janeiro 17, 2005

Director do único museu do relógio da Península: António Tavares de Almeida

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Este é um país de capelinhas. Em Portugal é complicadíssimo que um cidadão, ou um grupo de cidadãos, mantenha um museu.
A solicitação de um qualquer apoio estatal transforma-se num pedido armadilhado. Antes do subsídio, que na maior parte dos casos não vem, surgem as pressões de todo o tipo para que o espaço museográfico seja integrado num qualquer museu 'oficial'. O pretexto é quase sempre o de assegurar que aquela colecção tenha uma apresentação museográfica conforme com as regras estabelecidas. Esta realidade, no entanto, esconde interesses políticos pouco confessáveis e vaidades ou invejas pessoais de baixa estirpe.
E isso é estranho e é contraditório numa altura em que se fala tanto de turismo no espaço rural. Espera-se que os turistas disfrutem do bom ar do campo, da natureza, da fauna indígena... E se chove? e se venta? e se faz muito frio? e se um dos membros da família tem outros interesses?
Num sistema que castiga os museus privados. Um sistema que promove a centralização dos museus em sedes de concelho, de distrito ou na capital a acção deste homem é meritória a todos os níveis.

A jornalista Lara Loureiro e o fotógrafo Filipe Pombo estiveram com o director do Museu do Relógio de Serpa há uns dois anos para realizarem um trabalho que foi publicado no 'Anuário Relógios e Canetas - 2003/2004' que transcrevemos abaixo:

"NO MUSEU do RELÓGIO

António Tavares de Almeida
não é apenas mais um conhecedor
de relógios. A sua (intensa)
paixão pela relojoaria levou-o
a fundar um museu. o único da
Península Ibérica. Com tantas
dificuldades, se tivesse de
começar de novo, era provável
que se deixasse ficar pela
paixão platónica

Para António Tavares de Almeida, um relógio a pilha não é nada. E, por isso mesmo, nem que seja uma vez na vida, o coleccionador acredita que todos os seres humanos devem adquirir uma peça de alta relojoaria.
Bastante orgulhosos de ser o proprietário de um acervo histórico inigualável, o electromecânico, de formação,e produtor de cereais reuniu a sua colecção e fundou o Museu do Relógio. O espaço tornou-se uma necessidade. As dificuldades têm sido muitas. Até porque o Museu do Relógio de Serpa é o único auto-sustentável do País. Mas foi esta a fórmula que António Tavares de Almeida encontrou para manter as suas jóias 'bem vivas'. Afinal, não é muito fácil ser o detentor de 1600 relógios em perfeito estado de conservação e funcionamento...

Como nasceu esta grande paixão pelos relógios?
Tenho um curso de máquinas - sou electromecânico. Gosto de máquinas e no dia em que recebi três relógios avariados apaixonei-me por eles. Já dura há 31 anos.

Qual foi o seu primeiro relógio?
O meu primeiro foi um Caunny Prima oferecido pelo meu pai quando fiz a quarta classe. Custava na altura 300 scudos, o que, nos anos 60, era muito dinheiro. Ainda o tenho. Como também tenho o que era da minha mãe e o que era do meu avô.

Não lhe custou expôr a sua colecção?
Não. Como é que a produzir cereais poderia manter o museu fechado?... A determinada altura tive de abrir as portas ao público para pagar as despesas e investir.

Quais as características necessárias para considerarmos um relógio de alta relojoaria?
Tem de ser mecânico. O relógio de pilha não passa de um chip com pilha feito por um robot. O relógio mecânico começa por ser simples - tem horas e minutos. Depois segue-se tud o que é colocado dentro dele: o dia da semana, mês, fases da Lua, o cronógrafo, o calendário perpétuo, o turbilhão. Quanto mais peças um relógio tem, mais valioso se torna. O ouro a platina, a prata da caixa valem o que valem. Se um relógio pesa 25 gramas gramas tem 50 contos (250 euros) de ouro. Ora, um patek Philippe - que custa, por exemplo, 10 mil euros, o modelo mais barato - se tiver 250 euros de ouro, é muito, tem cerca de 9 mil euros de máquina. O que é caro num relógio é sempre a máquina e nunca a caixa. O português ainda não percebeu que existem relógios de aço que são dez vezes melhores que os de pilha. Um Patek de aço vale seis vezes mais do que um de ouro. Essa ideia de comprar relógios de por terem ouro está errada. Mais vale comprar barrinhas de ouro - é mais económico.

Não acha muita piada aos relógios de pilha, pois não?
Não, não acho [risos]. Nunca usei um na minha vida. Pode ser baratucho, mas sempre tive um relógio mecânico. Relógio de pilha é que não. A pilha está com os dias contados, é altamente pluente -é mercúrio puro - e está a contaminar o planeta. O Homem felizmente já descobriu que cometeu um erro durante mais de 20 anos e neste momento estão a ser inventadas outras coisas como o relógio de energia solar, os autoquartzos, os relógios mecânicos automáticos.

Considera-se um guardião do tempo?
Sim. No museu temos 400 anos de relojoaria. Mais, o relógio é a máquina mais importante que o Homem inventou até hoje. Se não fosse o relógio,a esta hora não estávamos aqui a conversar. não havia horários e o mundo era uma anarquia total.

Quando começou a coleccionar. Depois ou antes de decidir criar o museu?
Em 1972, com três relógios. Tinha 20 anos. Estive na guerra do Ultramar e a seguir vim para Serpa onde nasci e fui criado.

Qual é a menina dos seus olhos?
Olhe, eu tenho tantas meninas aqui que não sei [risos]. Não faço ideia qual é a meninaa dos meus olhos. Se tivesse de escolher dez relógios tinha muita dificuldade porque estamos a falar de 1600 relógios.

Qual foi o mais difícil de obter?
O Grande Sonnerie mais antigo do mundo está aqui no museu. É um Edward East fabricado em 1630, em Londres. Pertencia a um senhor, coleccionador de moedas, que um dia veio visitar o museu e disse que tinha em casa um relógio muito raro que entro em Portugal, há 200 anos, através dos ingleses que vieram expulsar os franceses.
Quando veio cá, esse senhor viu uma colecção de moedas romanas e árabes e fizémos uma troca - as moedas pelo relógio. Quando me perguntam o preço deste relógio respondo que me custou 2000 moedas romanas.

Há alguma história engraçada?
Há muitas. mas há cinco anos veio cá um senhor com 20 relógios de bolso muito raros, com mais de 100 anos. que eram do seu bisavô. Tentou dar dez a cada um dos seus filhos, mas eles disseram-lhe que não tinham interesse e adiantaram que, no dia em que falecesse, os trocariam por relógios com marca de camisa.
Por isso veio ter ao museu. Fizémos um contrato: dei-lhe 100 contos (500 euros) e durante a sua vida ele poderá vir ao museu sem pagar entrada.

Ainda lhe falta algum relógio?
Falta sempre. Hárelógios que custam tanto dinheiro... O mais caro do mundo custa 100 mil contos (500 000 euros)- nunca poderá estar no museu. Deve estar na colecção dos reis do petróleo. São feitos 4 ou 5 por ano. Não consigo chegar lá. Em relojoaria, nunca é possível juntar tudo. Tento ter o mais antigo - com 400 anos - os que se vão fabricando e que realmente vão ficar na História.. Rolex, Patek Philippe, Vacheron Constantin.

E é fácil perceber isso?
É, porque há uma grande procura. Quando os relógios são muito procurados e não há para entrega, significa que vão ficar na História. Quando o mesmo relógio está na montra de 50 lojas, é sinal que não vale a pena comprá-lo. Os relógios bons são raros.

No caso do 'Portuguese', da International Watch, já era de se esperar o sucesso?
Era. Um português teve a maluquice de mandar fazer um relógio de pulso do tamanho de um relógio de bolso. Mais. O calibre era o de um relógio de bolso, a máquina também. Na altura - 1930 - a International Watch Company (IWC) achou um disparate. Só que o relógio pequeno de 35 mm, não se vendia no mercado nacional. O português achava-o um pouco feminino. O sucesso do 'Portuguese' , com 41 mm, foi tão grande que ainda hoje continua a ser o relógio mais famoso da marca.

Qual é o melhor relógio do mundo?
É o Patek Philippe. Apesar de hoje em dia haver marcas muito boas. A A.Lange & Söhne é boa, a Girard Perregaux é muito boa. A Vacheron Constatin fabrica coisas muito bem. Depois há os habilidosos da relojoaria que compram os movimento e alteram-nos. Caso do Franck Müller cuja maioria das máquinas são ETA da Omega. Trocam os ponteiros e depois vendem-nos mais caros do que os outros fabricantes. Coisa que eu nunca faria. A Patek Philippe é a Rolls-Royce - - já deu provas ao longo de mais de 100 anos que é o melhor relógio do mundo. Entre o Müller e um Patek vou sempre para um Patek. Entre um relógio moderno e um IWC, vou sempre para um IWC. Sei que os novos são muito bonitos, mas eu prefiro as máquinas. Poucas fábricas fabricam máquinas; a maioria usa a mesma máquina.

Há cada vez menos fábricas?
Sim, é verdade. Por exemplo, há uma fábrica de balanços. Fica muito mais barato comprar um balanço a essa fábrica do que estar a comprar uma máquina para fazer balanços. Fábricas que produzem dez mil relógios por ano não se podem dar ao luxo de ter as máquinas para fabricar a maquinaria - é muito mais económico procurar o grupo ETA e estabelecer parcerias.

Como anda o coleccionismo em Portugal?
Neste momento está mau, há uma grande crise. Há aquelas pessoas com dinheiro que compram este tipo de relógios. Mas também há muita gente que não tem dinheiro e compra. Estas pessoas compram passando cheques pré-datados de 500 euros.
As casas facilitam porque se não facilitarem não vendem. A maioria das pessoas não pode comprar. Os preços são tão elevados que é preciso facilitar.
O português gosta muito de relógios. Curiosamente, as senhoras procuram mis os relógios que conjugama com a roupa.
um conselho. Quem comprar um bom relógio que dê com tudo já não necessita de comprar mais nenhum. Mais vale ter um bom relógio na vida do que ter 100 que não prestam para nada.

Que conselhos dá a futuros coleccionadores?
É preciso saber de relojoaria. Nunca se deve comprar relógios na Internet - são na sua maioria falsos. Nunca se deve comprar relógios baratos porque são muito maus. As caixas são de lata de bebida reciclada, a máquina é chinesa e os cronógrafos nunca trabalham - os botões estão lá, mas é tudo cenário.
[...]"

Publicado por Francisco Nunes em janeiro 17, 2005 04:20 PM