Antonio Raposo Tavares era um brutal e revoltado cristão-novo? - '2 partes gagas'.
Como já dissémos é controversa a imagem deste homem na actualidade. Pensamos que não é justa a análise dos comportamentos deste homem à luz dos padrões morais do século XXI. Raposo Tavares foi, apesar de tudo, um homem relativamente culto e um patriota português do seu tempo.
As suas acções, ao fim e ao cabo, não diferiam das acções de outros portugueses e de outros europeus da sua época e dos séculos imediatamente posteriores.
"No ano de 1628, as reduções do Guairá foram arrasadas e reduzidas a cinzas. Uma bandeira formada por noventa mestiços e mais de 2 mil indígenas Tupi deixou a vila de São Paulo, comandada por Antônio Raposo Tavares. Eles foram diretamente para Guairá e no vale do rio Ivaí arrasaram as reduções e prenderam mais de 4 mil Guarani. Queimaram as casas, a igreja, destruíram os roçados e invadiram o convento.
Dois padres jesuítas foram presos com os índios e também marcharam até o planalto paulista. Os padres ficaram chocados pela alegria com que essa expedição foi recebida em São Paulo. Um deles escreveu: A vida toda desses bandidos é ir ao sertão, trazendo presos [os índios] com tanta crueldade e violência para vendê-los como porcos!"
"Em 1628 convicto de que lucros ambiciosos jaziam no sertão, desafiando a coragem dos audaciosos, Raposo dedicou-se a organizar uma bandeira que realizasse o seu sonho. Aprontou uma das maiores e mais poderosas que foram organizadas. Em setembro Tavares deixou São Paulo, acompanhado de sua gente, que eram 3.000 homens. Tomando o caminho do Sul, e seguindo até alcançar as cabeceiras do Nordeste, fixou-se em pontos convenientes daquela região. Empenhou-se em assegurar a posse dos atuais Estado do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso; ocupados então pelas reduções jesuítas. Na confusão da luta, vários indígenas conseguiram fugir, indo refugiar-se no aldeamento jesuístico em Guaíra; em terras espanholas. O bandeirante não se conformou. Não podia deixar fugir assim aquele lucro esperado, certo de que afinal julgava merecido. Não hesitou, ordenou seus comandantes a capturar os fujões. Aquela povoação não ia abrigar mais nenhum índio medroso. Mandou incendiá-la completamente, capturando não só os que haviam refugiado, como também os 3.000 escravos indígenas que depois foram vendidos a outras capitanias brasileiras.[...]"
"Uma outra história
Segundo a nova perspectiva, Raposo Tavares e bandeirantes que atacavam igrejas podem ser vistos como "subversivos", desafiadores da hegemonia católica, na visão de Novinsky. Entre os bandeirantes, eram cristãos novos Raposo Tavares, Fernão Dias Paes e Brás Leme. Baltazar Fernandes, fundador de Sorocaba, matou com um tiro na cabeça o padre Diogo de Alfaro, que tinha sido enviado pela Inquisição para investigar os paulistas.
"A história do período colonial precisa ser reescrita", defende. Os novos documentos mudam as histórias das bandeiras e do Brasil, de acordo com a historiadora.
Os ataques das bandeiras às reduções, áreas em que os jesuítas agrupavam os índios para catequizá-los, ocorreram na primeira metade do século 17. O mais célebre dos ataques foi contra as reduções na região de Guairá, hoje território paraguaio, em 1628. Raposo Tavares teria saído de São Paulo com 900 brancos e 3.000 índios.
Foi nesse episódio que Raposo Tavares fez a sua confissão de judaísmo, na visão de Novinsky. Uma carta de Francisco Vasques Trujillo escrita em 1631 menciona que, ao ser questionado com que autoridade moral os paulistas atacavam os índios, ele responde que era com a autoridade "que lhes dava os livros de Moisés".
O saldo da batalha para os bandeirantes foi a escravização de 2.000 índios que estavam sendo catequizados. Com a expulsão dos jesuítas espanhóis, Portugal ganhou o território onde ficam os Estados do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso. A escravização dos índios acabou consagrando a teoria de que os bandeirantes eram movidos por razões econômicas.
O historiador John Monteiro, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), autor de "Negros da Terra: Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo", diz que os documentos reunidos por Novinsky mostram que a razão econômica é insuficiente para explicar os embates entre colonos e jesuítas. Não há dúvida de que ambos lutavam pelos índios para usufruir da mão-de-obra barata. Mas por que os confrontos com os bandeirantes paulistas foram os mais cruentos?
A questão religiosa pode explicar a ferocidade, afirma Monteiro. É uma peculiaridade da colonização de São Paulo que não se repete em outros lugares: "Tenho certeza de que as disputas não eram só econômicas. Passavam por alianças de famílias e pela identidade religiosa" ".

Publicado por Francisco Nunes em julho 30, 2005 05:51 PM