Não tinhamos feitio para aturar certo tipo de 'fura-vidas'.
A sério!
E ser empregado de mesa? Ufff!.. Arrenego Satanás!...utchque!
Esta noite, à nossa frente, em Beja, sentaram-se para jantar três pessoas. Deviam ter tabanca para abrir na Ovibeja, e tal...
Rapaziada lá de cima 'armada ao pingarelho'... Um must!!!
Um homem baixinho falando à Puorto, uma senhora de meia idade com ar decadente e uma rapariga de 27 a 30 anos; para o 'cheiinho'.
Primeiro toque de grande classe: Chamar o empregado estalando os dedos.
O empregado -muito bem!- não veio.
Desistiram.
O empregado veio.
Na sua boçalidadezinha de 'self made men' devem ter atribuído o efeito à lentidão dos alentejanos...
Adiante.
Pedido feito: carne para toda a gente (bem-passada, meio-passada e mal-passada).
O vinho? 'Se o empregado quisesse o senhuore ia buscá-lo!'(Gracinha bronca misturada com uma necessidade imensa de demonstrar eficiência!)
Vinho na mesa ( depois de apalhaçadamente provado e mal escolhido).
Carne na mesa.
Cinco minutos.
O molho e as desculpas pelo atraso.
- Ahhhh! Ora já estava a ver que o muolho não chegaba carago. (Mentira descarada!! O cavalheiro nem se tinha apercebido que o molho vinha aí. Devia ser obrigado a papá-lo sem pão nem água! Labrego do caraças.)
Discussões originais roçando algumas teorias económicas -p'raí do século XIX- em que o cavalheiro queria a todo o custo demonstrar sageza, capacidade e uma inteligência anormal às senhoras. Parece-nos que não o conseguiu... (Também... é difícil aceitar que numa empresa de hoje as ordens emanem directamente do 'Espírito Santo'...)
- Sobremesas?
- Sim senhuor! Traga-nos três sorbietes de limãue!
- Não temos!... Desculpe.
- Não tem, carago? Desenrasque-se.
- Se o senhor quiser pode ver se há aí alguma coisa de jeito...
- Então dê-me cá a lista.
- Vá... três sorbetes destes... e três bicas.
O empregado hesitava entre o espanto, o divertimento, a humilhação e a incredulidade... Não sabemos como acabou esta história. Entretanto pagámos e saímos...
No caminho para casa lembrámo-nos de um dos pobres mais pobres de uma aldeia da Planície. O rapaz era um predestinado para o sucesso e, sem sair da terreola, 'falava à Cascais'desde os oito ou nove anos. Começou a falar assim 'de repente!...'
Quando saiu da terra foi trabalhar para um hotel de cinco estrelas. Começou como paquete...
Uns anos depois regressou à terra 'amontado' num BMW grande e em segunda mão.
Umas horas depois gritou ao taberneiro:
-Senhor Manuel (e não 'Ho Manéli...') parece-me que bebi demais (em vez de 'Eh pau!... enfrasqui-me') seria bom que me chamasse um Táxi ('chama-me lá um carro de praça, caraças').
-Zé!... Tás parvo?!... O 'Joaquim do carro de praça' mora aqui ao lado!...
- O Senhor Joaquim pode ter a agenda muito ocupada!... Vá! Despache-se.
O outro 'despachou-se'. Deu-lhe duas lambadas e disse-lhe que nunca mais bebia ali. Perguntou-lhe se estava parvo ou se estava 'quê?' e sentou-o num banco corrido no 'largo das camionetas', junto aos reformados...
O Zé agora já não bebe quando vai à terra. É melhor...
Publicado por Francisco Nunes em abril 30, 2005 03:05 AMGrande Francisco!
GRANDE POSTA esta. Muito bem tirado o retrato aos dias de hoje, assim, de uma forma simples e directa.
Aquele abração do
Zecatelhado
Ausente por razões pessoais e falta de tempo, mas lá vou indo a alguns sítios de vez em quando. Este post, Francisco, é um mimo de sensibilidade, ironia e realidade crua! É o país que temos. Que avalia o seu sucesso em função do sucesso do José Mourinho. E mede o deste pelo que ganha, pelo sobretudo que veste - ainda que seja Verão! - e pelos moradores vizinhos à sua mansão. Aquele abraço, enquanto me ficam as saudades de comer uma sande em bom pão alentejano e beber um copo. Em Beja, claro!
Afixado por: Luís Vieira em abril 30, 2005 08:49 AM