agosto 29, 2004

Uma colher de pau, uma 'imagem de marca', um atestado de submissão...

Imagem5 035a.gif
Colher de pau (espólio das "Vozes das Terras Brancas - Associação de Cante Alentejano" de Casével)

Este é um daqueles objectos que muitos alentejanos e algarvios ainda olham com um misto de amargura e de revolta. São objectos que, apesar de serem já peças de museu etnográfico, ainda marcam, que ainda ferem...

Usava colher de pau quem não tinha dinheiro para outra.

Ao Sul da Planície chegavam, por alturas das mondas e das ceifas, grupos de homens e de mulheres do Algarve serrano. Do Algarve mais pobre. De seu, pouco ou nada tinham...
A colher de pau que quase todos seguravam no chapéu à moda dos jornalistas americanos dos anos 30 e 40 não significava livre informação, selava a sua livre exploração. O dono daquela colher trabalhava para pouco mais do que para as sopas... muito pão, algum feijão, grão ou toucinho e muito pouca carne.

Publicado por Francisco Nunes em agosto 29, 2004 03:57 PM
Comentários

Será que muitos alentejanos, não continuam a comer o pão que o diabo amassou?
Será que a submissão não é cada vez mais, a imagem de marca da democracia vigente?
Explora-se a crendice, a pobreza, o medo... em suma atiram-se as pessoas para um beco sem saída.
Mudam-se as colheres, mas não se alteram as condições geradoras de miséria, de exploração... a ignorância e a coacção económica continuam a manietar a liberdade de pensamento e de acção do povo.

Quer se trate de um touro humilhado publicamente; de um merlim exposto na via pública como troféu da humana vaidade; de uma arara azul raptada na Amazónia (por cada ave que chega viva ao seu destino, morrem nove) que vai parar a uma gaiola num apartamento urbano, ou de uma criança privada da sua infância, devido à incúria dos adultos... a indiferença perante o sofrimento humano, animal ou outro... é atroz, e é disso que se trata, de prazer egoísta, quando não de sadismo.

Um abraço
Rodrigo Ribeiro

Afixado por: Rodrigo Ribeiro em agosto 30, 2004 08:01 AM