março 27, 2006

Os Gatos V (Ainda -e durante mais umas postas largas- a continuação da transcrição do texto de Fialho de Almeida iniciada n’Os Gatos II sobre o estado da arte em Portugal, no seu tempo. Depois dos roubos franceses, os ingleses...)

   Há anos, no British Museum, enquanto apreciávamos os espólios da antiguidade clássica e pré-clássica expostos (gregos, egipcios, mesopotâmicos) experimentámos uma sensação de desconforto persistente, havia alguma coisa que não nos deixava serenar. Não era o templo grego transposto pedra por pedra, à nossa esquerda, não eram as múmias, nem os escaravelhos, nem a pedra da roseta... Havia, definitivamente, algo que nos deixava incomodados.  Faltava-nos o ar. Na ânsia de enfrentar a exposição com maior serenidade jogámos as mãos à cintura e atirámos o tronco para trás para facilitar a forte inspiração de que necessitávamos. Levantada a cabeça, içado o olhar por alturas do friso do templo helénico, apercebemo-nos que, atrás de si, havia uma balaustrada carregada com milhentos potes e vasos gregos. De várias cores, feitios e de várias épocas.
   Percebemos o que nos incomodava: incomodava-nos o disparate.
   Os 'bifes' expunham ali cerâmica clássica como a rapaziada, há anos atrás, expunha a pottery na E.N.1 por altura das Caldas e de Alcobaça. Escandaloso! É dos tempos em quue se organizaram estes espólios que nos fala o nosso Fialho.
   Fala-nos dos tempos heróicos da arqueologia, dos saques de franceses, ingleses, americanos e alemães sobre o mundo mediterrânico. 
   Pensa o prezado leitor que estes são tempos já ultrapassados?
   Não estão. Os saques mantêm-se e as peças 'recusam' voltar aos seus locais de origem. Os tempos hoje talvez sejam outros: mais discretos, mais... hipócritas.
   "Quando os franceses se foram, ficaram os ingleses, de rustilhada com alguns portugueses, legítimos ou adoptivos, que se valeram do oiro ou da omnipotência, para nos defraudarem do último quadro de mosteiro, e irem lançando a unha à última bonbonniére de família arruinada.
   Há setenta anos que o South-Kensigton. Museum, de Londres, secretamente mantém entre nós agentes seus, com ordem de vindimarem o país de todos os objectos de arte que apareçam. E esses homens, que de Portugal têm carregado para aquela espécie de formidável ministério de artes e ciências, pelo menos um décimo das precisidades que ele encerra, esses homens conhecem, como profissionais, ponto por ponto, a história das peças que ainda restam, pertencentes ao estado ou pertencentes a particulares, o seu valor, os seus detalhes, as suas imperfeições, as suas magnificencias, os seus estragos; e implacavelmente, como famintos lobos, ei-los espiam as necessidades de dinheiro dos proprietários, até chegar o dia em que a venda forçada lhes lance nas mãos algumas daquelas jóias, divinas e puras, que eles enamoram.
   De roda aos agentes de South-Kensigton põem-se os espertalhões que vêm explorar por conta dos grandes bazares da Europa... franceses que compram para os judeus milionários de Paris... americanos enviados de Nova Iorque e São Francisco, por conta dos vendedores de cortumes, enriquecidos, e dos negociantes de toicinho monomaníacos de bibelotage... Acrescentar a isto os espertalhõezinhos modestos da Rua do Alecrim e Moinho de Vento, agentes de colecionadores portugueses, calcular a cifra das transações anuais em seguida; tomar nota do tempo que esta sangria tem durado; e admirar enfim o manancial de riquezas decorativas, indescrítivel, que era Portugal!
   Ai! temos assistido impassíveis, como se não se tratasse de coisas nossas, a esse desmoronar de alfaias e obras-primas, tramado na sombra pelas colegiadas soezes, por cabidos indignos, e por audaciosos mordomos e intendentes, que assim foram trespassando das caixas fortes confiadas à sua guarda, para as galerias dos príncipes e dos grandes, as peças de valor histórico e artístico, sem o menor temor de responsabilidades contraídas, e gabando-se do roubo, inda por cima, com a impudência de pulhastros abroquelados sobre os brasões reais dos seus senhores.
   Temos deixado vender sem relutância, aos estrangeiros, obras únicas, maravilhas extremas de artistas os mais célebres e os mais deificados pela admiração universal, sem que o Estado tenha oferecido à cobiça de fora, um soprozinho de concorrência, tendente a adquirir para as galerias nacionais a obra em almoeda: e sem uma reprodução sequer, um simples desenho, que ao menos nos conservassem a silhouette daquelas maravilhas perdidas para sempre*.

* É conhecida a história do jarro e da bacia de prata, cinzelados e assinados por Benvenuto Celini, que o ourives Tavares, da Rua do ouro, tinha comprado cremos que aos viscondes de Sintra, indo-as oferecer mais tarde a D. Fernando, que as recusou por um mal entendido de preço, ridículo quase. Jarro e bacia, que primitivamente haviam sido oferecidos por pouco mais de meia dúzia de contos, foram depois comprados pelo barão de Alcochete, que os vendeu em Paris por noventa e tantos: e acabam, depois de peripécias várias nas mãos dos bricabraquistas, de fazer a sua entrada solene na secção de ourivesaria do South-Kensigton- Museum. Assim o refere o jornal inglês , 'Decoration'.

   O Conde da Folgosa possuia duas terrinas de prata assinadas Germain, que o marquês da Foz adquiriu por uma quantia oscilante entre os onze e catorze contos, e que acabam de ser vendidos em Paris, por quarenta, não sabemos a quem.

   Nenhuma destas obras o governo de esforçou por conquistar, chegando o desleixo a não ficar delas uma simples fotografia, para os nossos museus de Belas Artes."

 

Publicado por Francisco Nunes em março 27, 2006 08:40 PM
Comentários

Boas tardes
Estou muito interessada em ler este seu artigo, mas não consigo chegar ao começo. Poderá deixar-me os links das outras partes?

Grande artigo!

Cumprimentos

Afixado por: Terpsichore em dezembro 11, 2007 05:00 PM
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