julho 31, 2004

Parole, parole, parole... parole, parole, parole... parole, parole, parole...

img410a1b55c72fa.jpg Apolino de Almeida in: Diário do Alentejo

“A saúde não pode ser um monstro burocrático”
(Apolino de Almeida)


Mas poderá ser uma burocracia monstruosa?

Ainda não engolimos as tropelias por que passou até há três dias uma nossa familiar no Hospital de Beja. Trataram uma moribunda, e assumimos a expressão, como um tijolo. Perfeitamente vergonhoso!!!!


Leia a notícia e aperceba-se do vazio a que o discurso sobre a saúde chegou neste país.
Tenha presente que a realidade, no Hospital de Beja, roça muito frequentemente o surrealismo mais delirante. Ultrapassa o ficcionável ... se nos 'picarem' contamos mais algumas coisitas.

Capa: Apolino de Almeida
“A saúde não pode ser um monstro burocrático”
2004-07-30 10:56:37
Apolino Salveano de Almeida é médico cirurgião do Hospital José Joaquim Fernandes, de Beja. Natural de Viseu, tem 68 anos e veio para o Alentejo há quase quatro décadas, primeiro para Cuba, depois para Beja. Conta como dirigiu o hospital de Beja ao longo de 14 anos e explica a sua visão da saúde em Portugal.

“Comecei a vida
como soldado raso”


Apolino Salveano de Almeida é médico cirurgião do Hospital José Joaquim Fernandes, de Beja. Natural de Viseu, tem 68 anos e veio para o Alentejo há quase quatro décadas, primeiro para Cuba, depois para Beja. Conta como dirigiu o hospital de Beja ao longo de 14 anos e explica a sua visão da saúde em Portugal. Confessa que foi ele quem propôs ao ministro da Saúde a transformação do hospital de Beja em hospital/Sociedade Anónima, revela como trabalhou de perto com Maldonado Gonelha, então ministro da Saúde de um Governo PS, explica como acabaram as listas de espera para operações nos hospitais de Beja e Serpa. Tudo em discurso directo.

Como é que um médico de Viseu vem parar ao Alentejo?
Eu costumo dizer que vim parar aqui de pára-quedas... Em 1966 defendi a tese de licenciatura, no Hospital de S. João, do Porto, e trabalhava voluntariamente na chamada Propedêutica Cirúrgica, desde 1962, embora sem defesa da tese para atrasar um pouco a possível – como aconteceu depois – chamada para o serviço militar.

E, então, como é que veio para o Alentejo?
Queria sair da minha terra. Estava em Castro Daire, em conversa com um amigo que me perguntou “por que é que você não vai para Cuba”? Eu pensei que fosse a Cuba de Fidel, não era preciso tanto, mas ele explicou-me que era “Cuba, a minha terra, no Alentejo”. Arranjámos um mapa, às tantas da noite, vimos onde ficava Cuba, eu disse-lhe “olhe, está-se a construir um hospital aqui ao lado, em Beja”, e ele “exactamente, por isso é que eu estou a sugerir. Posso telefonar a um parente, que é o presidente da câmara?” – isto foi a 10 de Abril de 1966. Ele telefonou ao presidente da câmara e durante a conversa perguntou-me quando é que eu queria ir para o Alentejo, eu disse-lhe “ontem” e ele disse-me “então venha amanhã”. E foi assim que eu vim para o Alentejo...

E foi trabalhar para Cuba...
Fui, na altura não havia centros de saúde, eram os hospitais concelhios, as casas do povo, os partidos dos médicos municipais. Eu fui trabalhar para a vila de Cuba, no hospital concelhio, fizemos lá umas modificações e fui colocado na Casa do Povo de Vila Alva, que fazia Vila Alva, Vila Ruiva, Albergaria dos Fusos... E comecei assim a minha vida como soldado raso...

Nessa altura era médico cirurgião...
Nessa altura tinha quatro anos de cirurgia. Não tinha feito a especialidade, porque no Porto não havia internatos, só havia internatos nos Hospitais Civis de Lisboa. Vim para Cuba como médico de clínica geral.

E depois, qual foi o percurso profissional?
Fui reinspeccionado e não escapei da tropa. Mas, felizmente, “parei” na ilha do Sal, em Cabo Verde, onde estive 25 meses e onde também fizemos umas coisas engraçadas. Voltei para Portugal em 1969 e então já estava o hospital velho de Beja com dois cirurgiões, o Dr. Assunção Tavares e o Dr. Horácio Flores, que tinha acabado de chegar. E, nessa altura, pedi para vir trabalhar, voluntariamente, para o Hospital da Misericórdia. E daí transitei para o novo hospital que ajudei a montar.

Estávamos em que ano?
Estávamos em 1970. O hospital foi inaugurado em 25 de Outubro de 1970 e nós fomos para lá em Agosto, eu ainda fazia serviço de urgência no hospital velho e acumulei com Cuba até 1979.

Foi para o novo hospital com funções de direcção?
Não, fui integrado na equipa do Dr. Horácio Flores, o chamado Serviço de Cirurgia 2, o Serviço de Cirurgia 1 era o Dr. Assunção Tavares, era mais antigo e transitou para o novo hospital como director da Cirurgia 1.

“Eu vim para os hospitais,
eles foram para ministro...”

Desde 1970 e ao longo destes mais de 30 anos manteve-se sempre no actual Hospital José Joaquim Fernandes?
Sim, participei em todo aquele movimento pós 25 de Abril, foi muito engraçado, com a vinda do Serviço Médico à Periferia fiquei a coordenar as zonas de Cuba, Alvito e Vidigueira, foi uma experiência interessante...

E como evoluiu a sua carreira no hospital?
Mantive-me sempre na cirurgia com o Dr. Horácio Flores e, em 1979, com o advento da abertura dos internatos nos hospitais distritais, contaram-me o tempo de serviço e eu fui fazer exame de saída de internato para adquirir a especialidade nacional.

Apanha o 25 de Abril enquanto médico em Beja. Que mudanças marcam essa época, no plano profissional?
O “Diário do Alentejo” tem uma reportagem de um discurso que eu fiz no 40.º aniversário do Estatuto Nacional do Trabalho em que eu disse o que é que devia ser a saúde em Portugal, o que era um Serviço Nacional de Saúde e o que é que devia ser feito...

Em que ano?
Em 1973. Era essa a minha filosofia e de toda a gente que teve uma influência anglo-saxónica e da saúde na Europa no pós Segunda Guerra. Na altura, não se podia ter acessibilidade aos hospitais, fossem eles da Misericórdia ou não, se não através da decisão do presidente da Junta, que passava um papelinho a dizer se o doente era ou não da Caixa de Previdência. Os médicos recebiam pouco, recebiam uma remuneração base e depois recebiam conforme os doentes que tratavam eram ou não da Caixa de Previdência, o que levava a uma discriminação “natural” de se chamar aqueles que pagavam... Era um sistema muito discriminatório e era preciso acabar com isso, era preciso criar um serviço de saúde em que toda a gente tivesse acesso aos cuidados de saúde. Um Serviço Nacional de Saúde que estivesse organizado, com carreiras médicas...

Sei que, já depois do 25 de Abril, trabalhou com o ministro da Saúde de um Governo PS, Maldonado Gonelha...
Em 1979/80, o saudoso Carlos Queixinhas, dirigente do Partido Socialista aqui de Beja, estimulou-me – não gosto do termo convidar – a trabalhar no gabinete de estudos do PS a nível nacional. E assim fomos para o Largo do Rato, eu saía daqui à noite, jantava a meio do caminho e tínhamos as reuniões em Lisboa. Nós éramos coordenados por um homem extraordinário, o Dr. Ferraz de Abreu, que foi vice-presidente da Assembleia da República, e que também era cirurgião, da Marinha, um homem lá dos meus sítios.

Voltando ao gabinete de estudos...
Éramos sete a trabalhar no gabinete de estudos do PS, na área da saúde, e pusemos no papel aquilo que defendíamos que devia ser a estrutura da saúde em Portugal, que eram os cuidados essenciais – eu não gosto do termo cuidados primários, pode ser interpretado depreciativamente –, os cuidados secundários hospitalares e a saúde pública. Até essa altura, havia uma diferença de carreiras entre os médicos dos hospitais centrais e dos hospitais distritais, absolutamente discriminatória. Eu não podia ser cirurgião do Hospital de Santa Maria, mas conseguimos dar a volta a essa situação, isso acabou.
Trabalhou então directamente com o ministro da Saúde da altura, que era Maldonado Gonelha...
Sim, a chefe do gabinete dele era a Maria de Belém e associou-se depois ao grupo o meu amigo Correia de Campos, fomos criados juntos lá em Viseu...

Depois apanha-os a ambos como ministros da Saúde...
Depois, saímos todos daquele grupo, eu vim para os hospitais e eles foram para ministro...

Retomando o fio à meada, estamos em finais dos anos Setenta, princípios dos anos Oitenta...
Fui eleito director do hospital de Beja em 1979 e mantive­-me até 1986, fazendo, entretanto, concurso para pertencer ao quadro nacional, em 1982, com provas duras...

Nos anos Noventa volta a dirigir o hospital de Beja...
Em 1994, num dia de Abril, estava em casa muito sossegado, às 10 da noite, e pediram-me para ir a uma reunião em que estava o ministro da Saúde da altura, Paulo Mendo, também do Porto. Deram-me 48 horas para tomar conta do hospital de Beja e eu pus três condições: a primeira, era filiado no PS e não ia rasgar o meu cartão, era óbvio; a segunda, era eu que escolhia o conselho de administração; a terceira, quem fez as dívidas que as pagasse. E, depois, fiz um plano, que é o plano que está agora projectado no hospital. Estive à frente do conselho de administração do hospital entre 1994 e 2002, até eu pedir a exoneração, foram, tudo somado, 14 anos à frente do hospital.

“A saúde no distrito não está
tão mal como as pessoas dizem”

Tem uma vasta experiência, quer como médico, quer como gestor hospitalar. Como é que vê, hoje, a saúde no Alentejo e, em particular, no distrito de Beja, o senhor que conheceu tantos ministros da Saúde, alguns até seus colegas e amigos? Os cidadãos queixam-se muito das condições da saúde...
A questão da saúde, no Alentejo, começa pela geografia humana. São pequenos agregados separados por dezenas de quilómetros, com uma dispersão grande, que dá uma densidade populacional de três habitantes por quilómetro quadrado. Esta situação cria logo um problema: não pode haver um médico à porta de cada doente, nem pode haver um médico à entrada de cada povoação. Depois, temos uma população de cerca de 160 mil habitantes, no distrito de Beja, e vamos aos hospitais de Beja e Serpa – separados, até aqui, não sei porquê –, e aos centros de saúde, e temos por ano 850 mil pessoas. E perguntamos o que é que se está a passar e por que é que se passam estas desgraças nos serviços de urgências hospitalares...

E o que é que se passa?
A população do Alentejo é extremamente envelhecida, não tem pirâmides, tem estratos horizontais e se nós fizermos um inquérito à população portuguesa (como o que fez o Manuel Villaverde Cabral, todos deviam ler esse livro), o que é que se passa com a saúde em Portugal? Vamos encontrar diferentes tipos de respostas, como por exemplo a de que a gente nova, que não está doente, diz que o Serviço Nacional de Saúde é uma porcaria. Nós sabemos que, no grupo etário dos 30/40 anos quem adoece são os menos favorecidos e os que sofrem maior agressão do meio social, os outros quase não adoecem... E aquelas pessoas que estão realmente doentes dizem, “por favor, levem-me para os hospitais públicos”...

Falou em “desgraças” nos serviços de urgências do hospital de Beja?...
Sim, neste nosso hospital, no Serviço de Urgência – e eu estou farto de dizer isto, com a responsabilidade que tenho – estão n pessoas acamadas em deficientes condições, porque não há onde metê-los, muitas vezes postos por familiares, mandados para lá, que deviam ter assistência médica. Isto, porque não há na sociedade – não havia, agora começa a estruturar-se melhor – instituições que dêem assistência àqueles que necessitam de assistência mas sem o nível dos cuidados a prestar no hospital...

Está a referir-se aos “hospitais de retaguarda” de que agora se fala?
Eu não lhes chamo “hospitais de retaguarda”, chamo­-lhes hospitais que façam continuidade de prestação de cuidados...

Mas houve governos, alguns do PS, que fecharam essas instituições, aqui no distrito de Beja e no Alentejo, por exemplo em Vidigueira...
Sim, fecharam Vidigueira, fecharam 323 camas no distrito de Beja e, por acaso, não foi o Partido Socialista que começou a fechar, mas também deixou fechar, também tem as suas culpas, todos os governos têm culpas. Até porque muita gente tem a mania que não vem ao terreno até à altura em que vem e depois tem confrontos um bocado duros...

São essas entidades, então, que devem prestar a tal assistência de continuidade de prestação de cuidados...
São as Misericórdias e outras instituições não governamentais, instituições ligadas à Igreja, a associações de cidadãos, que devem cumprir esse papel, porque a sociedade está parada nesse aspecto, tem as suas responsabilidades de não se organizar e prever o que vai ser a sua velhice.
É, então, um problema da sociedade...
A partir do momento em que as câmaras municipais – e tivemos conversas com muita gente sobre isso – começam a levar os velhos a passear, a Segurança Social, com poucas assistentes sociais, começa a passear os velhos, a levar professores de ginástica para dentro dos lares, as pessoas idosas começam a ter uma qualidade de vida que até aqui não tinham. E só vão recorrer à Saúde quando realmente estiverem com a vida fora do controlo pessoal. Penso que é um problema a ser encarado seriamente, como seriamente tem que ser encarado o problema da dor. Nós já temos uma consulta, a dor tem que ser tratada, a dor transforma o homem num farrapo humano. E temos que dar atenção ao homem em estadia terminal, temos de dar condições de ele morrer com dignidade, não é dando uma cama hospitalar. Eu penso que, aqui, em Beja, a Misericórdia vai fazer umas instalações para isso, onde são dadas condições da pessoa em estadia terminal estar com os seus familiares, muitas vezes as casas não têm condições. E tudo isso são situações que fazem parte da saúde que até aqui eram imputáveis aos hospitais e muitas vezes aos centros de saúde.

Em suma...
É por isso que eu digo que a saúde no distrito de Beja não está tão mal como as pessoas dizem, primeiro porque mantemos parâmetros de avaliação altamente elevados, continuamos com uma mortalidade neonatal e infantil de nível mundial, chegámos a ser o número um da Europa. Depois, continuamos com as pessoas a morrerem por três causas básicas – acidentes, doenças cardiovasculares e doenças oncológicas –, e cada vez temos que falar mais disto, temos que saber que os doentes oncológicos morrem de uma maneira e os doentes cardiovasculares morrem de outra. E mais, nós praticamente não temos listas de espera para as operações. E estamos a fazer aqui quimioterapia, hemodiálise e estamos a ter cada vez mais condições no distrito, que não pode ter tudo, para que as pessoas possam viver com maior dignidade.

Não devemos, então, dizer mal da saúde...
Isso faz-me lembrar uma história de uma reunião do papa com os cardeais. Um cardeal começou a dizer mal dos jesuítas, os jesuítas isto e aquilo, os jesuítas até queimaram a Joana d’Arc... E diz um outro cardeal: “Olhe que está enganado, quem fez isso foram os dominicanos, não foram os jesuítas”. E diz o papa lá de cima, com aquela sabedoria toda: “Já agora que estão a dizer mal dos jesuítas, continuem, não falem dos dominicanos, assim dizem mal só de uns”. Assim estamos nós, já que dizem mal da saúde, vamos todos dizer mal da saúde, que os outros problemas são dispendiosos e de difícil resolução...

Se bem percebi, o que defende é que a saúde não pode ser desligada dos outros aspectos da sociedade...
É claro, não está à margem dos problemas sociais. A saúde tem três aspectos fundamentais: acessibilidade – cada um não vai tratar-se onde quer, tem que tratar­-se onde deve; – prestação de cuidados; e continuidade de prestação de cuidados, onde estão englobadas as doenças transitórias, crónicas e terminais.

Apesar desses bons indicadores de saúde que referiu, a verdade é que o interior do País tem poucos médicos e técnicos de saúde, os médicos não querem vir para aqui... Por que é que os médicos e os técnicos não vêm para o Alentejo?
Para resolver o problema da falta de médicos aqui é preciso que as autoridades, os políticos que têm capacidades decisórias, desenvolvam a terra de maneira a fixar os técnicos. Nós não podemos pôr os médicos a andar de fora para dentro quando a população anda de dentro para fora... Mais uma vez, é um problema da sociedade, mais geral, não é só do sector da saúde.

“Quem propôs que o hospital
passasse a hospital SA fui eu”

Hoje, em especial com os últimos governos PS e PSD, tem havido a tendência para a privatização dos hospitais e da saúde, sob diversas formas. Qual é o seu ponto de vista sobre a questão dos hospitais SA (sociedades anónimas), já que o Hospital José Joaquim Fernandes aderiu a esta modalidade?
Quem propôs ao ministro da Saúde a passagem deste hospital a hospital SA fui eu. Há que arcar com a responsabilidade! Nos hospitais, até à entrada desta modalidade, os conselhos de administração estavam sempre dependentes das direcções gerais, do ministro, disto e daquilo, eram hospitais públicos e eram tratados quase como repartições públicas. Nós, se quiséssemos abrir um concurso público, eram 12 meses perdidos, se queríamos contratualizar não podíamos, o Tribunal de Contas “caía-nos em cima”, era uma repartição pública com todos os espartilhos burocráticos. Ora, a saúde não pode estar espartilhada, é uma situação que funciona por picos, basta haver uma ligeira epidemia para desequilibrar todo o sistema. A saúde tem que funcionar com aquisições rápidas, tem que ser maleável, tem que ser célere, dinâmica, tem que haver decisões momentâneas, a saúde não pode ser um monstro burocrático.

E quais as vantagens do hospital SA?
Foi perante isso tudo, embora nós andássemos sempre relativamente bem, que dissemos que os hospitais tinham que mudar de lei, tinham que ter uma gestão maleável, mais ágil, embora prestando contas às entidades responsáveis. E os hospitais até podiam ter parceiros, por exemplo, aqui a hemodiálise é gerida por uma empresa privada. Por uma questão muito simples: o Estado é mau pagador dele próprio.

E para os trabalhadores do hospital, não há nenhum prejuízo com essa modalidade de gestão?
Há, tem de haver. O serviço nacional de saúde e as reformas democráticas na Europa começaram a fazer-se em 1945 e em Portugal começaram em 1975. Estamos a atravessar uma série de fases que nos aproximam do sistema de saúde europeu. Toda a gente sabe que tem que ser melhor amanhã do que hoje para continuar no trabalho. Na Função Pública, a promoção era como na tropa antigamente, por antiguidade... Neste sistema, o técnico tem de ser bom profissional. A contratação passa a ser feita pelo perfil das pessoas e pelas necessidades hospitalares. É verdade que, desse ponto de vista, há menos segurança dos trabalhadores, mas o salário e as remunerações até podem ser melhores, em função da produtividade e das horas extraordinárias.

E para o doente, essa saúde não é mais cara?
Não, não tem sido mais cara, nem se pretende que o seja.

Mas as várias formas de participação de privados na saúde (hospitais-empresas, gestão privada de hospitais públicos, parcerias com privados, etc.) não vão traduzir­-se numa saúde mais cara, tipo “quem quer saúde que a pague” ou “boa saúde para os ricos, hospitais públicos para os pobres”?
Não estou de acordo com essa filosofia, isso é um pouco o que se passa nos Estados Unidos, ali ninguém pode falar de Serviço Nacional de Saúde, os grandes hospitais de ponta são clínicas privadas, há cerca de 40 milhões de habitantes sem direito a assistência médica e medicamentosa, não têm dinheiro para pagar seguros médicos nem assistência hospitalar... Em Portugal, com cerca de 10 milhões de habitantes, uma população com baixo nível de instrução e em parte rural, com a diversidade de companhias de seguros que há, não estou a ver as companhias de seguros a segurar para além, nas cirurgias, do nível do estômago, ou, na medicina, do nível das doenças malignas, isso começa a ser muito caro... Em medicina, os tratamentos são caros, a quimioterapia é extremamente cara, e ninguém, em Portugal, na actividade privada, se mete nisso, nem as seguradoras se vão meter nisso. Não há um número de pessoas suficiente para que haja uma percentagem que não esteja doente para pagar os que estão doentes...

Não está a tentar dizer que, na saúde, os privados ficam com os sectores que dão lucro e o Estado com os tratamentos caros...
É o que se está a passar! Não estou a ver a actividade privada em Portugal a gerir hospitais com quimioterapia, com doentes oncológicos, com cuidados intensivos, com hemodiálise... Penso que, com a evolução do mundo, essa tendência é inevitável. Mas defendo que toda a gente tem que ter direito à saúde.

“Não há listas de espera
para operações em Beja”

Diz que no Hospital de Beja praticamente acabaram as listas de espera. Como é que se resolveu esse problema?
Eu fui sempre um defensor de que, para além do horário normal, devia haver contratualizações internas do hospital. Há uma produção hospitalar que é definida pelo conselho de administração, por quem estiver a gerir – e não pode haver dirigismo, quem está à frente tem que ser um coordenador, estamos a lidar, aqui no hospital de Beja, com mil e tal pessoas. Há uma determinada capacidade instalada e, para fazer mais, é preciso pagar às pessoas. O primeiro ministro da Saúde a autorizar isso, depois de uma conversa acesa, foi a Dra. Manuela Arcanjo, que era uma forreta que vinha das Finanças, foi a primeira a perceber que isso levava a uma economia hospitalar... Fez-se uma negociação com os serviços para saber qual era a capacidade instalada, quantos doentes é que os serviços de cirurgia podiam operar por ano, em cirurgia programada, além das urgências, tudo isto subordinado ao número de camas, à dimensão do bloco operatório e ao número de anestesistas, tudo coordenado, equipamento, recursos humanos e instalações. Atingimos a capacidade instalada – estamos a trabalhar a 100 por cento, todos os serviços, o hospital está a trabalhar muito bem – e depois começaram-se a fazer contratualizações – se a gente operar mais xis doentes, recebemos tanto por cada doente, e começámos todos a pedalar, a ganhar terreno. Nessa altura, eu propus que se fizesse um centro hospitalar, com os hospitais de Beja e Serpa, para que a nossa equipa de cirurgia fosse a Serpa, para operar 600 a 700 doentes por ano em Serpa, libertando simultaneamente uma parte do bloco operatório de Beja para aquilo que não podia ser operado em Serpa, que era a oftalmologia, a urologia, a otorrinologia e ginecologia. Era uma questão de escalonamento de equipamentos.

Com essas medidas, acabaram as listas de espera em Beja e Serpa?
Há hoje uma lista de espera clinicamente aceitável.

Quantas operações se fazem por ano?
Cerca de 5 200 a 5 400 operações, de todas as especialidades.

E que tipo de operações é que não se fazem aqui?
O Hospital de Beja não tem capacidade para algumas cirurgias, como a cirurgia cardiotoráxica, certa cirurgia vascular e a neurocirurgia.

O segredo da boa gestão hospitalar

Qual é o “segredo” para uma boa gestão hospitalar?
Eu disse um dia – na altura acusaram-me de ser um favorecido pelo Governo, porque me aprovaram o projecto do hospital e me permitiram praticamente fazer um hospital novo aqui em Beja – que nós, que estamos a gerir instituições públicas, não temos de estar à espera que os ministérios nos digam o que temos de fazer. Temos de fazer uma análise da sociedade onde estamos inseridos, saber quais são as suas necessidades, falar com os parceiros que têm capacidade de decisão, falar com a comunicação social, falar com aqueles que sabem, saber aquilo que é necessário para a população, o que é que realmente vale a pena fazer, fazer projectos, pôr os projectos à aprovação com justificação.

E resulta?...
Claro, resulta contra aquilo a que eu chamo a falta de iniciativa local e a incapacidade de gestão... Continuo a dizer que em Portugal o problema económico não é um problema do trabalhador, é um problema do empresário. Ainda no outro dia estiveram cá empresários da Holanda e disseram que a coisa que mais os impressionava em Portugal era os empresários portugueses chegarem duas horas atrasados às reuniões marcadas...

Carlos Lopes Pereira texto | José Serrano fotos
Edição nº 1162 • De 30 de Julho a 5 de Agosto de 2004




Publicado por Francisco Nunes em julho 31, 2004 02:30 AM