janeiro 25, 2006
Vão-se os dedos; que fiquem os anéis...
Na imprensa destes dias foi o leitor esmagado com estes 'baldes de más notícias':
"Em cada 100€ gastos, os consumidores portugueses pagam mais de 20 recorrendo a cartões de crédito";
"Há mais cartões de crédito do que portugueses;"
"Segundo um estudo recente, somos o país que menos poupa no mundo"...
Cáspite!! Duplo cáspite!! Tristeza!
Agora, 'chorados' os dados expostos, para espairecer, imagine o prezado leitor que se dispõe a ir a Lisboa, de automóvel, pela A2, a uma agência de viagens para marcar umas feriazinhas de uma semanita, com a sua algo anafada e dedicada mulher -que isto não dá para mais...- na Ilha da Madeira... Imagine ainda o leitor que não deve nada a ninguém, que tem o carrito pago e conta pagar os seus merecidos dias de repouso a pronto com algumas economias que amealhou com o seu trabalho esforçado e que a sua Leontina, sabiamente, soube fazer esticar.
Neste pressuposto, o leitor partiu de casa dividido: por um lado tem a sua consciência tranquila por não ter prejudicado ninguém; por outro, está incomodado e constrangido por ousar pensar em férias quando tanta gente passa sérias dificuldades económicas no seu dia-a-dia. O salário minímo nesta 'choldra', recorda o leitor, roça claramente o ridículo.
Adiante: já na auto-estrada, o leitor percebe que o seu carro é o mais obsoleto de todos os que seguem no seu sentido de marcha e que o ultrapassam frequentemente com um ar prazenteiro e -sabe-o o leitor- sobranceiramente irónico.
Para desviar o olhar do fulano que o acaba de ultrapassar e lhe mostra, entediadamente, as 'snobes' costas do seu cotovelo, o leitor começa a atentar a todos os que, do outro lado das guias e da vala de segurança, seguem em sentido contrário ao seu. Toma nota que, pachorrentamente, se avista um carro semelhante ao seu, alheio a quem o ultrapassa. Sente-se espelhado naquela máquina e naquele homem. Um entre milhares: você e o sujeito que seguia pachorrentamente do outro lado da auto-estrada. "'Cromos'! é o que somos..." pensa.
"Vive-se bem em Portugal!', conclui de si para si levemente humilhado nas suas dificuldades.
Chegado a Lisboa o bulício é desumano. 'Dinheiro a rodos', cogita.
Na agência, após uma dificuldade imensa para estacionar o carro e após uma dura discussão com a sua senhora por esta não parar de lhe gritar 'Olha ali um, olha ali um!', enervando-o positivamente, depara-se com uma bicha para ser atendido. Entretem-se, para quebrar o tédio, a ouvir os projectos de viagem dos clientes à sua frente e os destinos verbalizados fascinam-no. 'Brasil', um; 'República Dominicana', outro; 'Tailândia', o gordo oleoso da pastilha elástica; 'Cuba', o fulano de fato branco com um certo ar de frigorífico de dois volumes; 'Quénia', 'Saint-Moritz'... Diacho!
De regresso, com os 'vouchers', pagos com um cheque vagamente amarelado nas pontas, bem aninhados no interior do blusão e bem juntinhos ao seu coração.
O leitor, fingindo ouvir a trama que a sua cara-metade lhe conta, dramatizando emocionada, os seus momentos mais marcantes, entretem-se a verificar os anos recentes inscritos nas matrículas dos carros pretos que o ultrapassam. Distraído ainda, pensa no País:
'Que grande país!' - Conclui.
Publicado por Francisco Nunes em janeiro 25, 2006 10:05 PM
Eh,eh,eh! Bom exercício.
Um @bração do
Zecatelhado