Continuamos no 1º número d'Os Gatos. Tal como hoje, em 1889 a gestão da coisa artística em Portugal roçava o trágico e o tragicómico. Alguns dos relatos da aventura das gestão artística em Portugal roçavam os episódios mais picantes de uma qualquer ópera bufa. Se o caro leitor recordar, ao de leve que seja, as negociações entre o Berardo e o Estado, facilmente compreenderá o alcance do atávico problema que este tipo de assuntos tem no nosso país. O artigo que nos preparamos para transcrever é longo e merecer-nos-á algumas considerações.
Para já é essencial que deixemos bem clara uma evidência: o Tuga do século XXI tem algumas -pouquíssimas- diferenças em relação ao seu antepassado do século XIX. A saber: a bengala e a polaina. Mantemos, entre outros atributos, o bigode estilo gancho de pendurar balões, a estupidez, a ganância e o proselitismo bacoco e infundado (outra estupidez...). Fialho de Almeida escrevia, pois, o seguinte:
"A paixão pelas obras de arte, está entre os particulares tomando tão grande espaço, que seria justo sugerirmo-la aos poderes constituidos, na mira de vermos ingurgitados com algumas aquisições, o museu nacional.
Por toda a banda o colecionador acorda, e os móveis desta selecção exótica que lhe aguça a sensibilidade, posto nem sempre venham filiar-se num fervoroso culto de arte pura, e muitas vezes se expliquem pelo amor do negócio, por vaidade burguesa, por emulações de família, ou por doença, não obstante convergem todos a um resultado nobre e salubérrimo, qual o de libertar da poeira e da ruína, quaisquer destroços, minúsculos que sejam, dessa divina arte com que o Portugal do velho tempo interpretou o conforto, e soube poetisar os interiores -esses refúgios de paz dos combatentes exaustos pela fadiga das viagens e das guerras." (continua)
Publicado por Francisco Nunes em março 17, 2006 03:05 PM