setembro 24, 2006

Viver da carracinha.

          Via Fumaças chegámos a este texto do Zé Diogo Quintela que, de uma forma muito ácida, critica a passividade dos jornais desportivos face à corrupção que grassa no glorioso mundo dos lelinhos da bola. O que é muito triste é que esta correlação entre jornais, jornalistas e interesses não confessados não é exclusiva desse mundo corrupto da bola. Em certo sentido estas ligações manhosas fazem parte da nossa [embaraçante] forma de estar. 
    Conta-se que há uns anos atrás, numa povoação desta Planície, havia um médico que, em tempos muito difíceis, fazia o que podia para dormir descansado. Quer dizer: com o estômago cheio e a consciência minimamente limpa. Assim, aliviava a sua consciência curando os mais pobres que pagavam quando (não) pudessem e enchia o estômago junto dos mais afortunados.     Chegou o tempo em que a idade lhe começou a pesar e foi precisa a presença de um médico mais novo para o ajudar a tratar da saúde às gentes daquela povoação.
   Numa manhã em que as pernas lhe pesavam e os ossos lhe pediam sossego, o médico serôdio pediu ao novato que o substituísse nas suas consultas  daquele dia. Isso incluia a visita a um 'paciente dos bons', um aldeão um pouco mais abonado que os demais.
   O mais novo lá foi. Chegado à casa do tal doente 'paciente dos bons', bateu à porta, apresentou-se, deu a saber dos motivos da sua presença ali, abeirou-se do aldeão, auscultou-o, mediu-lhe a pulsação, viu-lhe a língua, observou-lhe atentamente os olhos revirando-lhe as pálpebras e, apalpando-o, localizou-lhe uma carraça bem alojada numa zona mais íntima da 'carcaça' do homem. Resolvido o problema, o aldeão, agradecido, felicitou-o pelo fim dos seus males e pela destreza do novel João Semana que, em boa hora, aportara àquele cú-de-Judas. O médico mais novo lá agradeceu, sem grandes efusões, todas estas manifestações e instado pelo agradecido doente, aceitou que este lhe pagasse um pouco mais do que era usual pagar ao seu colega mais velho.
   Ao jovem médico intrigava a inaptidão do seu colega para adivinhar a causa de sintomas tão evidentes. Temia que passasse por desrespeito ao seu colega, confrontá-lo com uma azelhice tão evidente. Optou por não pedir qualquer satisfação ao colega que, ao fim e ao cabo, até lhe apontara um paciente 'dos que pagavam'. Assim, acabado o serviço, dirigiu-se imediatamente para a sua casa. Além de precisar de estar só para pensar, tinha uma fome de leão.
   Estava já o Sol a perder alguma rijeza, quando ouviu bater à porta. Por não querer esperar pela Joaquina, uma empregada já entrada nos anos que se arrastava irritantemente para percorrer o corredor da cozinha à porta da rua, foi ele abri-la. Deparou-se com o seu colega que, acabado de entrar, lhe perguntou como tinha corrido a 'coisa'. Hesitante, o moço lá lhe disse o que tinha feito e como facilmente concluíra da existência de uma carraça que alarvemente parasitara o paciente do Monte Novo.
   - Então e tirou-lha? - perguntou o médico mais experiente.
   O moço médico nem queria acreditar no que ouvia. Então não era ele o médico?! Essa agora!... Ouviu-se responder:
   -Sim... tirei-lhe a carraça.
    - Tirou-lha!! Então, a partir de agora, alimente-se dela!...
Publicado por Francisco Nunes em setembro 24, 2006 11:53 AM
Comentários

Muito bem!!!! carraças ensanguentadas...de saudade....
Abraço
Paulo

Afixado por: Paulo Sempre em setembro 24, 2006 03:31 PM
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