novembro 20, 2005

Júlio César: um brasileiro

   Este brasileiro negro, de feições agradáveis, bondoso e delicado trabalha, com outros três compatriotas, em jardinagem, aqui na Planície.
   Estudou até que o estado brasileiro deixou. Não fez o Vestibular porque era pago mas terminou o Secundário. 'Sonhava com a veterinária em garoto' -disse-nos-, hoje anseia por se valorizar. Acabado o Secundário 'fez-se à vida' e veio cá parar.
   Agora, depois de ter conversado connosco, mostra-se entusiasmado com a possibilidade de poder tirar um curso de vertente agrícola no tão maltratado e tão pouco frequentado Politécnico de Beja. (Como detestamos criar falsas expectativas a quem quer que seja, aconselhámo-lo a, para já, tentar estudar à noite enquanto não se resolve a sua situação burocrática.) De qualquer forma, a situação deste moço deixou-nos a pensar.
   Os cursos agrícolas são desprezados pelos alentejanos e pelos naturais de outra regiões deste país. É muito estranho que se dedique o Alqueva a uma Juventude que não opta pela agricultura. É ridículo que as terras 'cá do sítio' mudem de mãos depois de construído o 'grande lago'. É escandalosa a pretensão de fazer do Alentejo um imenso campo de golfe rodeado por reservas de caça. É ridículo -mas compreensível depois do que se disse- que os nossos jovens continuem a ver a agricultura como um parente desprezível das actividades económicas. É irreversível, por este andar, que todos estes campos acabem a ser tratados por novas mãos.
   Recordamos o nome deste brasileiro de 24 anos: Júlio César.
   Pois é... será a Planície a sua Gália?

 

    (Publicado também na Torre de Menagem)

Publicado por Francisco Nunes em novembro 20, 2005 07:43 PM
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