março 22, 2006

Os Gatos IV (Continuação da transcrição do texto de Fialho de Almeida iniciada n’Os Gatos II sobre o estado da arte em Portugal, no seu tempo)

   Fialho continuava a zurzir no pretensiosismo de alguns ‘connaisseurs’ de pacotilha. Tivesse Fialho conhecido muitos  marchands e muitas associações de mútuo dizer muito bem que pululam em determinados meios... Parte depois para uma pequena, muito improvisada e muito apaixonada relação dos factos que, em seu entender, deram início ao empobrecimento do património artístico nacional.

 

   (À laia de 'modo de usar', recordamos os leitores que a maior parte dos textos jornalísticos de Fialho, como é o caso destes Gatos, foram feitos ao 'correr da pena'.)

 

 
  «De feito, não se sobe a uma residência de amanuense, de simples agente de leilões, ou de boticário, sem depararmos na sala, no gabinete de trabalho ou no toilette, em núcleo ainda, e mais ou menos risível pela prosápia ‘d’etalage’, a famosa, a lambida, a suspirada colecção.
   Ventarolas e selos servidos, pratos das Caldas e oleografias, tudo serve, a pôr nestes santuários de medíocre, a mancha de cor  que que faz entrar na casa o raio de alegria porque todos os olhos amortecidos suspiram, e a nota de bem estar que às vezes falta na manteiga das torradas, no ‘roupão de madame’ nas botinas tortas das crianças, e nos trezentos e cinquenta mil reis anuais de ‘monsieur’.
   Cumpre entretanto encorajar no público estes instintos de pega, porque se o homem pobre e deseducado coleciona farrapos, em vez de bibelôs, ascendendo na escala do coleccionador, até à opulência, acharemos pelos palácios de Lisboa, em exibições de gosto, os mais impressivos e serpentinos echantillons dos grandes séculos da arte europeia.
   Demais que esta predilecção do belo, mesmo caraíba, sendo um sintoma de seriação cerebral de ordem superior, consola o critério, da opinião pessimista que ele se afizera formular sobre a decadência portuguesa, ao mesmo tempo que irá precavendo a opinião contra as 'rapinadelas' e logros com que os grandes espertalhões cá da casa e lá de fora, há cinquenta anos extorquem o que em Portugal havia de magnífico, em todos os géneros de pintura e de cerâmica, mobília e bordadura, ourivesaria e decoração. Como quasi todas as colecções portuguesas (a de D. Fernando aparte) são modernas, acontece nós estarmos desde o princípio do século a exportar para o estrangeiro maravilhas, sem a menor consciência desta sangria artística, e sem o mais ligeiro esforço de reacção contra ela, apesar dos gritos que vêm à imprensa soltar de quando em quando, algumas vozes bem intencionadas. Começou o saque com a evasão francesa, onde soldados e capitães carregaram para o seu país de França, o que quiseram, destruindo velhacamente o que não podiam levar. E desta infâmia guerreira, filha da cobiça mais áspera, deu exemplo o próprio Bonaparte, que enviava no exército, delegações de artistas e peritos, com ordem de rapinar tudo o que de precioso houvesse, nos edifícios das populações invadidas, e antes de concedido o saque à soldadesca. Só à sua parte Junot levou consigo, entre sedas e quadros, manuscritos, gravuras, alfaias sagradas, móveis, jóias, armas, e maravilhosas loiças do Japão e da China, despojos de uma riqueza inenarrável, como nenhum rei possua hoje talvez; e por tal forma abundantes, que três navios quase não bastaram para os transportar. Ainda lhe pudemos arrancar a Bíblia dos Jerónimos, e não sei que outros monumentos da arte nacional, mercê de uma recompensa em dinheiro de muitos contos. Mas calcula-se o destroço, dizendo que só em prata roubada, à sua banda, este bandido arrecadou para cima de trezentas arrobas.
   Acha-se graça a um cronista do ‘Echo de Paris’, que escrevia há seguinte ‘boutade’ feroz, a respeito da ‘pobreza’ do Louvre: “o meu amor próprio sangra ainda, à recordação das maravilhas que viu no Museu de Madrid. A Guerra de Espanha não foi para nós tão feliz, como as expedições de Itália”. -  Que espectáculo miserável!»
Publicado por Francisco Nunes em março 22, 2006 08:17 AM
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