junho 29, 2005

Parole, parole, parole, parole, parole, tanta parole!...

governadorcivildebeja.jpg Governador Civil de Beja (foto D.A.)

O senhor general diz que as medidas para evitar o excesso de consumo de água e as medidas para as carências eventuais deste precioso liquído, no Alentejo, estão tomadas.
Nós acreditamos e aplaudimos. E até concluimos com gáudio:

Tá tudo muita bem pensadinho! Tam bein pensadinho, tam bein qu'as pixinas du destrito de béjam tão todas a foncionare e as regas dos cantêros de relva até sã regadas às catro da tarde. Assim mému é qu'éi! Viva Portugal!'

O governador civil de Beja está preocupado com a seca e as consequências na região – os prejuízos dos agricultores e de outros sectores da população, o abastecimento de água, o risco agravado de fogos florestais. Tem coordenado o combate ao flagelo com associações de agricultores e cooperativas agrícolas, com autarcas, com os diversos serviços regionais e até com o Exército – já garantiu que o Regimento de Infantaria de Beja vai ajudar a distribuição de água.
Nesta entrevista, o general Manuel Monge gostaria de ter falado "dos problemas estruturantes" do Alentejo – Alqueva, aeroporto de Beja, Sines, IP8, saúde e educação, desenvolvimento –, mas o tempo só deu para abordar as questões mais urgentes: a seca, o abastecimento de água e os incêndios.

A sua principal preocupação é, neste momento, a seca e as consequências para a região. Qual é a situação, no que diz respeito à agricultura?

A situação é extremamente grave e vai prolongar-se. Podemos até dizer, sem dramatismos, que o pior está para vir, quer no abeberamento do gado, quer na falta de pastagens. Vamos ter um Verão muito difícil, não há palha no terreno, os restolhos são fraquíssimos, maiores são as despesas que os agricultores terão que fazer. Na realidade, a agricultura do Alentejo está a atravessar uma situação bem complicada. Em resposta, o Governo lançou linhas de crédito que permitem aos agricultores poderem ir buscar dinheiro à banca em condições vantajosas.


Essas medidas são suficientes?

Além das linhas de crédito, o Governo coloca a hipótese, se a situação se agravar – infelizmente, receamos que sim –, de poderem ser adoptadas outras medidas, de emergência. A seca e os problemas dos agricultores não são iguais em todo o lado. Fiz esta semana uma reunião com as câmaras para tratar do assunto da água, chamei os representantes dos municípios que já têm problemas, os da margem esquerda do Guadiana e, da margem direita, apenas os que me solicitaram, que são Ferreira do Alentejo e Odemira. O Alentejo, finalmente, tem água. Tem água em Santa Clara, no Alvito, não tem água no Roxo, não tem água capaz no Enxoé, mas tem água em Alqueva: temos é que a transportar, fazer um sistema de ligação do regadio a essas barragens. E eu sou crítico quanto à lentidão do desenvolvimento do Alentejo. Para a minha geração, a construção da barragem de Alqueva é a concretização de um sonho, noutro dia atravessei de barco a albufeira entre o paredão e Monsaraz e quase me comovi com aquele espelho de água imenso... A água existe, ainda hoje ouvi na rádio alguém dizer que "a água é o petróleo do século XXI". O Alentejo é um pouco mais rico do que há uns anos atrás, temos é de criar condições para o desenvolver.


Critica a lentidão com que se está a levar a água de Alqueva para as zonas onde ela é necessária, por exemplo o Roxo e o Enxoé. Há alguma perspectiva de a EDIA acelerar esse processo?

Dir-lhe-ia que sim. Há vontade política e até foi traduzida numa medida que precisa de ser explicada: Alqueva passou para a tutela do Ministério da Agricultura e isto é a vontade política de acelerar, mas por vezes ela choca com dificuldades de ordem orçamental ou técnica. A minha crítica é a do homem comum, não conheço os dossiês, mas parece-me que quando se estava na fase final da construção da barragem se poderia ter avançado mais no aspecto dos canais de ligação, e isso não foi feito.


Quanto ao abastecimento de água às populações, qual o ponto da situação, vamos ter dificuldades neste Verão?

Vamos ter dificuldades, aliás, temos todos os anos, há populações às quais sazonalmente temos dificuldades em fornecer-lhes água potável. Este ano vão surgir, além desses casos, outros. Os autarcas previram a tempo as dificuldades e adoptaram medidas, fizeram furos. Acho que temos que lançar na população mais motivação para poupar água. Não estamos habituados a isso, gastamos demasiado. Foi criada uma comissão da seca, com vários níveis de preocupação e correspondentes medidas. Nos locais onde a falta de água é maior, dentro de algum tempo teremos que começar a tomar medidas de controlo dos gastos. Algumas medidas são impopulares e admito que os autarcas, ainda por cima em véspera de eleições, tenham dificuldade em implementá-las, como por exemplo o aumento do preço da água para diminuir o consumo. Isto é uma medida altamente impopular, sobretudo porque os prejuízos dos agricultores reflectem-se nos comerciantes, nos serviços, nos restaurantes, nos cafés, nas mercearias, toda a gente sofre com a seca. Mas terão de ser tomadas a breve trecho medidas para conter os gastos de água.


A distribuição de água às zonas mais carentes, como se vai fazer?

Para a distribuição da água têm também que ser tomadas medidas. Ela está a ser feita com apoio dos bombeiros, mas receamos que dentro de algum tempo eles tenham que ser desviados para a sua função mais primordial que é a de combate aos fogos. Para remediar isso, quer os autarcas quer os agricultores adoptaram já medidas de combate à seca. E temos que nos habituar a poupar a água: tal como os nossos antepassados tinham cisternas nas casas e cisternas nos castelos para poder resistir a um assédio, nós, alentejanos, temos hoje que estar preparados para a falta de água, haverá outras secas.

"O Exército vai ajudar
na distribuição de água"


Além dos bombeiros, o planeamento feito para combater a seca inclui as forças armadas...

Sim. Nós, aqui, temos o apoio do Exército, há um planeamento que foi feito. Já houve contactos entre os ministros da Agricultura e da Defesa e há bastante tempo servi-me dos meus galões de velho general para pedir aos meus pares que se preparassem que nós íamos precisar de meios. Ainda antes da cobertura política já estávamos a trabalhar no planeamento no terreno, porque planear não custa dinheiro. Aliás, é normal o Exército em situações de emergência ajudar, não era nada que não fosse previsível.


O Regimento de Infantaria de Beja vai apoiar a distribuição de água às populações?

Exactamente, o Regimento de Infantaria de Beja, como é a unidade territorial, irá centralizar os meios, virão para cá ou serão colocados estrategicamente meios e geridos a partir daqui. Como o distrito é muito grande, poderemos colocar meios em Barrancos ou em Odemira, de acordo com as necessidades.


Outra vertente da seca é a possibilidade do agravamento dos incêndios, em especial dos fogos florestais. Como é que está organizado o combate contra os incêndios?

O problema da segurança e dos bombeiros é um problema com o qual convivo há bastante tempo. Os nossos bombeiros têm feito maravilhas e já têm uma experiência dos anos anteriores em relação aos fogos. Eles têm o planeamento feito, o levantamento dos meios, estão preparados. Mas estou muito pouco satisfeito com os meios que há, não se pode pedir aos bombeiros que façam no Verão o milagre de cumprir aquilo que durante o resto do ano mais ninguém fez. Não houve articulação, não houve limpeza de caminhos, não houve cuidado na consolidação da defesa da floresta, não há aceiros em condições...


As pessoas não fazem prevenção dos fogos...

As pessoas são capazes de ter o mato até à porta das suas vivendas e agora até é de lei que limpem até 50 metros. É no Inverno que se têm que tomar medidas em relação à protecção da floresta, a floresta está abandonada, chega ao Verão e começa a arder. E os bombeiros não chegam, se fossem duas vezes mais também não chegariam. Os bombeiros fazem o que podem, mas não isso chega porque os outros não fazem o que podem.

"O distrito de Beja vai ter
meios aéreos contra fogos"

Qual é a sua opinião quanto a meios aéreos no combate aos fogos?
Nós não podemos deixar de ter um poderoso vector de combate aéreo aos fogos. Não podemos estar a alugar aviões, temos de ter meios próprios e sou partidário de que esses meios dependam da Força Aérea, deve-se dar os aviões a quem os sabe operar. Até porque, desde que se crie essa "especialidade", há outros meios que poderão ser colocados na vigilância. A Força Aérea tem uma grande experiência na observação aérea e isso ajuda imenso, até no comando dos combates aos fogos. Usando um termo militar, o apoio aéreo é indispensável no combate aos fogos.


Está previsto, para este Verão, apoio aéreo baseado em Beja?

Baseado no distrito, sim. Nós temos uma base de helicópteros aqui em Beja, outra ali para o Sul e outra na zona da Vidigueira. Mas os meios aéreos são poucos, por isso os articulamos com outras zonas. Em termos de floresta, temos três zonas de risco: uma, a Norte, na zona do Mendro, onde a Vidigueira faz fronteira com Portel, aí coordenamos os meios com o Alto Alentejo; outra no Sul, em Odemira; e a faixa que se estende até Mértola, onde tem havido uma florestação intensa nos últimos tempos. Nesta zona, em caso de necessidade, contamos com os meios baseados em Loulé.

Texto: Carlos Lopes Pereira; foto: José Serrano

Publicado por Francisco Nunes em junho 29, 2005 11:26 PM
Comentários

Caro amigo Carlos Lopes Pereira,

peço-te, por este meio, o favor de entrares em contacto comigo. No passado dia 5 deves ter recebido um e-mail nesse sentido.
Um abraço,
Lonha.

Afixado por: Lonha Heilmair em julho 9, 2005 05:16 PM