novembro 19, 2008

Sócrates - Uma anedota em sua honra

O pai afectivo do Magalhães diverte já algumas tertúlias mais báquicas de fim de tarde. A última que ouvimos reza mais ou menos assim:

Vítima de uma tremenda e aparentemente inexplicável falha técnica num dos Magalhães, o Sócrates sucumbiu.
O Primeiro, ao que se apurou depois, tentava demonstrar aos seus colegas europeus as capacidades impermeáveis do portátil azul mergulhando o aparelho num balde cheio de água que, a seu pedido, o quase caninamente fidelíssimo e muito prestabilíssimo Silva Lopes lhe providenciara. Ao que parece o 'Engenheiro' esquecera-se de retirar o aparelho da corrente e finou-se electrocutado.
Fatal falha técnica!

Ainda com os eflúvios asfixiantes dos fumos e cheiros a carne assada e a plástico derretido no ar, os ministros portugueses presentes naquela importante reunião interministerial improvisaram logo ali uma espécie de 'mini conselho de estado'. Ali mesmo, o Teixeira ds Santos, o Lino, o Pinho, o Silva Pereira, o Luís Amado e o Santos Silva tentaram uma solução para o enrodilhado cadáver.
O Teixeira dos Santos, economicista, propôs que o Primeiro se findasse onde morrera, em Bruxelas. Ao fim e ao cabo, o homem que deixava o seu nome ligado ao Tratado de Lisboa, merecia repousar até ao fim do tempos na capital da Europa, em Bruxelas. E depois evitavam-se as trasladações e os transportes, e o diabo a quatro...
O Lino, pá! não concordou. O Lino propunha-se erguer um mausoléu à saída da terceira ponte. Secretamente, apaixonava-o a ideia de transfomar aquela obra numa espécie de hino ao seu desempenho ministerial.
O Pinho, mansamente, recordou a necessidade de estabelecer alguma paz social entre o operários despedidos das indústrias de lanifícios. 'A Covilhã, pá! agradecia uma coisa assim em grande, uma coisa que mostrasse àqueles operários que não estão esquecidos'.
Afectuoso, o Silva Pereira recordou que seria bonito que o José voltasse para a aldeia onde foi menino e foi feliz. 'Uma campazinha assim bucólica, com roseiras, com perfumes silvestres e chilreios de passarinhos... ai, isso é que era....'.
Para os seus botões, apesar de muito discreto e elegante, o Luís Amado praguejava. Estava farto daquelas bacoquices e pepineiras. 'Uma mariquice pegada!' No momento certo, considerou: ' Caros colegas, o senhor Engenheiro José Sócrates deve ser enterrado em Portugal. O Primeiro-Ministro de Portugal deve ser depositado em Lisboa sob o manto diáfano e protector do espírito das Tágides lusas.'
Incomodado por se ter deixado ultrapassar naquela estimulante discussão, o Santos Silva irrompeu assertivo: 'Que melhor morte para este herói da política portuguesa do que morrer servindo o seu país e -melhor ainda!- servi-lo mesmo depois de morto?!' Saboreando com gosto o silêncio espectante que se estabelecera, o brilhante sociólogo do Porto rematou com uma estocada avassaladora: 'Proponho que o enterremos em Jerusalém! Depois de estabelecer em Lisboa a paz entre os Europeus e o progresso da Velha Europa, ao lado de Cristo, Sócrates fortalecerá a união entre o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo'.
Apanhada de surpresa aquela assembleia de circunstância emudeceu.
De súbito, do fundo da sala, um tipo moreno e atarracado deixou cair os caixotes que carregava e largou, em pânico, aos gritos:
- Em Jerusalém não, pá! Ora essa! Tá tudo doido, ou quê?
Interessados, os membros da assembleia voltaram-se e procuraram identificar aquele português que, como tantos outros, ganhava as suas sopas longe da pátria. António Crispim tinha sido o nome que em Pias um casal de proletários agrícolas dera no leito de nascimento a este intempestivo e inesperado interveniente. Fora a procura de melhores condições de vida que atirara o Toino para a Bélgica 'à procura da vida'. Ali estava...
Contrariado e amuado, Santos Silva lá perguntou ao nosso patrício o que é que o incomodava na possibilidade de sepultar um Primeiro-Ministro do alto jaez de Sócrates ao lado de Cristo.
-Oh, Doutor! Oh, Doutor! Atão você nã vê que essa terra é manhosa? Hã? Atão vocemecê nã sabe que já houve gajos que foram enterrados aí e ressuscitaram? Ora essa!... Pergunte aos padres que eles dizem-lhe.

Publicado por Francisco Nunes em novembro 19, 2008 10:57 PM | TrackBack
Comentários
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?