
Sob o título “Debate do PS e unanimismo do PSD” debruçou-se José Pacheco Pereira, ontem, no Público. Escrevendo antes de ser conhecido o resultado das eleições, o comentador pode dar-se ao luxo de afirmar o que pensava. E pensava assim:
“Penso que o debate que se trava no PS o reforça e que o unanimismo no PSD o enfraquece.”
A partir daqui o autor explanou as várias razões que o levavam a proferir este pensamento.
Afirmou a necessidade dos partidos modificarem a sua vida partidária adaptando-as ao mundo mediático. Alertou os seus leitores para a potencial perversidade deste meio quando sobreleva o espectáculo em detrimento da competência e do valor das ideias expressas: “[…].a selecção natural pelo espectáculo e não pelas qualidades individuais, e a notória capacidade de os media modernos substituírem o argumento, o Logos, pelo anedotário confrontacional e pelo soundbite.[…] numa fina linha entre a vantagem democrática e a necessidade comunicacional, por um lado, e a perversão demagógica e o populismo, por outro, que tudo se decide.”Referindo-se ao PS, mostrou-se agradado pelo debate interno suscitado pela eleição em curso apesar de alguma inicial relutância em o realizar.
Pacheco Pereira, no fundo, quer ver as opiniões assumidas e debatidas pelos seus autores e não pelas fontes anónimas. Esta é uma preocupação deste autor de há muito tempo a esta parte.
A eleição no PS foi apenas um pretexto para analisar a situação interna do PSD. Pacheco Pereira quer um debate de ideias, de políticas, no seu partido. Em seu entender o PSD sairia reforçado deste debate público. O PS, na sua opinião, irá sair reforçado deste debate.
Diz o analista:
“No PSD vive-se um período muito diferente, de grande anomia partidária, e de um unanimismo esmagador. Tudo indica que este unanimismo se concentra no "aparelho" partidário (como no PS teria acontecido se o confronto de candidaturas não tivesse dissolvido o apoio maciço do "aparelho" a Sócrates), e é bem menor entre os militantes e os eleitores do partido. O peso deste unanimismo não é de agora, dado que a tradição de debate no PSD é diferente, em parte porque há uma cultura de autoridade interna que coexiste com uma tradição de rebelião, hoje já muito enfraquecida. Este enfraquecimento, que fez desaparecer (e não mais aparecer) grupos como a Nova Esperança, acompanhou a perda progressiva das qualidades basistas do PSD, durante a direcção de Cavaco Silva, acentuando-se com Fernando Nogueira, Barroso e Santana Lopes. O processo não foi linear e houve momentos em que o debate emergiu com toda a força, como quando Barroso confrontou Nogueira no Coliseu, talvez o último momento de "popularização" da vida partidária, levada aos portugueses em geral. No entanto, quase todos os dirigentes de topo do PSD, em particular Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso e Santana Lopes, actuaram de forma organizada e pública em oposição às lideranças do partido. Cavaco Silva fez o mesmo num passado mais longínquo.
Hoje, a desertificação do debate interno no PSD leva a acentuar as formas conspiratórias e anónimas do confronto político, formando toda uma nova geração nesse tipo de actuação. A conspiração, a fonte anónima, a intriga, acabam por ser aceites como naturais e pululam em recados nos jornais, como se vê em cada edição do "Expresso", ou nos jornais de recados, como pouco mais são o actual "Semanário" ou o "Diabo". A característica deste tipo de actuação é que pouco tem de político e por isso não interessa a ninguém, a não ser a um pequeno grupo de iniciados, eles próprios produtores e consumidores.
Cria-se no partido uma cultura claustrofóbica, em que se acha natural a fuga de informação, a opinião anónima, o "recado", e se ataca a opinião com nome e cara. Um exemplo típico dessa atitude é o comunicado da Comissão Política Permanente do PSD-Porto contra Marcelo Rebelo de Sousa, queixando-se da "crescente agressividade e despropositada animosidade que semanalmente expressa relativamente ao partido, seus dirigentes e militantes", e as "críticas injustas e desproporcionadas" que tem "sucessivamente emitido acerca da personalidade e desempenho dos membros do Governo", em particular Santana Lopes. Esta atitude é errada e nunca foi a de muitas pessoas no PSD, a começar pelo actual primeiro-ministro, que nunca se coibiu de fazer críticas públicas aos dirigentes do PSD e aos seus governos.
Sempre que no PSD se manteve um debate crítico público sobre política e suas orientações, o partido reforçou-se, a exemplo do que acontece hoje com o PS. Seria por isso positivo, inclusive face a um novo Congresso, que o partido abrisse um debate franco nas suas fileiras, nos seus meios de comunicação, nas suas páginas electrónicas, sobre matérias tão cruciais para o seu futuro como sejam a política de coligação com o PP, os aspectos da governação, a estrutura organizativa, o futuro da JSD e TSD, a modernização do seu Programa e dos Estatutos, sem que tal debate se faça, logo à cabeça, associado a listas, delegados, moções e lideranças.”
Não é justo que analisemos um determinado discurso tendo conhecimento de dados que não estavam ao alcance de quem o produziu. Mas não estamos a julgar o analista. Estamos a analisar a vida política portuguesa.
A vida política em Portugal anda pelas ruas da amargura. Questione-se, sob o efeito de um qualquer ‘soro da verdade’, a razão que leva um cidadão a tornar-se militante de um partido.
Erraríamos muito se concluíssemos que uma larga maioria destes cidadãos persegue interesses pessoais? Seríamos injustos se afirmássemos que a sua argumentação pouco passaria de lugares comuns e de coscuvilhices desinteressantes? Não. Globalmente não seríamos injustos…
Podem ter-se discutido estratégias políticas, podem ter-se discutido linhas políticas mas, basicamente, os militantes avaliaram qual dos candidatos seria mais permeável aos seus interesses e qual seria um potencial primeiro-ministro. Sócrates deu mais garantias nesse aspecto aos militantes. Não definiu qualquer política de alianças e, a avaliar pelos seus apoiantes, não atacará os baronetes instalados. Haverá ‘fartar de vilanagem’. Estão os boys e as girls mais descansados…
E este é um erro básico de Pacheco Pereira. Ninguém está, dentro dos partidos, interessado em discutir nada. Nos partidos quer-se paz, concórdia e… tachos!
“ A perda progressiva das qualidades basistas do PSD”, como diz o autor, não se deve à liderança deste ou daquele líder. Deve-se ao exercício do poder nos moldes em que ele se faz no nosso país.
Um político confessou-nos há uns anos que teria que haver algo de muito estranho quando num qualquer concurso público não recebia centenas de ‘cunhas’. !!!! NO ALENTEJO !!!!
Multiplique-se esta realidade pelo todo nacional!...
A questão é mais profunda. Em Portugal nunca se cultivou a excelência. Cultivou-se a amizade (pouco desinteressada), o ‘desenrascanso’, a conspiração…
Olhe-se para a educação, atente-se nos pareceres do Ministério Público, olhe-se para a nomeação para cargos públicos, verifique-se o pessoal ‘de topo’ das grandes empresas públicas ou com capital do Estado... Quantas desta entidades procuram a excelência’
Desça-se às Direcções Gerais, às Direcções Regionais. O que é que se observa?
Verifique-se nas autarquias -grandes ou pequenas- a ‘política’ de recrutamento de pessoal levada a cabo. Quanta amizade e 'boa-pessoíce' reina nas autarquias...
Neste meio sócio-cultural que tipo de militante pensa Pacheco Pereira poder encontrar nos partidos? No seu partido?
É aqui que a personalidade do próprio Pacheco o trai. Só alguém desligado das bases do seu partido é que pode ter a esperança de conseguir modificar alguma coisa pelo debate.
E agora, diz o leitor com toda a razão, o que é que propões?
Vamos escandalizar muitos leitores. Não propomos ainda o fim da Democracia. Propomos, muito humildemente, algumas medidas a que se devem adicionar as propostas de outros cidadãos:
Ponto 1.- VERDADE!
Ponto 1.1.- Fim do sigilo bancário.
Ponto 2.- Que a política recompense a competência: Nenhum deputado, nenhum político, auferirá menos nos cargos políticos que na vida económica normal (a invejazinha já nos tramou bastas vezes…).
Ponto 3.- Crie-se uma Escola de Administração Pública.
Ponto 4.- Deixe-se que os cidadãos escolham o destino de 40% dos seus impostos.
Ponto 5.- Aposte-se na Excelência, no Ensino, na Saúde…
Ponto 6.- Estabeleça-se um luto -5 anos por exemplo- para quem sai de um qualquer cargo político. É imoral a forma como muitos ministros depostos ‘se colocam’ nas diversas actividades económicas em ‘papéis’ anteriormente tutelados pelo seu ministério…
Ponto 7.- Reforme-se imediatamente o Sistema de Justiça.
Ponto 7.1.- Conclua-se que são injustos socialmente os ‘níveis de justiça’ existentes. Os poderosos podem recorrer quase indefinidamente das sentenças mais desagradáveis.
Ponto 8.- Termine-se com a subsidiarite existente.
Ponto 8.1.- Verdade nas relações económicas. É imoral as ‘preocupações sociais’ que actualmente existem para com ‘empresários’ que não demonstram qualquer humanidade para com os seus dependentes.
Estou quase em total sintonia com o meu amigo.
“A direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite”.
“A esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada”.
Estes seriam os princípios, não se desse o caso, de direita e (alguma) esquerda não se distinguirem.
Os interesses instalados, são muito poderosos e difíceis de controlar.
Afinal, eles representam a classe politica de onde desabrocharam.
E são no fundo todas estas manobras a que recorre a nossa classe política que faz com o eleitorado cada vez mais se afaste das mesas de voto e por este andar qualquer dia nem sequer 50% dos eleitores estarão a votar, embora isso para eles não seja relevante o importante é ascender ao poder a qualquer custo para depois tirar dividendos pessoais e distribuir o resto do bodo aos apoiantes.
Afixado por: congeminações em setembro 26, 2004 11:39 PMGanda posta, Francisco!
E agora, depois do resultado das eleições no PS, que teria o JPP a dizer?
Abraço
Afixado por: carlos a.a. em setembro 27, 2004 02:34 PMBom post
Afixado por: GIN em setembro 27, 2004 10:45 PM