A propósito de uma entrevista dada por este escritor ao DNa, e de que citámos um dos seus muitos passos, surgiram uma série de comentários neste blogue -bem como no blogue do Carlos que tinha feito um trackback da nossa posta-. A princípio deixámos, como se diz, 'correr o marfim'. Acontece que esta foi uma posta muito lida e começámos a temer que o pobre do libanês passasse por superficial aos olhos de alguns dos nossos leitores. Não é!
Para além de jornalista ligado às questões internacionais é um escritor que se tem debruçado muito sobre as origens do atraso do mundo islâmico face ao Ocidente. E fá-lo com muito rigor. E fá-lo do ponto de vista dos árabes.
Este atraso e esta desconfiança do mundo islâmico face ao ocidente retrata-os, por exemplo, logo no seu primeiro livro, 'As Cruzadas Vistas Pelos Árabes'; no 'Samarcanda'... e agora no seu último trabalho 'Origens'.
Não é portanto um indivíduo que desconheça as motivações dos terroristas... Bem ao contrário! Amin Maalouf é um verdadeiro especialista (na acepção total do termo) desta matéria. É nesse contexto que devemos encarar o seu -digamos assim- enfado face à compreensão do terrorismo. Esse é um assunto muito mais que estudado. É um tema mil vezes debatido e mil vezes rebatido...
O homem só quis dizer o óbvio. Só quis dizer que nos devemos preocupar com os árabes que não são terroristas antes que o sejam, enquanto nós nos perdemos em questões bizantinas.
Mais uma vez agradecemos os comentários de todos os leitores que se dignaram comentar aquela posta.
Publicado por Francisco Nunes em março 14, 2005 01:20 AMNão me querendo meter na discussão mas metendo(!), perguntava ao Francisco, quem são as forças progressistas dentro do mundo islâmico? Na verdade, quem são? Recordava ao Francisco o caso do Afeganistão.
O regime estalinista instalado pela ala dos oficiais esquerdistas em 1978 executou uma série de reformas, inclusive a reforma agrária e medidas progressistas em relação às mulheres e à educação, numa tentativa de levar o Afeganistão, na época, para o século XX. Isto significou uma ameaça mortal não apenas aos interesses dos latifundiários, agiotas e dirigentes religiosos afegãos mas também à monarquia reacionária da Arábia saudita e a outros países vizinhos. Por esta razão, e pela afinidade, na altura, com Moscovo, que de facto não desempenhara qualquer papel na revolução de 1978, os Estados Unidos opuseram-se implacavelmente ao “novo” (forças progressistas) regime de Cabul, o qual, embora de forma destorcida, representava uma revolução. É por esse motivo que os americanos deliberadamente armaram, financiaram e incitaram a coligação mais bárbara e reaccionária contra esse regime no Afeganistão. O que veio a seguir, Francisco, nós sabemos. A pergunta é: quem é foi o responsável por essa guerra civil sanguinolenta, todas essas mortes, pela fome, pela limpeza étnica e cabal barbarismo? Quem eram as forças progressistas? Os estalinistas, os chefes tribais, os talibãs, o dinheiro americano... Da noite para o dia, o herói e corajoso “combatente da liberdade” da CIA, tornou-se o “inimigo da civilização”. O que enraiveceu os americanos foi o facto de que, após o fim da guerra-fria, esses bandidos e gângsters contra-revolucionários fugiram do seu controlo. Não é o caso do fundamentalismo ter mudado. Foi o mesmo cão hidrófobo de antes - mas a trela escapou do seu pescoço! Washington semeara ventos e colhera tempestades. Usando fundos e armas que lhes foram doados pelos americanos e sauditas, os grupos fundamentalistas melhor organizados como a Al Qaeda estabeleceram bases em vários países islâmicos, tais como a Argélia, o Sudão, o Egipto, o Iraque, a Turquia, o Tadjiquistão e Caxemira. Em 23 de fevereiro de 1998, numa reunião realizada no campo de Khost - construído pela CIA - a Frente Islâmica Internacional lançou um manifesto, anunciando a jihad contra os Estados Unidos. A declaração afirmava que por mais de sete anos esta potência tinha ocupado terras do Islão na península arábica. Da reunião resultou um fatwa (decreto sagrado), afirmando que matar americanos era dever de todos os muçulmanos. O que veio a seguir todos conhecemos. Compreendendo que tinham sido traídos pelo ex-aliado e seus auxiliares, a fúria dos americanos não conheceu limites. Que fique bem claro, Francisco, independentemente de que causas sirva, o terrorismo é um método de luta reaccionário. Afinal quem são os Terroristas? Os Assassinos? Os Torturadores? Agora, vejo com dificuldade quem são também essas forças progressistas, sobretudo, dentro do mundo islâmico, ou será que voltámos ao conceito marxista de forças progressistas, mas no mundo islâmico já se "queimaram" todas as etapas!
Mas eu percebo-o Francisco, um abraço.
Concordo completamente com a ideia de que é preciso dialogar com todos os que não são terroristas. E acho, até, que isto não vai lá só com conversa, que precisa de medidas concretas que evitem que essas pessoas se tornem um reservatório para os terroristas. Mas continuo a achar ser fundamental compreender a psicologia do terrorista para poder combater eficazmente o fenómeno - não basta conhecer duas ou três razões que empurram as pessoas para essa via. Para além de ser fundamental compreender o raciocínio do islamita. Não sei se o Francisco já tentou falar abertamente com um islamita... E não sei se o próprio Maalouf, sendo católico, compreenderá completamente umas quantas questões culturais dos árabes que são profundamente condicionadas pela religião islâmica.
O grande problema é que nós continuamos a olhar para as sociedades islâmicas com olhos de ocidentais, de judaico-cristãos. Mesmo quando compreendemos (ou julgamos compreender) as razões do terrorismo, o que o motiva, fazêmo-lo com base na nossa própria cultura. ;)
Um abraço. E, já agora, parabéns por ter trazido à baila esta questão.
Eu regresso a Amin Maalouf pelo que o Francisco já enunciou e pelo facto de se tratar de um árabe que defende, há muitos anos, uma coexistência pacífica entre israelitas e seus vizinhos desde que os primeiros restituam os territórios ocupados após 67 e que os segundos abandonem de vez a guerrilha armada, para uns, os actos de terrorismo, para outros - uma questão de nomenclatura e lado por que se posiciona.
No fundo, a questão israelo-palestiniana é o pomo de questão: será que após ser pacifucamente resolvida os árabes cessassarão os actos terroristas conforme muita da "esquerda" defende?
Temo bem que não, é que o que para o que faz com que os árabes se sintam vilipendiados é o estado de pobreza que a exploração ora da ex-U.R.S.S., ora dos EUA os conduziu, para mais sabendo que a sua riqueza esgotar-se-á em 50 anos deixando-os novamente plenos de areia para explorar.
É neste sentido que aplaudo as palvras de Amin Maalouf, aproximarmo-nos deles, mostrar-lhes como pode ser feito, como poderão obter um padrão de vida menos pungente é o caminho adequado para que os mais jovens não sintam que o único meio de subsistência e reconhecimento social que possuem é matar ocidentais!
Ora isto não se faz com armas, faz-se com palavra e respeito mútuo.
Abraço
Afixado por: carlos a.a. em março 14, 2005 02:24 PMLi com atenção os comentários dos leitores. Tem toda a razão o Albardeiro quando pergunta quem são os progressistas no mundo islâmico; tem razão o Zedtee quando afirma que os nossos olhos e as nossas opiniões são sempre os olhos e as opiniões de ocidentais e o Carlos tem toda a razão em referir a necessidade primeira de afirmar o respeito mútuo.
É por aqui que começo: haja respeito!
No mundo islâmico sempre houve comunidades não islâmicas que foram respeitadas. Na Bósnia já houve uma interacção pacífica entre cristãos e muçulmanos, no Líbano, no Iraque, no Irão, na Turquia e em Israel as 3 religiões do livro sempre conviveram sem problemas de maior.
Foi a falta de respeito pelas especificidades das comunidades muçulmanas que levou ao ódio e ao fanatismo. O processo poderá ser reversível, havendo tempo.
É claro que não concordamos com a situação das mulheres nas sociedades mais reacionárias. Mais fanáticas. É óbvio que como homens devemos lutar contra este tipo de descriminação. Neste aspecto são sábias as palavras de Maalouf. 'Falemos com os árabes que ainda não são terroristas'.
Como?
Recordo que aqui muito próximo, em Marrocos, o rei tenta abrir a sociedade a parâmetros mais consentâneos com os nossos tempos. Como é que muitos ocidentais vêem esta abertura? Vêem-na como uma oportunidade de vender hamburgueres aos filhos mimados das classes possidentes.
A Turquia procura ocidentalizar-se, entrar e abrir-se à Europa. Como é que na Europa vemos isto? Como um perigo enorme. Como uma forma de islamizarmos toda a Europa. Ou como uma fonte de mão-de-obra barata para a indústria automóvel.
No Irão toda uma classe média anseia por liberdade. O que fazemos? Provocamos o nacionalismo dos iranianos com questões ínvias. Reforçamos constantemente o poder dos dirigentes mais tacanhos e reaccionários.
Já agora:
E quem terá assassinado o ex-dirigente libanês? Terão sido, de facto, os sírios?...
Tenho orgulho de ser ocidental. Tenho orgulho em, como português, pertencer à raça daqueles que abriu o mundo a todo o Ocidente. Não tenho orgulho do cavalo de Tróia em que nos transformámos. Verdadeiramente os dirigentes do Ocidente estão-se nas tintas para as liberdades individuais. Os nossos (que é como quem diz...) dirigentes querem mercados. Ponto.
Marrocos é uma sociedade que, pela mão das suas elites, se quer modernizar em termos económicos e sociais. A mulher marroquina tem ganho muitos direitos nos últimos anos. O que fazemos para ajudar este país?
A Turquia é um país com uma classe média crescente. O seu campesinato não é muito mais retrógado que o campesinato europeu há 70 anos, ou do que o campesinato português há vinte. O que fazemos? Strip Tease. Despimos tanto os turcos que os havemos de transformar em revoltados ou em 'metropaneleirotes' novaiorquinos ou londrinos.
Pois é... haja respeito.
Lutar contra o terrorismo será pois falar com os árabes não terroristas e defendermo-nos em moldes policiais dos terroristas. Nenhum destes caminhos é fácil, nenhum nos dará segurança imediata. Mas temos que os percorrer com paciência e com muita coragem.
Afixado por: Planície Heróica em março 14, 2005 07:50 PMSe analisarmos cuidadosamente as convulsões no mundo Árabe, descobriremos quem sempre beneficiou com elas…
Afixado por: jgonçalves em março 14, 2005 10:31 PM