É provável que caiba aos portugueses a culpa do esvaziamento rápido de qualquer projecto político que opte pela aposta no livre-arbítrio, na responsabilidade e na honestidade de cada um de nós. É um facto que os homens honestos sempre se afastaram desgostos e desiludidos destes processos.
Em certa medida, a instauração da República lembra o recente 25 de Abril. As semelhanças são muitas e fortes.
Apenas dois anos após o 4 de Outubro de 1910, e dirigindo-se a um dos entricheirados do 4 de Outubro, Manuel Ribeiro traçou-lhe o seguinte quadro da República:
"[...]E é porventura o que aí está a república que tu sonhavas? Foram-se as leis de excepção, é certo, mas voltaram mascaradas nas leis de defesa. Abalou o Jesuíta, mas deixou cá a intolerância. Sumiram-se os comilões, mas surgiram os tubarões. O que querias então que fosse a república, meu ingénuo? Inevitavelmente ela tinha que continuar a ser o que são os seus homens, com os seus erros e as suas ambições. Que é a monarquia? Uma concentração de poder. Que é a democracia? Uma descentralização de poder. No fundo sempre o mesmo mal - o poder.
Ah, a tua famosa república!
E vê tu. Hoje para continuares a ser republicano tens que te matricular num partido, tens de que te guiar por um programa, tens inevitavelmente que pôr-te em contradição com o teu correlegionário de ontem, opondo as tuas idéias às dele - talvez mesmo a tua browning ao seu revólver. Se fores democrático chaman-te escória e ralé, chamam-te mesmo - canalha. Se fores evolucionista ou unionista chamam-te talassa e conspirador, chamam-te mesmo - traidor. E nota que se quiseres permanecer republicano tens que ser qualquer coisa destas, porque a tua república só a podes apreender, só te é sensível, dissubstanciada na triplíce encarnação afonsista, almeidista e camachista.
Outrora percorrias o país inteiro arrastando os povos com a palavra mágica da república. Só por seres republicano aguardavam-te como um messias e escutavam-te como um apóstolo. Hoje as idéias têm os seus departamentos como as influências políticas. Tal burgo é camachista? Atreves-te a ir lá prégar, afonsista! Esta mesma Lisboa, a cidade das imponentes paradas republicanas, dos soberbos triunfos eleitorais, esta Lisboa que fez a revolução unida pela mesma fé, solidarizada pelas mesmas crenças, é hoje um foco de capelinhas políticas cada qual consagrada ao seu ídolo. Pondera nisto, tu que sonhaste Portugal unido no mesmo credo, tu que só admitias mesmo a república capaz de congraçar todos os portugueses.
Bem empregado sacrifício o teu!"
in: Manuel Ribeiro; 'Na Linha de Fogo - Crónica Subversivas'; Empreza Editora Popular, Lisboa, Rua do Poço dos Negros, 79 e 81, 1920 (Trata-se de uma compilação das suas crónicas publicadas no 'Sindicalista' entre 1912 e 1913)
Publicado por Francisco Nunes em setembro 14, 2005 06:15 PM