A Passo de Caranguejo
O último trabalho do Umberto Eco prova o provincianismo aqui da rapaziada da Planície: 'ataditos', proclamamos de há uns tempos a esta parte que a realidade em que vivemos se assemelha à dos anos 20 e 30 do século passado.
Este intelectual italiano vai mais longe: caminhamos rapidamente para a Idade Média! Pelo menos...
Não resistimos a citar algumas 'passagens' das páginas 163 e 164 deste livro a propósito do fim da democracia e da republica romana.
"Em 64 a.C., Marco Túlio Cícero, orador já célebre mas ainda «homem novo», estranho à nobreza, decidiu candidatar-se ao cargo de cônsul. O seu irmão, Quinto Túlio, escreve então um pequeno manual, dando-lhe conselhos para obter o sucesso na sua empresa. [...] Quinto está longe longe de imaginar um político que se dirige directamente ao eleitorado, apresentando-lhe um projecto corajoso e enfrentando as críticas, na esperança de conquistar os eleitores com a força arrebatadora de uma utopia. A noção de um debate de ideias encontra-se totalmente ausente destas [20] páginas; aliás, Quinto recomenda constantemente que o candidato não se deve comprometer com nenhum problema político, de modo a não criar inimigos. O candidato ideal deve apenas «mostrar-se» sedutor, fazendo favores a uns, prometendo-os a outros, sem nunca dizer não a ninguém, porque basta deixar a ideia de que se vai fazer alguma coisa. A memória dos eleitores é curta e, mais cedo ou mais tarde, vão esquecer-se das velhas promessas.
[...] Aqueles que no texto de Quinto são os salutatores, os que rendem homenagens a mais do que um candidato, são hoje vistos como «terzisti» [N.T. - Nome que é dado às pessoas que não são de esquerda, nem de direita, ou que mudam de orientação política consoante o partido que está no governo.] enquanto os deductores, cuja presença contínua serve para atestar a autoridade do candidato, têm como função tormá-lo visível e (mutatis mutandis) desempenhavam o papel que hoje cabe à televisão."
Umberto Eco termina a sua analogia com esta constatação terrível:
"[...] Não podemos deixar de pensar que a democracia romana começou a morrer quando os seus políticos perceberam que não precisavam de levar a sério os programas, bastava que se esforçassem por parecer simpáticos aos olhos dos seus (como chamá-los?) telespectadores."
O pior, dizemos nós, é que nunca os demagogos se aperceberam do papel que desempenharam (e desempenham?) nos funerais das democracias. Ainda hoje há quem se assuma orgulhosamente como 'republicano, laico e socialista'!, por exemplo...
Publicado por Francisco Nunes em junho 5, 2007 09:57 AM
| TrackBack