Na publicação 'Beja 1966', e a propósito da estátua que, vinda de São Paulo, iria ser colocada no local onde hoje se encontra em Beja, António Stott Howorth traça a seguinte biografia deste bandeirante:
"1600.- Nasce em Beja o maior bandeirante do Brasil. Seus pais foram Fernão Vieira Tavares, provedor de Fazenda, e Francisca Pinheiro da Costa Bravo, apelidos de nítida ressonância bejense.
Existem descendentes directos de Raposo Tavares, quer em Portugal, quer no Brasil.
Os primeiros 18 anos do grande bandeirantes tudo indica terem decorrido em Beja e seu termo. Pertencente à nobreza ou à alta burguesia, Raposo Tavares terá feito os seus estudos em Beja e acompanhou seu pai quando este foi assumir o governo da capitania de São Vicente, no Brasil. Fixa-se então na vila de São Paulo, núcleo da mais importante cidade do Brasil actual.
1628-1629.- À frente de uma bandeira, ou expedição ao sertão, submete o território do Guairá, nas margens do Paraná, ameaçado por ocupação castelhana vinda do Paraguai e protegida pela união política de Portugal e Espanha que, inevitavelmente, tendia a termos mais favoráveis aos espanhóis, o próprio meridiano de Tordesilhas...
1633.- Raposo Tavares é nomeado juiz ordinário da vila de São Paulo.
Vivia então numa fazenda dos arredores de São Paulo, em Quitaúna. Ainda neste ano é Raposo Tavares provido no cargo de ouvidor da capitania de São Vicente.
1636.- Novo internamento, agora pelo sertão de Ibétiruna, nos actuais estados de Paraná e Santa Catarina, de onde prossegue para a região do Tape, no Rio Grande do Sul para, mais uma vez, destroçar as ameaças castelhanas.
1637.- À frente de um numeroso grupo de paulistas vai socorrer S. salvador da Baía, gravemente ameaçada pelos Holandeses que, a partir de Pernambuco alastravam pelo Nordeste e pelo Vale de São Francisco.
1640.- Após a derrota da esquadra do Conde da Torre, em que o socorro de Raposo Tavares se integrara, inicia-se a célebre retirada que levou os paulistas desde o cabo de São Roque até à Baía.
1641.- Mais do que a ninguém ficou D. João IV a dever a Raposo Tavares a sua aclamação em São paulo. Na acta da aclamação aparece a assinatura do grande bejense logo a seguir à do Conde de Monsanto, donatário da Capitania de São Vicente. A assinatura de Raposo Tavares, na letra encadeada do século XVII, por seu cursivo e regularidade, prova que se tratava de uma pessoa culturalmente evoluída que já certamente o seria quando deixou Beja nos anos da adolescência.
1642.- D. João IV nomeia Raposo Tavares, Mestre de Campo-General. Neste ano, como provedor da Cãmara de Parnaíba representou-a em Portugal, junto de D. João IV.
Entre 1642 e 1648 é, portanto, muito provável que o grande sertanejo tenha em Portugal sentido - e quem sabe se não terá participado? - o esforço militar da Nação empenhada na Guerra da Restauração que, por essa época, na região de Pernambuco, atingiu um dos pontos culminantes.
1648-1651.- São três anos preenchidos pela maior epopeia de desbravamento do solo brasileiro. Chefiando uma bandeira sai Raposo Tavares de São Paulo e continua através do Gairá, do Chaco, do Itatim, onde ataca aldeamentos de jesuítas Castelhanos; luta contra ferozes Guaicurus nas margens do alto Paraguai, atravessa os pantanais mato-grossenses, na confluência do Paraguai e do Juaperés; e finalmente, após a descida deste rio e do Madeira, percorre, a caminho da foz, o formidável Amazonas, alcançando Jurupá. Por esta acção pode em terra, ser Raposo Tavares comparável a Vasco da Gama ou a fernão de magalhães no mar.
1655.- Por documentos existentes na Casa Cadaval, sabe-se que Raposo Tavares se encontrava em Portugal pois, compareceu, em Lisboa, num "auto de diligência e testemunhas interrogadas por ordem de S. Majestade", a propósito da aplicação das leis acerca do resgate dos índios brasileiros, datado de Setembro de 1655.
1659.- Morre o grande bejense em São Paulo, com 59 anos.
Eis, em traços largos, a biografia de um dos maiores portugueses de todos os tempos, cuja estátua uma comissão de luso-brasileiros de São paulo, patrioticamente, ofereceu à cidade de Beja."
Publicado por Francisco Nunes em julho 30, 2005 04:19 PM