julho 03, 2004

O Encontro de Blogues do Alandroal esteve um mimo.

O Luís Tata está de parabéns!
Foi muito bem organizado este encontro.
Para o próximo já estarão todos presentes com toda a certeza.
Belíssima a comedoria, óptima a conversadoria...
De cinco estrelas todo este evento.

Com poucas excepções, estiveram presentes quase todos os blogues que se tinham proposto comparecer:
Abismo Negro...
Albardeiro
Alentejanando
Ao sul
BarraCROMOlógica
Contra Factos & Argumentos
Des-Encantos
Digitalis
Ego
Ene Coisas
O Emergir Vespertino...
Ideias Soltas
Ideotário
Intro.Vertido
Escrita Ibérica
A Internet para as Domésticas Já
Mulheres
O Vento lá Fora
Planície Heróica
Praça da República em Beja
Retorta
Tem Avondo
Vistas na Paisagem

O nosso contributo para a parte mais formal deste encontro obrigou-nos a imaginar o futuro do Blogues. Foi o que fizemos aqui na Planície... imaginámos... Saíu isto:

O Futuro dos Blogues

Foi com alguma vaidade que aceitei o pedido do Luís Tata para realizar uma pequena comunicação neste encontro. Pediu-me que esta não excedesse os 15 minutos e que servisse de base para, em conjunto com o Pedro Fonseca (Contra Factos e Argumentos), se estabelecer uma discussão em torno do ‘Futuro dos Blogues’.
Esta questão, não é simples e, seguramente, não é neutra.
Não é simples porque em termos tecnológicos o que se passou há dez dias já é passado. O que se passou há dez anos é história – que o diga o Dave Winer… Nunca este informático pensou que os blogues pudessem vir a ser o que são.
Os fotoblogues, os moblogues e os pagamentos por paypal já aí estão. Este é um processo que tenderá a avançar a um ritmo exponencial. Aos avanços tecnológicos seguir-se-ão sempre os preços mais baixos para que o produto anterior não apodreça nas prateleiras, à ‘democratização’ dos produtos e das tecnologias as empresas de ponta responderão sempre com mais inovação…
O Luís Rainha escreveu há dois meses no Blogue de Esquerda uma previsão para o que seriam os blogues daqui a 16 anos:

“Nas praças financeiras de Lisboa, não se fala de outra coisa: a compra do "Expresso". Por fim, o derradeiro baluarte da ultrapassada imprensa tradicional soçobrou ante o takeover hostil que lhe foi movido pelo super-blogue Barnacaldas. Este, já de si o resultado de uma fusão entre dois gigantes do sector – o Barnabé e o Blogue do Caldas –, cobre assim o único sector da paisagem mediática que lhe faltava, depois da controversa aquisição da TVI, no ano passado.
Em resposta aos rumores que dão como certa a entrada do Barnacaldas na Bolsa de Valores lisboeta, através de uma OPV que pode estar iminente, o CEO do blogue escuda-se no mais prudente dos silêncios.
Este súbito fervilhar de actividade especulativa no mercado dos blogues não tem passado despercebido aos observadores estrangeiros: num post da semana passada, a "Forbes" examina atentamente o que chama "The Great Portuguese Blog-Bubble". A história recente destes gigantes da comunicação é ali sumariamente escalpelizada, desde o modesto início até às primeiras fusões, passando pelo crescente açambarcar de receitas publicitárias e pela explosão do mercado dos conteúdos online por assinatura. É realçada a cegueira estratégica dos velhos dinossauros dos mass-media, que acordaram para a ameaça dos blogues tarde demais. Aliás, a primeira página desta última edição em carbono do "Expresso" – já avidamente disputada pelos coleccionadores – é eloquente e quase patética: "Rendemo-nos" surge como único título, enchendo de negro fúnebre as poucas bancas que ainda resistem.
Mas a concentração de poder e capital na blogosfera portuguesa conheceu há pouco um outro episódio inesperado, com a alienação da "Golden Share" estatal na PT ao Blogue de Esquerda-Direita-e-Centro. José Mário Silva, o chairman deste gigante, não estava disponível para comentar, à altura do fecho do presente post. Este arisco milionário – sempre recluso na sua ilha no Pacífico - foi o primeiro a adquirir um jornal tradicional, o "Diário de Notícias", numa jogada que muitos, na altura, tiveram por audaciosa demais.
Esta concentração crescente vem levantar outras questões. À medida que os colossos da blogosfera ganham dimensão e influência, o poder que detêm sobre a vida política nacional torna-se mais claro: a possibilidade de a próxima eleição para Presidente da República ter como favoritos dois conhecidos bloggers, é uma manifestação clara desta realidade que parece incutir um pânico irreprimível aos políticos "à moda antiga"; Santana Lopes, o eterno proto-candidato, chegou mesmo a desabafar "mas porque é que eu não aprendi a tempo a mexer num computador?"
Veremos o que reserva o futuro a este admirável mundo novo dos blogues. De já para já, o céu parece ser o único limite...
Lisboa, 7 de Maio de 2020”

Esta paródia (muito séria), escrita por um jornalista, para além de evidenciar a pouca neutralidade deste tema, levanta algumas questões pertinentes:

* A relação entre blogues e jornalistas;

* A relação entre políticos e blogues;

* As ‘movimentações’ de autores e actores na blogosfera;

* O ‘despertar’ dos blogues para a publicidade;

* O ‘despertar dos interesses económicos para a blogosfera e, por fim,

* Qual o limite para a blogosfera?

*A relação entre blogues e jornalistas foi, e continua a ser, uma das discussões mais prementes na Blogosfera. O jornalista Pedro Rolo opinou que ‘o jornalista deve abster-se de escrever tudo o que pensa; o jornalista deve ante pensar tudo o que escreve’. Como profissional o jornalista tem responsabilidades que deve ter presentes no seu dia-a-dia. Resumiu o que pensava desta relação dizendo: ‘Se estiver desempregado abrirei um blogue’.
Pedro Rolo fez esta afirmação na convicção muito falaciosa de que o texto jornalístico é neutro. Parece que o Positivismo volta ater seguidores no século XXI em várias áreas, do Direito à História, da Sociologia ao Jornalismo.
Torna-se pertinente citar o jornalista brasileiro David de Moraes, que, ao tomar posse do cargo de presidente do sindicato dos jornalistas do Estado de São Paulo, em 1978, afirmou:

“Nós não aceitamos a tese de que o jornalista possa ser neutro ou apolítico no exercício de sua profissão. Entendemos que qualquer processo de comunicação envolve sempre intenção, cujo conteúdo ideológico vai depender muito mais de quem detém a propriedade dos meios de comunicação do que do profissional que executa o trabalho”


A não ser que se considere que a Blogosfera é tão só um espaço de transgressão, - não deve sê-lo – não considero pertinente a opinião do Pedro Rolo. Há regras que devem ser respeitadas na Blogosfera como noutras áreas de comunicação. Esta é uma questão que traz acopladas duas outras: 1)Devem os responsáveis pelos servidores censurar os conteúdos dos blogues que alojam? 2)Será licito o anonimato dos autores de blogues?

* A relação entre políticos e blogues. Esta é uma relação com crescente peso. A sua evolução dependerá muito da evolução dos blogues. Registe-se que nas últimas eleições realizadas em Portugal muitos dos candidatos mantinham blogues. Outra questão: Será licita a crescente ‘infecção’ de blogues cujos autores têm ambições políticas não verbalizadas?
O jornalista Carlos Castilho, em conferência produzida na Universidade Federal de Goiás, a propósito da relação entre informação e poder disse o seguinte:
“[…] informação é poder: informação controlada é poder fechado, concentrado, em benefício de uns poucos (países e pessoas). Por isso a informação tem de ser aberta, democratizada, para que haja igualdade de oportunidades para todos, que é a base de qualquer sistema democrático”.

* As ‘movimentações’ de autores e actores na blogosfera; Esta realidade já é um facto há muito tempo.

* O ‘despertar’ dos blogues para a publicidade. Pernicioso este despertar. A liberdade plena de expressão pode não ser compatível com financiamentos externos ao seu autor. Afinal a blogosfera é, ou deveria ser, um espaço de cidadania. Um espaço de opinião sem qualquer limite…

* O ‘despertar dos interesses económicos para a blogosfera já se verifica nalguns servidores. Esta é uma questão que decorre da anterior.

* Qual o limite para a blogosfera? Eis a grande questão. Em principio tudo dependerá dos seus autores. Da sua capacidade de expressão, do seu dinamismo e dos seus dotes enquanto comunicadores.
Será previsível que muitos extingam os seus blogues. Que novos autores criem novos blogues e que outros blogues surjam fruto de empatias descobertas a partir da sua actividade.

De qualquer forma do texto analisado ficou de fora uma das vertentes mais interessantes e mais revolucionárias da blogosfera: A Liberdade de Expressão.
Já houve quem se referisse ao facto de a blogosfera ser um espaço mais opinativo que informativo em termos menos laudatórios. Associando esta característica a alguma ‘verdura’ desta forma de expressão.
Já alguém disse que os blogues estabeleceram novas regras de sociabilidade. A verdade desta afirmação consubstancia-se na nossa presença, com um fim comum, aqui no Alandroal. E isso é a realidade mais visível em sociedades democráticas e livres. Os Blogues são um escape, uma evasão mas também uma forma de intervenção numa realidade que nos cerca e que, com maior ou menor amplitude, influenciamos. Permitem-nos o encontro de outras ideias e, acima de tudo, permitem-nos a expressão e publicitação dos nossos anseios, dos nossos conhecimentos, interesses e ideias.
Mas mais importante, e tantas vezes esquecido: os Blogues, nas sociedades que impõem limites à liberdade de expressão, são um dos meios de expressar oposição ao status quo e de denunciar as injustiças de que são vitimas as populações ou parte da população desses países.
Cabe aqui uma palavra de reconhecimento ao Paulo Querido e ao João Carvalho que n’O Vento lá Fora e no Fumaças têm publicitado o trabalho de autores de Blogues do Iraque, do Irão ou de Cuba.
Em conclusão a Blogosfera é ainda uma realidade em construção, com muitas possibilidades, com muitos possíveis caminhos a trilhar. A Blogosfera é uma construção do Homem. Pode ter muitas aplicações. Censuráveis umas, brilhantes outras. Quase todas criticáveis e passíveis de aperfeiçoamento constante.

Publicado por Francisco Nunes em julho 3, 2004 11:23 PM | TrackBack
Comentários

Ainda bem que o encontro foi um sucesso.
Um abraço,

Afixado por: vmar em julho 3, 2004 11:52 PM

Com bloggers como o Francisco Nunes o futuro está assegurado.

Afixado por: luis tata em julho 4, 2004 12:30 AM

Encontro...que me parece muito profícuo, dado que foram explanados diversos assuntos sobre o fenómeno da BLOGOESFERA,dos quais alguns, ainda não me tinham cruzado a mente. Gostei muito de ler os 2trabalhos2 dos conferencistas.
Fiquei com pena de não ter ido...Talvez para a próxima.Parabens a si, e a todos os oradores.

Afixado por: Valeria em julho 4, 2004 02:33 AM

Parabéns amigo Francisco pelo facto de ter sido convidado para dissertar sobre esta matéria e tão
esclarecidamente o fez. Li atentamente o discurso e estou inteiramente de acordo com o seu raciocínio. Nós temos uma postura diferente dos jornalistas não andamos nisto em busca de qualquer receita, por isso concordo que esta forma de emitir-mos a nossa opinião não traduz qualquer tentativa de influenciar ninguém o que já não acontece com a maioria dos jornalistas que a par de cada um ter a sua convicção política, serve-se da escrita para tentar influenciar quem o lê. Também discordo que algum dia seja premitido difundir publicidade através dos blogs, pois embora acredite que houvesse uma grande maioria daqueles que por aqui andam que não recorreriam a esse fenómeno para poderem continuar a ser isentos de qualquer tipo de influencia, outros haveria que com o objectivo de
resultados económicos imediatos, aceitariam inserir nos seus blogs publicidade. Um abraço de parabéns pelo seu entusiasmo.

Afixado por: congeminações em julho 4, 2004 11:57 AM

Francisco, depois de ler mais atentamente as tais quatro páginas (brincadeira)confirmo o que lhe disse na altura... gostei! Foi uma bela iniciativa do pessoal do Alandro Al.
Um abraço.

Afixado por: Alves Caeiro em julho 4, 2004 12:14 PM

Francisco,
Claro que não me "chateia" nada o uso do meu texto :-)
Fico feliz por tudo ter corrido tão bem no vosso encontro...

Só uma coisa: por acaso, não sou jornalista. Sou coisa pior ainda: publicitário!

Afixado por: Luis Rainha em julho 5, 2004 10:42 AM

Tinha de ser publicitário. O texto do Luís Rainha era muito bom - sério e não solene como as declarações opinosas que vão enchendo os jornais.

Afixado por: carlos a.a. em julho 5, 2004 03:15 PM

Caro Francisco,
parabéns pelo excelente texto.
Acabei, com imensa pena minha, por não estar presente na prevista mesa-redonda onde teria tido o prazer de partilhar esta conversa consigo sobre o futuro dos blogues, pelo que a referência à presença do ContraFactos é errada e imerecida.
Ao ler os relatos do evento (aqui e, por exemplo, no http://ideias-soltas.weblog.com.pt/arquivo/129301.html), vejo como teria sido uma conversa muito interessante.
Como expliquei antecipadamente ao Luís "Alandro Al", estive em "prevenção" profissional.
Ainda bem que, pelo que li e vi em fotos, foi um encontro estimulante. Tenciono não falhar o próximo.
Pedro

Afixado por: PedroF em julho 7, 2004 01:18 AM

O Santana Lopes que se cuide...chegou o grupo de pressão Bloguista*.Desta vez de forma organizada e com caracteristicas conspirativas.Reuniram-se inclusivé a volta de um bom repasto...parece-me que os socios efectivos deste grupo vão ser muitos e persistentes.

*Não confundir com Bloco...

Afixado por: José António Pires em julho 21, 2004 02:09 PM
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