ao Henrique Petronilho, homem apaixonado pela História da sua Messejana e por estas coisas do Campo, foi servida uma suculenta e fumegante travessa de pezinhos de coentrada e um bom tinto da talha. De lamber os dedos!
Pouco depois, olhando distraídamente em redor, apercebemo-nos que éramos o centro das atenções. Minutos, fragmentos, depois os olhos insistentes de alguns circunstantes mostraram-nos as causas desta curiosidade. Desta obsessão: os pezinhos de coentrada...
Oferecemos.
Uns 'de truz', outros a fingirem-se rogados, todos acabaram por aceitar a nossa oferta 'voluntária'.
Descobriram-se conhecidos comuns, amigos comuns e familiares comuns.
O Henrique descobriu uma prima!
Reconfortados e animados, despedimo-nos e lá partimos 'em missão'. O dono da casa, no dizer chistoso do Zé, 'o ortodoxo mais ortodoxo dos pêcês da área', depois de ter reagido à provocação amigável, indicou-nos, com evidente curiosidade quanto à causa daquele pedido de informação, o melhor caminho para lá chegar.
Fizémos bem em ter pedido ajuda na Cavaliça. O traçado da nova 'via rápida' que une Beja a Castro, seguindo para o Algarve por Ourique, interpôs-se no trajecto que havíamos idealizado. Foi preciso vencê-la por um atalho subterrâneo... Modernices!...
Alguns, muito poucos, quilómetros depois, quando, a avaliar pelo mapa e pelo conta-quilómetros nos sentimos próximos do nosso objectivo, inquirimos dois rapazes que descarregavam uma 'galera' de adubos para um casão. Indicaram-nos um edifício relativamente recente que se avistava a uns 600, 700 metros.
A informação revelou-se, como desconfiámos, falsa.
Acenámos a um tractorista que se cruzava connosco. Parou. Afastando a pala do boné, já sem cor, da testa, o homem informou-nos correctamente da localização deste Monte.
Receosos de novo erro resolvemos aclarar a informação:
- Olhe que procuramos umas ruínas, umas pedras caídas...
- Estão lá os dois! 'Tá' lá tudo!...
Agradecemos, desejámos-lhe um bom dia. Respondeu-nos com uma 'saúde' e um aceno.
Passado o Monte do Pereiro... o actual Monte da Perdigoa!
Um Monte como muitos montes por esse Alentejo fora... Semi-abandonado, umas ferragens, uma alfaias distribuídas ao seu redor sem qualquer lógica aparente. Sem caseiros.
Da sua beira avistámos lá em baixo, a uns 200 metros, o antigo Monte da Perdigoa, a sua tumba. Esta mostrava-se em amontoados de pedras formando rectângulos. Pequenos rectângulos que jogavam 'à apanhada' entre si. Enquadrava-os um rectângulo maior. De um lado a ribeira de Entradas, do outro a ribeira de Cobres que se uniam mais adiante fechando, cercando, as referidas ruínas.
Apreciando o que se nos deparava saímos do jeep e 'estacámos' apreciando a paisagem.
Aquelas ruínas, agora desertas e expectantes, haviam outrora regurgitado de movimento. Ali, em Outubro, pagavam os 'serranos', até ao século XVIII, os 'verdes' das ovelhas na entrada no Campo. Dali partiam para Norte, em Março e Abril, depois de paga a 'monta' à Fazenda Real...
Mais adiante avistava-se a Vila de Entradas.
As entradas no Campo.
Para quem raciocine em termos de Reconquista e questione as entradas - 'Porque não as saídas?' - avisamos já: Livrem-se de em Entradas perguntar pelas saídas! O risco de uma tareia inesquecível era, há uns anos, muito real. Hoje talvez seja só um 'dixote'... mas não é considerado com simpatia...
A este Monte da Perdigoa D. Pedro, em 1699, referia-se da seguinte forma: 'As montas do gado ovelhum dos criadores de fora da Comarca se farão em o limite da Perdigoa, termo de Castro Verde, junto à Villa das entradas [sic], onde foi sempre uso e costume fazerem-se. [...]'
Continuamso a descobrir Alentejo aqui....
Afixado por: vmar em abril 29, 2004 09:18 AMGostei do que li...
O Alentejo mais do que uma planice, é um sentimento, é um estado de alma, penso que apenas os Alentejanos são capazes de viver o ser Alentejano.
O Alentejo é onde ainda se juntam as pessoas no largo.
Só é pena que nem todas as vilas alentejanas tenham ainda todas uma página na internet.
Fiquei agradavelmente surpreendido ao deparar com este trabalho sobre ENTRADAS. Efectivamente esta localidade teve grande importância nos tempos em que o gado transumante vinha da Serra da Estrela pastar aos Campos de Ourique. Esta vila também teve o privilégio de ser um dos pontos de passagem de uma das rotas dos Caminhos de Santiago e tem uma história muito rica e que merece ser pesquisada. Para já aqui ficam as minhas felicitações ao autor deste trabalho.
Afixado por: José Mestre em junho 19, 2004 05:21 PM