Goya, 'A carga dos mamelucos sobre Madrid'
A Guerra da Independência supôs para Goya, como para milhares de espanhóis, um aterrador dilema:
- intelectual, ligado aos filósofos das luzes e à maçonaria, favorável à reforma de Espanha e contrário ao mau governo de Carlos IV e de Godoy, alinha-se, juntando-se aos afrancesados, com o rei José I;
- homem de elevado patriotismo, a sua razão não entende o massacre que se está produzindo no seu país.
Tem, pois, o coração dividido e os seis anos de conflito armado vão provocar uma importante mudança na sua pintura, que se torna a partir de agora, definitivamente, mais solta, mais violenta, mais 'negra'.
Podem-se tirar ilações interessantíssimas deste quadro para a história da pintura. As pinceladas violentas e 'certeiras', o exagero nas expressões espanholas...
(pormenor)
(outro pormenor...)
(já agora... outro -o último!- pormenor)
Mas não é por aí que vamos. Esse é um caminho já melhor traçado pelos especialistas. Não! este quadro dá-nos mais em que pensar:
1º.- Andamos a por tanta pintura neste blogue que, não tarda, acusam-nos de imitar o Pacheco; o que até nem é mentira de todo. De facto, a pintura embeleza os blogues. E o Pacheco, diga-se o que se disser, tem bom gosto para a pintura.
2º.- o acerto de se considerar a revolução francesa de 1789 como o início da Era Moderna... se soubermos que os mercenários egípcios do quadro foram contratados após a conquista napoleónica do Egipto, pouco mais há para dizer a propósito das práticas imperialistas do nosso tempo... (Sim, sabemos que antes já os Romanos recorriam aos derrotado como mercenários, tal como os Bizantinos, os próprios espanhóis...)
3º.- o uso bicentenário de mercenários fanáticos muçulmanos pelos agora 'anjolas' franceses; esta é uma tendencia (chamemos-lhe assim) um bocado aborrecida. Se recordarmos um pouco a história destas relações vêm-nos à memória vários episódios elucidativos da forma hipócrita como os franceses 'se armam' em amigos dos árabes. Em boa verdade sempre os utilizaram em proveito próprio e sempre os traíram alegremente quando foi preciso. A última habilidade feita pelos 'franciús', aquando de guerra da independência argelina, vitimou um milhão de argelinos que, julgando-se franceses, suportaram a retirada dos europeus para a metrópole ficando depois estes desgraçados à mercê dos rebeldes patriotas.
4º.- a repetição da História; sem mais comentários...
5º.- a impossibilidade de se aprender alguma coisa com a História; sem mais comentários...
6º.- a dificuldade do ocupante perceber o patriotismo dos ocupados. Veja-se o Iraque de hoje: a actuação americana já conseguiu pôr contra ela as forças mais dinâmicas do país; as mesmas que não alinhavam nem com o Saddam nem com os fundamentalistas...