Com base no documento que temos vindo a transcrever é possível verificar a dimensão - a partir da já citada relação de dezoito tostões por cada moio (10 hectares aproximadamente) - e a pequena história de algumas propriedades do extinto Concelho de Panóias (actual freguesia do Concelho de Ourique). Neste documento faz-se uma relação das propriedades a 'fintar' e indica-se o valor das fintas aplicadas a cada uma delas. Esta finta manteve-se estável de 1738 até 11831 (aproximadamente)
Era um documento 'de trabalho' e, para 'facilidade de serviço', foi-lhe aposta nas margens o nome e a morada dos proprietários de cada uma das propriedades em 1829 - ao tempo de D. Miguel-.
Este documento (O Livro da Câmara de Panóias) não nos permite, no entanto, identificar os seus proprietários no século XVIII. Estas herdades ainda se conservam com esta toponímia nos dias de hoje!
A Herdade do Ferrador era fintada em 4000 réis (22,2 hectares) e, em 1829, era seu proprietário Alexandre Joaquim Gago, morador em Panóias.
Em 1829, o proprietário António José de Mattos, morador em Alvalade, possuía as herdades da Consciência, fintada em 1200 réis (6,6 hectares); da Oroanna de Cima, fintada em 3200 réis (17,7 hectares); do Reguengo, fintada em 2700 réis (15 hectares) e a Herdade de Vale de Romeiras da Mitra, fintada em 3200 réis (17,7 hectares).
Este proprietário possuía, só no Concelho de Panóias, 57,2 hectares de terra arável de que pagava a finta de 10300 réis.
Em 1829, o proprietário Balthazar Moreira de Brito, morador em Messejana e Morgado desta povoação, possuía as seguintes herdades:
Courela de João Velho da Costa, fintada em 1600 réis (8,8 hectares);
Herdade da Achada, fintada em 2400 réis (13,3 hectares);
Herdade de Vale de Romeiras de João Velho da Costa, fintada em 2000 réis (11,1 hectares);
Herdade da Cabeça Gorda, fintada em 1800 réis (10 hectares);
Herdade do Carrascal, fintada em 2400 réis (13,3 hectares);
Herdade do Cotovio, fintada em 2400 réis (13,3 hectares);
Herdade da Ferraria, fintada em 3500 réis (19,4 hectares);
Herdade do Picão, fintada em 1800 réis (10 hectares);
Herdade da Quinta da Zorra, fintada em 2000 réis (11,1 hectares);
Este proprietário possuía, só no Concelho de Panóias, 57,2 hectares de terra arável de que pagava a finta de 10300 réis. Refira-se que duas das suas propriedades ostentavam o nome de João Velho da Costa, cavaleiro do século XIV, membro de uma ilustre família muito ligada à Casa Real desde os primeiros tempos da nossa nacionalidade: os Velhos da Costa
(continua)
Publicado por Francisco Nunes em junho 23, 2004 12:35 AM75%'!!!!!!! Bolas...
Os primeiros colonos não pagavam metade disso!
Obrigado pelos comentários.
Um abraço,
Francisco Nunes
Numa escala infinitamente inferior, passou-se o mesmo com a colonia madeirense, em que os senhorios, exploravam gerações de agricultores, que mais tarde, ainda tiveram de abandonar a casa e propriedade onde viviam há 60 e 70 anos,onde cultivavam e davam uma percentagem de 75% ao sehorio, ficando com o resto para subsistencia. Quando a construção civil começou a dar dinheiro, os senhorios decidiram vender as terras para blocos de apartamentos, e lá se foi mais de metade da agricultura madeirense,deixando na miseria familias inteiras, idosos que sobrevivem(?)com os 30 contos de reforma...
Afixado por: Valeria Mendez em junho 23, 2004 04:45 AMAmigo Alves Caeiro, concordo com as suas suposições e confirmá-las-ei em devido tempo.
É precisamente essa a questão em causa de há muitas postas a esta parte. O Liberalismo atirou o Alentejo para o Latifúndio e, gradualmente, atirou o Alentejano para situações aviltantes.
Quando ouço determinado tipo de liberais referirem-se ao Alentejo ainda fico arrepiado...
Um abraço,
Francisco Nunes
Afixado por: Planície Heróica em junho 23, 2004 01:25 AMAmigo Francisco, li também o outro texto e assaltou-me uma dúvida, que tem a ver com a reduzida área "privada" e agriculturável do termo de Panóias, provavelmente estender-se-ia a outros termos. De facto, as herdades de então, são courelas ou fazendas (utilizando o nossa terminologia)e pouco têm a ver com a herdade, unidade mais próxima do latifúndio que caracterizou a propriedade alentejana depois da desamortização liberal e que se prolongou basicamente até aos nossos dias. Parece-me interessante este aspecto, o que vem colocar no centro da questão, a importância da venda dos chamados bens nacionais e a apropriação dos bens comunais e dos baldios e, simultaneamente, o reposicionamento dos grupos sociais, bem como as suas relações, praticamente em todo o Alentejo.
Por agora fico por aqui, certamente que teremos ocasião de falarmos um pouco mais sobre a questão.
Um abraço.