agosto 26, 2006

O Gongorismo não morreu.

  Segundo informações chegadas aqui à redacção da Planície, o gongorismo está bem vivo na Justiça Portuguesa.

   Cultora das virtudes gongóricas da Palavra, uma ilustre juíza pediu assim, há bem pouco tempo, a sua refeição num restaurante bem conhecido:

   Vimos, por este meio, fazer valer o nosso direito inalienável de consumir neste estabelecimento, de que o senhor nos parece ser um competente funcionário, uma dose das viandas designadas no documento que publicitam junto dos consumidores como, e passamos a citar: 'bife da vazia à casa'. Mais solicito que nos seja proporcionada a degustação de uma essência vínica de cor tinta originária da peneplanície alentejana. Conforme é nosso direito, enquanto clientes e consumidores, fazemos decorrer desta degustação a eventual e agora potencial aquisição do referido produto báquico. Mais dizemos que as nossas funções, enquanto órgão de poder legalmente instituído, se iniciarão às catorze horas e trinta minutos da hora legal local. Tendo presente que o tempo urge no mundo hodierno, recordamos para seu serviço e organização que as Referidas Funções não são passíveis de protelação no tempo -tempus fugit, diríamos...- por nenhuma entidade constituida que não as legalmente estatuidas e estabelecidas para o efeitos consignados nos documentos legais que enformam esta república. Posto isto, ainda pretendemos solicitar-lhe que leve consigo para a respectiva procedência os víveres isolados por uma matéria plástica vulgarmente designada como celofane, que se encontram sobre o tampo da estrutura plana em madeira defronte nós a que vulgarmente se chama mesa.

(Trad.: Eu e o meu colega queremos um bife da vazia à casa e uma boa garrafa de tinto alentejano, depressa. Leve lá essas entradas, que ninguém as pediu. Despache-se!)

 

   P.S.: Consta que o interpelado empregado da casa não gostou de levar as entradas para a procedência.

   -Parece mentira! -desabafa constantemente o homem neste últimos dias- uma senhora daquelas a pedir-me para enfiar o salpicão, o presuntozinho de Chaves, a alheira, o patezinho do chefe, as azeitonitas e a saladinha de polvo na procedência! Olha que esta!...

   Outro excelente exemplo de gongorismo entre os agentes da Justiça Lusa:

 

"Com efeito, com o acto de citação das Requeridas, suspensas ficam as decisões administrativas impugnadas, tudo se mantendo, como se estas não existissem com as consequências daí necessariamente decorrentes, designadamente no plano desportivo ou de intervenção nos campeonatos mencionados no articulado inicial. Pelo exposto, indefere-se o decretamento provisório das medidas cautelares requeridas".
Publicado por Francisco Nunes em agosto 26, 2006 10:16 AM
Comentários

Porventura terá sido essa a juiza que apreciou e despachou a providencia cautelar interposta pelo Gil Vicente que está a ocupar os serviços noticiosos do País. Como será que ela se vai desembrulhar da alhada em que se meteu, fiz a pergunta num post que publiquei. Um abraço com votos de um excelente fds
Raul

Afixado por: congeminações em agosto 26, 2006 09:38 PM
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