agosto 31, 2006

UM MANIFESTO DA DIREITA EM PORTUGAL – TENTATIVA PROVINCIANA DE DAR RESPOSTA AO CORAJOSO DESAFIO COLOCADO POR JORGE FERREIRA À DIREITA PORTUGUESA.

UM MANIFESTO DA DIREITA EM PORTUGAL

TENTATIVA PROVINCIANA DE DAR RESPOSTA AO CORAJOSO DESAFIO COLOCADO POR JORGE FERREIRA À DIREITA PORTUGUESA.

   O documento publicado por Jorge Ferreira no seu Tomar Partido marca um desafio corajoso à Direita Portuguesa para que esta discuta, se entenda e se enquadre de uma forma desinibida na sociedade portuguesa. Este trabalho aponta ainda um espaço para o partido em que milita o autor Jorge Ferreira e faz um diagnóstico bastante ácido e acertado dos ‘fundamentos ideológicos’ do pântano em que a nossa partidocracia se enterrou até ao tutano. Um esforço meritório que tememos que seja também um movimento, um ímpeto, quixotesco.
   Gostamos dos Quixotes deste Mundo e, como não temos a ambição de vir a ser um moinho de vento ou um qualquer espantalho armado, vamos reagir e tentar entrar, com a humildade de quem tem um bloguezito que maça bastante alguns desgraçados que nos lêem (certamente por simpatia, por bondade e, nalguns casos, por comiseração) na discussão proposta.
   Num país onde, por estranhas alucinações, já há quem se reivindique do 'salazarismo democrático!!!' é importante discutir o que é isto de Direita. Neste país em que cada um tem a sua própria direita, esta é uma discussão urgente, fundamental. Entendamo-nos desde já: concordamos com a maior parte das ideias expostas pelo autor. Apontamos, no entanto, aquilo que nos parecem ser algumas lacunas, inconsistências e falhas no texto deste político e que, para facilidade da nossa exposição e para facilidade de leitura dos beneméritos que nos aturam, iremos enunciar em catorze pontos. Alguns destes pontos focam questões de fundo, outros arranham pormenores, alguns seguem uma sequência de raciocínio, outros não e a sua posição relativa não obedece a qualquer ordem de importância ou de grandeza entre eles. Aí vão:
   1.- Há, à partida e em termos globais, uma contradição neste texto que, em termos de sustentabilidade ideológica o deixa a pairar algo distante da realidade histórica e da realidade objectiva nacional: é muito complicado alguém assumir-se como conservador liberal num país que nunca conheceu o Liberalismo. (Parece-nos que o autor se apercebeu desta dificuldade e, no afã de a ultrapassar, bateu-se contra o pessimismo da ‘Direita Continental’, por oposição à ‘Direita Anglo-Saxónica’, mais positiva e... mais liberal).
   2.- Os Ingleses têm toda a razão quando reivindicam para si o mérito de ‘ter feito a Revolução Francesa’ com cem anos de antecedência. A Revolução Inglesa criou um regime de liberdades e garantias, um parlamento e uma limitação aos abusos dos ‘poderes’ logo no século XVIII. O liberalismo inglês assumiu as garantias e as liberdades individuais aqui conseguidas de uma forma bem mais clara e evidente do que qualquer outro país europeu. Para um súbdito de Sua magestade ser conservador quanto às tradições e ser liberal quanto aos valores políticos, jurídicos, éticos e económicos não é, de forma nenhuma uma contradição. Transpor esta situação para a realidade portuguesa e para o nosso ‘Rotativismo’ oitocentista e novecentista é ‘forçar a barra’ um pouco para além do aconselhável num discurso que se pretende rigoroso e que se pretende despoletador de uma discussão da máxima importância.
   3.- Gostaríamos que Jorge Ferreira, enquanto assumido homem de Direita, desse uma importância mais produtiva, mais apontada para o futuro, mais -se assim se pode dizer, 'material', à ideia de Nação. A Nação, dizemos nós, não pode ser apenas um 'melting pot', um cadinho de indivíduos. A Nação -qualquer Nação- deve ter um objectivo. E, na nossa opinião, a Nação Portuguesa deve ter um objectivo: O MAR!
   4.- O Mar, ao longo destes oito séculos e meio de História, limitou-nos, justificou-nos e suportou-nos. Dele dependerá certamente o nosso Futuro. Se o esquecermos sucumbiremos à centrípeta Castela e à burocrática Bruxelas, se o validarmos (e não estamos a pensar propriamente no Turismo...) justificaremos com toda a certeza a nossa existência enquanto nação atlântica com um pé no Continente e com outro pé nas Ilhas Atlânticas. Assumamo-nos - uma vez que até nem seremos a única - como uma nação marítima, sem quaisquer tipos de complexos.
   5.- Neste caso seria escusado e contraproducente uma ruptura com a C.E., mas seriamente determinante no Nosso sucesso a aposta numa frota pesqueira eficiente, na marinha mercante, numa armada moderna, na biologia marítima, na exploração dos recursos aquáticos e subaquáticos. A nossa economia teria um sentido, a nossa educação teria um fito muito para além do ‘respeito pela cultura dos outros povos’, a nossa política externa não vacilaria ao sabor dos ventos, a nossa política interna teria um vértice patriótico aceite por todos os cidadãos, a nossa indústria teria um objectivo e o nosso comércio um meio.
   6.- O ponto 2 da exposição de Jorge Ferreira envolve-se esterilmente, a determinada altura, na forçada dicotomia entre o Homem abstracto e o Homem concreto. A nosso ver esta dicotomia, pura e simplesmente, não existe. Ao contrário de Jorge Ferreira, achamos que o Homem (com maiúscula) só existe enquanto abstracção. Não se pode prover para o Homem concreto porque este não é uma entidade, é uma miríade de entidades portadoras de uma profusão infinda de virtudes e de defeitos, de ambições, de anseios, de medos, de ideais... Trata-se uma realidade concreta, sim, mas muito indefinida e, pior ainda, demasiado volúvel ao curso da História, das modas, dos tempos...
   7.- O político de Direita –aliás, qualquer político- deve preocupar-se com as pessoas, com os seus anseios e com a gestão dos seus interesses. A gestão corrente de uma política que possa dirigir-se ao agrado de todos é uma impossibilidade. Também neste sentido o político de Direita deve ater-se ao ‘interesse da Nação’ o que, em abono da verdade, já não é nada pouco...
   8.- As questões que se prendem com a salvaguarda das liberdades e dos deveres dos cidadãos são importantes, são baluartes da actividade política e são objectivos da Direita, mas estão também aninhados na esfera dos tribunais, que, em última análise, um político de Direita deve pugnar por manter independentes e eficientes.
   9.- Correndo o risco de entrar numa esfera mais subjectiva e quase psicanalítica, do discurso de Jorge Ferreira diremos que nos alegra a sua preocupação com a existência de um Estado eivado de valores como o são a Exigência, a Responsabilidade Individual; o Equilíbrio entre direitos e deveres; o Não Relativismo Ético (tão contestado já por autores cristãos como Lipovetsky); a Liberdade; a Propriedade; a Igualdade perante o Estado e perante os outros cidadãos; a Diferença sem privilégios de qualquer tipo que não os advindos do merecimento; a Justiça (leis claras e simples).
   10.- Ora, apesar de estarmos de acordo com os valores enunciados, e acreditando que a Família foi aqui um valor esquecido, torna-se-nos claro que o autor admite a existência de um cidadão que transporte muitos dos valores enunciados e que espera que o Estado não abdique de prover à existência dos valores que lhe competem (Justiça, Igualdade do cidadão perante o Estado...). Este cidadão, dizemos nós, será então ‘o cidadão ideal’!
   11.- O negado pelo autor 'Homem Abstracto', o Homem Ideal, afinal é um fim, é um objectivo?! Achamos esta questão importante porque ela nos mostra um receio enorme (-mais um!) da Direita portuguesa, –sim... podemos estar a fazer psicanálise-: o medo de ser apodada de totalitária, de fascista!
   12.- A Direita, também aqui, não pode ficar refém da Esquerda e muito menos deverá ficar refém dela mesma. Deve ficar claro que se a Esquerda pode reivindicar para si o ‘Homem Social’, a Direita tem todo o direito de sonhar com o ‘Homem Ideal’ –o Nietzshe criador do Super-Homem ético, não pode ser eternamente responsabilizado pelo mau uso que os Nazis deram ao seu pensamento!-.
   13.- Se há alguma coisa que levou muita gente a afastar-se da política foi a preocupação evidenciada pelos ‘politiqueiros’ que, como fito discursivo, tinham apenas o ‘medo de perder discussões’ e a negação de que houvesse alguma ligação possível entre ética e política. Vimos -e vemos- estas idiossincrasias em velhos e manhosos políticos profissionais e em ‘jovens turcos’ das Juventudes partidárias demasiadas vezes, com os resultados que estão à vista de toda a gente.
   14.-Em Democracia, em política, as pessoas devem acreditar naquilo que dizem e devem dizer o que pensam. Uma ‘discussão perdida’ hoje pode render muitos pontos amanhã. A não verificação desta atitude pelos políticos profissionais da nossa praça tem levado alguns portugueses para as franjas mais extremas (o que quer que isso seja...) do espectro partidário e, muitos mais, para a abstenção.
Publicado por Francisco Nunes em agosto 31, 2006 06:58 PM
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