novembro 16, 2007

Frio (O'Neill ao frio)

               O Frio está a chegar. O frio e a chuva (é o que dizem...).
                Nós, aqui pela Planície, temos frio. A nossa Alma, atacada a golpes de extrema sabujice e de estupidez, congela-nos, paralisa-nos. Os versos do medo*, do O'Neill, nestes últimos tempos, ecoam-nos no espírito como se fossem um oráculo gritado a partir do fundo dos tempos. Uma mancha de óleo, negra, pesada e viscosa emaranha-nos e torna-nos pesados os movimentos. Lerdos e apáticos espectros tomamos contacto com o medo.
                 Hoje, um primeiro-ministro desbocado garantia que por meritória actuação do seu governo tinham sido criados mais de 100 000 postos de trabalho (ao que pareceu, as dezenas de milhares de postos de trabalho extintos não contavam).
                 O reinicio da Guerra Fria foi anunciado, no mesmo jornal televisivo(!), muito laconicamente e em fracções de segundo.
                  As boas notícias -mesmos as boas notícias para os industriais do armamento!- não contam.
                  Dizia o O'Neill que o medo iria ter tudo -concordamos- até heróis! -dizia... Disso é que já duvidamos: que este medo crie heróis...

 

 

*Poema Pouco Original do Medo

  O Medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no múrmutio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
Ouvidos nos teus ouvidos
O Medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos) intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O Medo vai ter tudo
que se tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos
Alexandre O'Neill
Publicado por Francisco Nunes em novembro 16, 2007 11:43 PM | TrackBack
Comentários
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?