maio 23, 2006

Manuel Maria Carrilho alia-se a Cavaco contra a lei de Gresham

sob_sigilo_verdade1.gif    Manuel Maria Carrilho promete lutar contra a lei de Gresham no seu mais recente livro. Dá-se até ao meritório trabalho de nos explicar o que é a Lei de Gresham.
 Já aqui havíamos dito que começa a tornar-se evidente que não há verdadeira liberdade de imprensa em Portugal. Que não há jornalismo com 'J' maiúsculo. Torna-se evidente que não há imprensa nos moldes em que esta seria minimamente aceitável: jornalistas que investiguem as suas notícias com independencia em termos políticos, em termos económicos...
   Neste sentido, é óbvio, como diz Carrilho, que se assiste à 'proletarização do jornalismo'. Aliás os 'democratas do pós 25-A' têm feito todos os possíveis por proletarizar, com o beneplácito de uma sociedade invejosa e mesquinha, muitas outras classes profissionais. Esta é a única forma de submeter as pessoas aos ditames regimentais de um centro político mais oportunista que pragmático.
   Vivemos numa sociedade dominada por -como diriam Vasco Pulido Valente e Pepetela, respectivamente- devoristas e predadores.
   Dizemos mais, a este propósito: acreditamos que seja verdade, como o denuncia o Carrilho, que a sua campanha começou a ser denegrida com maior violência quando pôs em causa determinados interesses imobiliários instalados. E esta é uma diferença -quiçá a única!- entre a sociedade portuguesa actual e aquela que o Eça de Queirós e o Ramalho Ortigão retrataram há 130 anos.
  Os autores d'As Farpas publicaram num país que baseava a sua economia, como o disse Oliveira Martins, numa granja e num banco. Viviam ainda no tempo em que se apelava entre a gente da banca, à compra de terra porque esta 'já não se fabricava'.
   Progredimos. Hoje temos bancos e casas. A terra querem-na apenas os espanhóis. Pior, os bancos 'estão-se nas tintas' para a terra e desprezam (seria melhor dizer, 'ignoram?) a agricultura!
   Quer o leitor da cidade comprová-lo? É fácil: compre duzentos hectares de terra pelo preço justo (aqui na Planície, por exemplo). Parcele-os em dois lotes (digamos assim por força dos tempos que correm). Valorize os 100 hectares do primeiro 'lote' com pivôs de rega todos 'modernaços' (será assim que se escreve 'pivot' depois do acordo ortográfico?) e nos outros cem hectares 'espete-lhe três casões mal amanhados'. Aguarde três anos. Procure agora realizar capital hipotecando um desses lotes. Verificará que qualquer avaliador bancário lhe valorizará os torrões secos e maltratados onde espetou os casões e ignorará arrepiantemente a terra que valorizou e deixou em condições mais produtivas. A agricultura, em conclusão, já não é bem uma actividade produtiva...
   Bem ao contrário, os rapazes que fazem a sua vidinha dominando as câmaras municipais, os bancos, os clubes e as empresas de construção estão prósperos. Associam-se, combinam-se, encontram-se... e prosperam.
   Vivemos, pois, num período de bancos e de casas. Casas, muitas casas, 'pazadas' de casas. Eis o que anima a nossa economia altamente tecnológica.
  Ficou o leitor chocado? -Deve ser esse o choque tecnológico a que o P.M. se referia...
   O Cavaco, que escreveu tanto contra a 'má moeda', chegou a presidente desta república. O Carrilho copia-lhe os passos... pode ser que chegue a um lado qualquer. O País, esse, fica na mesma. A 'má moeda', se calhar, somos todos nós, que vamos a votos e que 'vamos em todos os futebóis'.
   Independentemente do sítio a que o Carrilho queira chegar, uma coisa é evidente: o homem tem razão na maior parte das coisas que diz. Vamos ver se isso é suficiente...
Publicado por Francisco Nunes em maio 23, 2006 04:47 PM
Comentários

O Carrilho tem alguma razão nos seus queixumes!
O Ricardo Costa fez uma triste figura no prós e contras!

Afixado por: canzoada em maio 24, 2006 07:20 PM

Ora aí está uma coisa de que só se fala em blogs (a situação do imobiliário em Portugal)... mas um assunto que convém esquecer a muitos senhores. Nomeadamente aos donos dos barracões...

Afixado por: Olinda em maio 24, 2006 10:28 AM

Má nada!

Afixado por: pontapé na lógica em maio 23, 2006 09:00 PM

Francisco, talvez uma solução à Brecht, dissolve-se o povo e elege-se outro!
Um abraço.

Afixado por: Albardeiro em maio 23, 2006 05:35 PM

Excelente texto, Francisco, na análise e nas evocações de Oliveira Martins e Ramalho Ortigão.
O mote que pegaste, Cavaco e Carrilho, é que acho que não jogam - são "mezinhos", mas tão diferentes...

Abraço

Afixado por: Carlos a.a. em maio 23, 2006 05:01 PM
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