Se estranhássemos já alguma coisa, teríamos estranhado que o Miguel Unamuno, autor tão falado no pós 25-A tenha sido tão esquecido de há já alguns anos a esta parte. Primeiro, foi ignorado quando alguns descobriram que o homem não gostava de Salazar, depois outros o esqueceram quando se aperceberam que detestava o Estaline. Todos os outros, os restantes, o esqueceram depois, quando descobriram que o espanhol detestava demagogos. Ao fim e ao cabo a mesma lógica que levou, entre nós, ao esquecimento de Fialho de Almeida, de Brito Camacho ou de Manuel Ribeiro, para só citar alguns.
Passou-nos pelas mãos há pouco um dos seus textos que, nesta época de TGV's, estádios e Otas, de Fundações e de 'tenças' a políticos, de sabujice e de corrupção, de meias verdades e de intriga, é de uma actualidade a toda a prova, insofismável. Aqui deixamos um excerto da sua prosa das 'Paisagens da Alma' que fez publicar em Junho de 1935, um ano antes da sua morte, e que traduzimos pouco rigorosamente do castelhano ao 'correr do teclado':
"Aqui, um pouco a norte desse risonho, verde e soalheiro Estoril, onde se isolam os turistas, levanta-se, frente ao céu e frente ao mar, o camoniano (de Camões) Cabo da Roca, extremo cabo ocidental da Europa, avançando sobre a América. Ao contemplá-lo, iluminado pelo sol, vem-me à mente aquela 'Decadência do Ocidente' -Untergang des Abendlander- do pobre Spengler. E pensava nestes pobres povos europeus... Europeus? Uns semiasiáticos ou africanos, ou as duas coisas de uma vez. Pensava nestes pobres povos europeus em que a liberdade se opõe à independência. À liberdade individual a suposta independência colectiva. Para poder ser nacional, desta ou daquela nacionalidade -russa, italiana, alemã, portuguesa..., o que quer que seja- há que deixar de ser homem inteiro e verdadeiro. Não dizem muitos em Espanha, que formamos a Anti-Espanha os homens inteiros dela? Desditosas nações faraónicas em que os Estado se enriquece empobrecendo e escravizando o povo, em que este agoniza de fome e de tédio entretidos para poder levantar pirâmides de glória! E quem diz pirâmides diz fábricas, estádios, arsenais, quartéis. Morre o povo ao pé de um monumento à sua glória. Sua? [...] desditosos povos faraónicos que nem sequer entendem os hieróglifos -escrituras sagradas- queadornam as pirâmides, tumbas de faraós levantadas a uma glória mumificada!
Publicado por Francisco Nunes em abril 19, 2006 06:40 PM