novembro 17, 2004

Hortas Sociais

Andamos às voltas com as hortas sociais na Torre de Menagem.
O conceito existe em termos urbanos. Procuramos uma fórmula que permita a sua implementação também em zonas em que a realidade seja inversa. Em que a realidade seja a desertificação humana.
Passe por lá!
Para já, e para lhe despertar a curiosidade, deixamos aqui uma entrevista do Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles...

Um Resumo do pensamento de Gonçalo Ribeiro Telles numa entrevista concedida em Maio de 2003 à jornalista Guiomar Belo Marques

Disponível em: http://www.cm-oeiras.pt/Agenda/74/30%20diasMaio_part_I.pdf.

GONÇALO RIBEIRO TELLES, aos 80 anos, ainda não perdeu qualquer das suas convicções ou determinações. Arquitecto paisagista, tem marcado, de modo muito próprio, a sua maneira de olhar a cidade e o País. Monárquico, convive com o regime republicano com a mesma imensa seriedade que, mais do que tudo, a sua vocação democrática lhe impõe. Por isso, já criou dois partidos e já trabalhou com outros. O importante, para este homem de olhar vivo e ironia saudável à flor da pele, é saber olhar o futuro com as mesmas razões e determinação com que viveu até aqui. Não há demagogia no seu discurso, apenas uma visão feliz pelo que ainda pode ser feito. Antes que seja tarde de mais.
Acredita em que a cidade não tem de ser o inferno em que se tem transformado.
Detentor de um discurso pautado por uma coerência quase impossível de contestação, põe o dedo na ferida e responsabiliza autarcas e técnicos por não respeitarem a harmonia da paisagem urbana, por incompetência, ignorância e ganância. Fala de falta de auto-estima nacional, de submissão a interesses económicos especulativos, de um caminho que está a atirar as cidades portugueses para um contexto terceiro-mundista.
Senhor de um humor assinalável, manifesta uma imensa esperança no futuro que diz assentar na sua experiência enquanto arquitecto paisagista mais do que em convicções abstractas. Gonçalo Ribeiro Telles é a prova do valor do pensamento português e da competência do que somos capazes mas que não temos sabido promover. Ouvi-lo é dar um passo na compreensão da importância de se inverter aquilo que nos deprime enquanto povo. Porque há solução.

Em termos gerais, o que mudou
na cidade?
Já não está circunscrita a um território limitado por muralhas ou fronteiras administrativas. A Grande Lisboa de hoje vai de Cascais a Vila Franca de Xira, de Almada a Mafra. O problema do século XXI é precisamente o da revolução urbana. Houve a da Mesopotâmia, a do mundo greco-romano, a industrial e agora temos a urbana.

Como chegámos até aqui?
Em todo o mundo, as pessoas caminham para a cidade, que deixou de ter limites. Se não houver uma planificação, os problemas
serão muitos, em vários níveis. Hoje deparamo-nos com a cidade-região, que é, no fundo, um regresso ao princípio, e há a necessidade de se realizar a paisagem global, na qual a cidade e o campo estão intimamente ligados. Se já na Antiguidade, na Idade Média e até na Revolução Industrial havia uma relação entre a cidade e o campo, que produzia os alimentos necessários à cidade... Logo a seguir assistimos a uma quebra dessa relação.
E como podemos reatá-la?
O fenómeno urbano da actualidade tem de recuperar uma polivalência do espaço. Por isso é que o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, através do Habitat II, defende que o primeiro problema urbano deste século é o fomento da agricultura urbana. As grandes cidades, com enormes densidades populacionais, não podem ser abastecidas de avião, de barco, de comboio, ou até de TIR , porque não há energia suficiente para isso, nem capacidade para alimentar as populações carenciadas do Terceiro Mundo.

E os chamados frescos não são como os cereais...
Precisamente, porque estes guardam-se em silos durante muito tempo sem se deteriorarem, mas os legumes, não, têm um prazo curto para serem consumidos.

Está a falar da recuperação das hortas urbanas?
Veja-se o que se passa com as hortas do Vale de Carnide... As populações sabem o valor delas, dedicam-se-lhes, precisam delas para a sua subsistência, para se alimentar, para vender os seus produtos, quer sejam as couves à porta dos cemitérios quer sejam os manjericos nos Santos Populares; percebem melhor do que ninguém a importância de as manter, também porque elas são um recurso lúdico e de recreio.

É também um problema ecológico?
Se a cidade não está num ponto alto, perto do mar, as coisas pioram. Não pode haver uma região sem rios, sem matas, sem cidade. Portanto, há dois sistemas que hoje têm de estar profundamente ligados: o sistema natural, dos grandes espaços; e o sistema artificial, construído. Ora, os rios foram canalizados, e temos o fenómeno das cheias. Se não fizermos o abastecimento dos rios, através da circulação da matéria orgânica, estamos a contrariar a natureza. Por outro lado, estamos a regar os espaços verdes de uma cidade com três milhões de habitantes com água de Castelo de Bode, ao mesmo tempo que deitamos fora a água da chuva, que é uma coisa que ninguém faz na Europa, onde ela é aproveitada para regas e até para despejos de autoclismo. Nós não, preferimos Castelo de Bode....

Estamos a desbaratar os nossos recursos irracionalmente?
Nós estamos realmente a caminhar para formas de cidade completamente ultrapassadas. E se a água de uma ribeira ou de um rio resiste, transformamo-los em canais, metemo-los dentro de betão para correrem mais depressa e nos livrarmos dela. É o problema da impermeabilização das cidades. Quem é responsável? A culpa é dos urbanistas, dos autarcas, dos técnicos responsáveis. São danados para comprar porcarias. Como as palmeiras, por exemplo. Agora plantam-se palmeiras por todo o lado, são úteis porque se compram à Espanha e se plantam já grandes, o que é bom para as campanhas eleitorais.

Mas as palmeiras sempre existiram em Portugal...
Sim, mas não desta maneira. Agora há palmeiras por todo o lado, só falta começarem a substituir os ciprestes dos cemitérios por palmeiras...

As suas convicções não são uma luta contra um poder económico difícil de combater?
Não são convicções. Sou um profissional e tenho as minhas convicções exclusivamente derivadas do meu trabalho. O problema maior não é o económico, mas, sim, o cultural.

Mas como se altera isso?
Voltamos ao princípio: dando à criação urbana a concretização dos dois sistemas: o natural e o artificial. O natural já não é a natureza livre, mas, sim, uma natureza transformada pelo Homem numa segunda natureza. A agricultura, bem trabalhada, é uma segunda natureza. O campo, quando trabalhado e regenerado nas suas potencialidades, é uma segunda natureza. Por tanto, a cidade tem de ter um planeamento que considere não só a edificabilidade mas também uma segunda natureza. É só isso. Já não podemos viver entre betão. Esse é o problema da Área Metropolitana de Lisboa, por razões de avaliação errada da economia. A recuperação da agricultura, neste momento, tem de ter por base a recuperação da cidade.

As pessoas têm capacidade para o entender?
Têm: as pessoas compreendem muito bem, mas têm de ter uma referência por parte daqueles que são referência. Quando a transformação do território passa apenas por edificação, com a criação de zonas pretensamente verdes, assentes em meia dúzia de palmos de terra, estamos a conduzir a cidade para algo que é cada vez mais próximo do Terceiro Mundo e não da Europa. Basta dizer que os actuais cursos do ensino superior sobre ordenamento do território são cursos de macro urbanismo convencional. O próprio Ministério da Agricultura tem uma comissão de desactivação da reserva agrícola nacional... Basta ver o que se passa com Torres Vedras, que teve de lutar contra essa comissão para manter os seus espaços verdes...
Agora também se está a passar um outro fenómeno, que é o da transformação da Área Metropolitana em grande vazadouro de entulho.

Vazadouro de entulho?
Sim. Os camiões das obras, à noite, despejam o entulho a conta-gotas para terrenos de reserva natural que se encontram à beira de estradas secundárias. Em Alcochete isso é flagrante. Ou seja, estes terrenos, dentro em breve, deixarão de ser uma reserva natural.

E tornam-se ideais para erguer mais edifícios...
Exactamente.

Há pouco referiu a existência de uma errada perspectiva económica. Quer explicar?
Temos uma visão sectorial da economia: ou tem de ser celulose, e então é só isso; ou tem de ser construção civil, e também passa a ser só isso... Nós estamos a comprar os pesticidas mais caros do mercado porque a empresa que vendia outros, mais baratos, deixou de os fabricar...

As câmaras têm responsabilidades?
Qual a câmara que estimula a agricultura urbana? Não interessa fazer uma série de parques aos quais as pessoas não podem ir, nem reduzir espaços verdes a rotundas de circulação. Depois, há a especulação imobiliária. Agora acabaram com a sisa para ver se vendem as casas e se não há uma crise na construção civil. Enquanto não houver um ordenamento do território, nada a fazer. É só património edificado e edificável.

Quer referir-se ao Plano Verde de Lisboa?
Agora está tudo parado, mas o objectivo é o da criação de uma Estrutura Ecológica Municipal com três aspectos: proteger a estrutura fundamental, apoiando-se na valência do território para a vida, que acompanhe os vales, as várzeas, etc.; outra estrutura é a ecológica integrada, que é a dos logradouros, das hortas, do contexto interno construído; depois há ainda a estrutura económica cultural, que se faz em ter mos de forma, de conteúdo: por exemplo, a Quinta do Marquês de Pombal, em Oeiras, onde a vegetação é a natural. Sem que estas estruturas sejam tão consideradas quanto as estruturas inertes da edificabilidade não existe uma verdadeira solução de fundo.

Falemos um pouco da sua vida política. Foi fundador do PPM, mas depois criou o MPT. Entretanto, nunca manifestou qualquer relutância em trabalhar com outros partidos. O importante é terem em conta as suas propostas?
O PPM tinha um programa que assentava nas pessoas e no território. No seu programa defendeu a regionalização do País e que ele deveria ter 26 ou 27 regiões, e que só era legítimo dividir por regiões naturais e culturais, conclusão a que agora já chegaram, que agora já se defende – a regionalização por comunidades locais. Nós não podemos regionalizar como a Espanha.

O partido é importante?
O partido, para mim, tem interesse na medida em que reflecte determinadas ideias e preocupações. Se deixa de reflecti-las então não é possível estarmos no partido.
Por isso, nunca fiz da questão monárquica uma coisa fundamental, a não ser no PPM, com o 25 de Abril, por ser importante dar a conhecer ao País a ideia monárquica, que não era nem de direita nem de esquerda, mas, sim, estruturante da própria existência do País, o que só podia ser feito através de um partido oficial. O que está em causa não é o regime: é, sim, a instituição. O regime pode ser republicano, e a instituição, monárquica, porque estão em planos diferentes. A instituição é estruturante do País e da nacionalidade.

E o MPT?
Era importante para defender a terra.
Como se resolve o problema da falta de auto-estima e de interesse portugueses?
Como se pode ter auto-estima e interesse em se ser português se hoje já não se ensina História nas escolas, se perdemos uma identidade, se temos o salário mínimo mais baixo da Europa?

Publicado por Francisco Nunes em novembro 17, 2004 10:28 PM
Comentários

mas é pena não darem grandes ouvidos ao arquitecto...

Afixado por: hammer em novembro 17, 2004 11:02 PM