Comentários: Em 2007 metade da humanidade viverá em cidades

Caro João Guerra,
agradecemos desde já o seu comentário.
Baseamo-nos na leitura do La Vanguardia para as afirmações que proferimos sobre a regionalização em Espanha. Segundo este jornal o investimento per capita na Catalunha era muito inferior ao investimento do estado espanhol na Região de Madrid. No mesmo jornal referia-se o facto de muitas quintas do interior catalão estarem ainda por electrificar e à espera de saneamento básico.
...Não sou ingénuo e sei que o La Vanguardia não é propriamente isento em termos regionais (como não o será o El Pais...
Quanto ao aumento da população, das regiões... sou amigo de extremenhos de Fregenal de la Sierra (a 35 Kms de Barrancos) e a 10 da Andaluzia. Esta povoação, segundo os dados a que me fizeram aceder, perdeu 2/3 da sua população nos últimos 40 anos.
Do mesmo modo que a Andaluzia (ou a Extremadura) não perderam população, também o Alentejo não terá perdido...
As zonas interiores, no entanto, conhecerão uma realidade diferente cá e aí, em Espanha...


Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por Planície Heróica em abril 7, 2004 12:01 AM

Caro Francisco, concordo absolutamente com o essencial do teu texto. Mais uma vez, parece que o oportunismo dos nossos politicos vai inviabilizar a construção de uma região alentejo, que provavelmente seria a estrutura territorial com mais forte identidade cultural e maior coerência geográfica do País. É pena, mas a mesquinhez de alguns volta a impôr-se.

Só um ponto de discórdia: as perversidades da regionalização espanhola. Vivo em Espanha (Barcelona) há 2 anos e constato que a regionalização aqui feita - esta a sério, com eleição directa pela população de um parlamento e um governo regional - tem sido a grande impulsionadora do desenvolvimento económico e social do País. Não só no caso da Catalunha, que já era a província mais rica e desenvolvida antes da criação das comunidades autónomas, mas sobretudo das comunidades mais pobres. A Galiza, a Extremadura e a Andalucía continuam hoje a ser as comunidades mais pobres de Espanha mas a distância que as separa das comunidades mais ricas tem vindo a diminuir nos últimos anos. Mais importante ainda, considerando a analogia com o nosso Alentejo, estas regiões não perderam população nos últimos 25 anos e algumas até ganharam população. Em particular a Andalucia que, do ponto de vista de identidade cultural, me parece a região mais parecida com o Alentejo, tem visto a sua população aumentar de ano para ano e é hoje a comunidade autónoma mais povoada de Espanha, com 7 milhões de habitantes.
Estes dados podem ser consultados em www.ine.es
e em www.anuarieco2003.lacaixa.comunicacions.com

Por outro lado não é verdade que a transferência de dinheiro do estado para Madrid seja maior que para a Catalunha. Ao contrário, se tivermos em conta os impostos pagos em cada região e o dinheiro investido/gasto pelo estado nessa região, o balanço global é muito favorável à Catalunha. Isto, segundo um estudo de título "Las balanzas fiscales de las comunidades autónomas", de: Ezequiel Uriel (Professor da Universidade de Valência) e editado por "Fundación BBVA" (um resumo do estudo pode ser consultado no jornal "EL PAÍS de 11/10/2003"). De acordo com este estudo, cada madrileno paga em média mais 1243 Euros por ano ao Estado do que aquilo que o Estado investe/gasta em média por habitante na comunidade de Madrid. Cada Catalão paga mais 394 Euros do que aquilo que recebe do estado. Só por curiosidade, a comunidade que mais recebe do estado central é a Extremadura (vizinha do Alentejo): cada extremenho recebe em média mais 1312 Euros do estado do que aquilo que paga.

Só há dois problemas em Espanha:

1) As comunidades ricas onde o nacionalismo e o independentismo são fortes - Cataluña e País Vasco - tendem a exigir benefícios fiscais ao estado superiores aos das outras comunidades, o que se traduz nalguma insolidariedade destas regiões mais ricas para com as mais pobres. Refira-se que este problema não é efeito da regionalização mas sim do nacionalismo, que já existia muito antes da constituição das comunidades autónomas.

2) O problema Vasco: o País Vasco beneficia de um estatuto especial pelo qual os impostos, pagos pelos Vascos, são pagos directamente ao Governo Vasco, que depois paga uma quantia negociada ao estado em troca dos serviços prestados por este naquela comunidade autónoma. Sendo o País Vasco uma das comunidades mais ricas, isto significa que não há transferência de dinheiro do País Vasco para as regiões mais pobres de Espanha. Esta situação é, para muitos espanhóis de outras comunidades autónomas, uma injustiça.

É claro que em Portugal não temos problemas de nacionalismos regionais. Portanto estes problemas não se colocam. O principal problema é definir regiões com dimensão suficiente, massa crítica e identidade cultural. Tudo isto exige a criação de uma região Alentejo única, que englobe todo o Alto e Baixo Alentejo. Todas as outras soluções estão destinadas ao fracasso.

Saudações ibéricas,

João Guerra

P.S. Não deixa de ser irónico que um dos autarcas que com mais persistência defende a separação do Alentejo em Baixo e Alto seja o presidente da Câmara de "Ferreira do Alentejo". Suspeito que a sua primeira medida, se chega a presidente da região que defende, seja mudar o nome da sua terra para "Ferreira do Baixo Alentejo":)

Afixado por João Guerra em abril 6, 2004 11:42 AM

Raúl, não tenha ilusões quanto ao turismo para os Tugas... O parque da Costa Vicentina tem abutres que gotejam gulosos para o atacar.
A pressão vai para que se criem, neste momento, aldeamentos de luxo.
Vila Nova de Milfontes, em certos aspectos está já parecidíssima com Albufeira (a outra escala) no desordenamento urbano que sempre vai sendo permitido e nos preços praticados...
Por outro lado Barrancos, Mértola, Almodôvar, Moura fazem parte dessa pretensa região...
O crescimento do litoral não está em causa, apesar dos políticos... o que está em causa é a correcta gestão de uma Região única em capacidades e identidade que se chama Alentejo...
O Raúl não trata, em sua casa apenas da sala de televisão... uma Região não pode ser ordenada partindo do pressuposto de que apenas uma pequena parcela da sua área se vai desenvolver.
Acontece que a gestão será tanto mais difícil quanto insignificante forem as suas dimensões.
Em termos de gestão turística, neste momento, ninguém vende uma região apresentando uma praia. É necessário que se crie um sinal, uma marca o mais global e coerente possível.
Vender o litoral como se vende o Algarve não é o melhor caminho... nem é um caminho!
Aliás, para vender as praias do litoral alentejano não seria necessário a criação de uma região. Não é isso que está em causa.
O Alqueva, o porto de Sines, O aeroporto de Beja, as ligações a Espanha, não se podem confinar entre fronteiras tão estreitas que atrofiem e esmaguem o desenvolvimento sustentado de toda a região.
O Guadiana é um elo de ligaçãoe entre todo o interior alentejano: está prevista a sua fragmentação.
A área de caça turística abrange todo o Alentejo: está prevista a sua fragmentação.
A área de regadio do Alqueva serve o Baixo Alentejo e o Alentej Central: está prevista a sua fragmentação.
As carnes de pastagem alentejanas Vêm fragmentada a sua gestão.
etc, etc,...
Raúl, não estou já pessimista... estou desiludido e revoltado.

Obrigado pelos comentários,

um abraço a todos,
Francisco Nunes

Afixado por Planície Heróica em março 30, 2004 12:08 AM

Creio que Francisco está a ser demasiado pessimista. Em relação ao Alentejo, julgo que a
zona litoral irá dentro em breve começar a expandir-se porque o Algarve está a ficar saturado em termos de aldeamentos turísticos e outros equipamentos que começam a retirar interesse sobretudo aos portugueses que demandam as suas praias e o congestionamento que as mesmas
estão a oferecer, são causadoras de desmotivação cada vez maior dos seus frequentadores que se começam a virar para as praias alentejanas.

Afixado por congeminações em março 29, 2004 11:42 PM

Se Sines,Santiago e Beja não escaparem ao despovoamento e levando a projecção extremo, pode-se afirmar que dentro de algumas décadas a existência de alentejanos poderá estar em risco. Bom se calhar nessa altura já somos todos iberos ou espanhóis.

Afixado por vmar em março 29, 2004 11:29 PM

Muito bem. Só um reparo: não se chame desertificação ao problema do despovoamento...

Afixado por Peixoto em março 29, 2004 07:37 PM

Excelente texto, Francisco, assino de cruz cada uma das tuas palavras!
Que tal se conseguíssemos, nós cidadãos anónimos e não alinhados, promover a reflexão deste e de outros assuntos que verdadeiramento interessam ao Alentejo?

Fica a proposta!

Abraço

Afixado por carlos a.a. em março 29, 2004 11:08 AM